yehuda amichai: seis canções de toda época


Yehuda Amichai (1924-2000) é um dos mais destacados poetas de língua hebraica do século XX. Nascido no seio de uma família de orientação ultra-ortodoxa em Würzburg, Alemanha, emigou para Israel em 1936. Durante a Segunda Guerra Mundial, Amichai lutou na Brigada Judia do Exército Britânico, e esta experiência deixou marcas profundas na sua lírica. A obra que legou é extensa, com 15 livros de poemas, dois romances, vários contos e teatro, sendo considerada fundamental para se refletir as margens da experiência da linguagem na lírica moderna, a tópica da violência e do amor. A poesia de Amichai está, portanto, intimamentemente conectada ao convívio possível entre os homens num mundo destroçado pela falência do Humanismo. O tema do destino, do pacifismo e das perdas é recorrente em sua escrita, onde a esfera privada está implicada na vida pública do homem comum. Apesar de ter sido indicado algumas vezes sem nunca ter recebido o Prêmio Nobel, Amichai ganhou inúmeros outros prêmios internacionais de poesia. Atualmente está traduzido para mais de 35 idiomas. A presente tradução se baseou nas versões em língua inglesa de Bloch & Kronfeld (Nova York: Harcourt, 2000), de Barbara & Benjamin Harshav (Nova York: HarperCollins, 1994) e de Gutmann, Schimmel & Hughes (Londres: Penguin, 1978).


Eu sou grande e gordo

Eu sou grande o gordo.
Para cada quilo de banha,
Foi-me adicionado um quilo de tristeza.

Eu fui muito gago, mas desde
Que eu aprendi a mentir, minha fala flui como água.
Só a minha cara ficou empedrada
Qual as sílabas impossíveis de pronunciar,
Nas pedras de topar enganchando.

Às vezes meus olhos ainda lampejam
Como fogos de armas remotas
Muito longe dentro de mim. O velho duelo.

Eu espero dos outros
Que não esqueçam. Que só eu próprio esqueça.

Que fique ao fim esquecido.


Metade das pessoas do mundo

Metade das pessoas do mundo
Amam a outra metade,
Metade das pessoas
Odeiam a outra metade.
É por causa destes e daqueles
Que eu tenho que vagar infinitamente e mudar
Como a chuva no ciclo da água,
E adormecer em meio às rochas,
E ser tosco como as oliveiras,
E ouvir a lua ladrar pra mim,
E camuflar meu amor com preocupações,
E crescer como a erva que acena entre os trilhos dos trens,
E me enfurnar na terra como uma toupeira,
E habitar entre raízes não entre galhos,
E não encostar minha face às faces dos anjos,
E amar na caverna primitiva,
E casar com minha mulher debaixo de uma cúpula
De clarões apoiada no solo,
E interpretar a minha própria morte, sempre
Até o último suspiro e as últimas
Palavras já sem entendimento,
E colocar um mastro em cima da minha casa
E um toldo protetor por baixo. E partir por estradas
Feitas apenas para retornar e passar através
De todas as estações horrorosas –
Gato, fósforo, fogo, água, massacre,
Desde o garotinho até o anjo da morte?

Metade das pessoas amam,
Metade odeiam.
E onde é o meu lugar entre estas tuas metades marcadas,
E através de qual brecha eu verei
Os edifícios brancos que hão em meus sonhos,
E os descalços andarilhos das areias
Ou pelo menos o lenço de cabeça da moça
Acenando na encosta arcaica do morro?


Por minha mãe

1.
Como um velho moinho,
Duas mãos sempre erguidas para rogar ao céu
E duas abaixadas para fazer sanduíches.

Seus olhos limpos e lustrosos
Como numa véspera de Páscoa.

À noite, ela põe todas as cartas
E fotografias juntas umas das outras,

Para medir com elas
O tamanho do dedo de Deus.

2.
Eu quero andar por entre
Os charcos fundos de seus soluços.

Eu quero ficar ao vento quente
De seu silêncio.

Eu quero me apoiar
Nos troncos áridos de sua dor.

3.
Ela me coloca,
Como Agar coloca Ismael,
Em baixo de um dos arbustos.

Assim ela não me verá morrer na guerra,
Em baixo de um dos arbustos
Em uma das guerras.


O lugar onde eu nunca estive

No lugar onde eu nunca estive
Eu nunca hei de estar.
O lugar onde eu estive era como
Se jamais estivesse lá. Os seres humanos vagam por aí
Bem longe do lugar onde nasceram
E bem longe das palavras que suas próprias
Bocas proferiram,
Não mais no campo das promessas
Que prometidas foram.

E eles comem de pé, e morrem sentados,
E recostados rememoram.

E para o que eu jamais tornarei
A ver, eu hei de amar para sempre.
Só um estranho vai voltar pro meu lugar. Mas eu hei de
Inscrever as coisas novamente, como Moisés,
Depois de arrebentar as primeiras tábuas.



Instruções para tua viagem

Inclina tua cabeça para fora da janela,
Os arames podem se enganchar no teu cabelo.
Confunde o horário.
Me entende. Experimenta
Tua última experiência. Levanta teu vestido
E não apresenta o bilhete
Para a inspeção. Não deixa ninguém saber
Para onde estais indo.
Joga um cigarro aceso pela janela.
Provoca um incêndio lá fora,
Magna irmã dos incêndios em meus olhos.
Deixa a porta aberta.
Deixa a terra aberta.
Joga. Recosta. Tira. Não mostra
Tua identidade. Não te levanta
Diante do velho. Senta no teu retorno. Conversa.
Ama-me.




Deixa a moeda decidir

Deixa a moeda decidir. Os Reis
Deixaram. Não faz a tua escolha.
Repara como a nuvem canta
Tudo o que quiseste dizer ou achar.

Adorna com a sorte as palavras e as flores.
Faz política dum pingente para tua mulher.
Lança fora os decretos, as intimações.
Guarda só uma prece para a tua vida.

Deixa as ruas serem teus líderes.
Deixa a lua se encher e brincar.
São as noites os teus leitores fiéis.
Esquece as coxas. Segue pelos caminhos.

Monta uma barraca na esquina da Justiça.
Deixa que o juíz julgue seu próprio jogo.
Conta as estrelas. Senta e não faz nada.
E não pergunta que nome ele tem.

Sebastião Edson Macedo é poeta, ensaísta e tradutor, autor de: as medicinas (Rio de Janeiro: Oficina Raquel, 2010); para apascentar o tamanho do mundo (Rio de Janeiro: Oficina Raquel, 2006); e: cego puro sol (Rio de Janeiro: UFRJ/FL, 2004). Nasceu no interior do Piauí em 1974. Como pesquisador acadêmico, realiza o Ph.D. em Literatura Luso-Brasileira na University of California, Berkeley.

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