amor entre iguais: entrevista com paulo bezerra


Este homem é simplesmente é um dos grandes nomes da Teoria Literária no cenário nacional, tendo realizado uma consistente produção crítica e despertado admiração em todas as suas gerações de alunos. Hoje, ele se aposenta deixando uma perspectiva peculiar sobre a literatura e sobre a vida.

Paulo também foi responsável pela tradução de importantes obras literárias: Dostoiévski, Bakhtin, Tolstói e outros grandes escritores foram vertidos para o português através de suas mãos.

A paixão com que realizou o seu vasto trabalho envolve a todos que com ele têm algum contato, e ao deixar, nesta entrevista, um pedaço de suas experiências, Paulo Bezerra anuncia aos leitores da Pequena Morte um pouco daquilo que expressou durante tantos anos.

Frequentando as aulas do professor, ouvi a seguinte frase: “O amor é possível somente entre iguais.” Tomando temporariamente posse desta declaração, pergunto: dada a fruição que é a relação entre leitor e literatura, como tem se manifestado esta relação durante todo este período de leituras, releituras, traduções e aulas?

Quando Tchékhov pronunciou essa frase, tinha em vista iguais não em termos sociais, etários etc., mas afetivos. Portanto, só quando duas pessoas são dotadas de afeto e sensibilidade para receber e retribuir a afetividade no mesmo diapasão — ou em diapasão aproximado — é que é possível o amor mútuo. Senão o amor seroia um dar ser retribuição, uma eterna fonte de sofrimento. Se tentarmos aplicar a frase de Tchékhov à relação entre leitor e literatura, poderemos dizer que sem uma grande empatia com a literatura como arte é impossível interpretá-la. No tocante à tradução, a empatia com o texto de partida é fundamental para que se produza um bom texto na língua de chegada, isto é, na língua nativa do tradutor. Quanto ao exercício em sala de aula, o bom professor é aquele que sente paixão pelo que faz, pois essa paixão é o que lhe permite abrir a comunicação e a interação com seus alunos. Sem paixão pelo que faz o professor não passa de um burocrata que cumpre horário na sala de aula.

De que modo a visão de Dostoiévski sobre o homem e seu contexto sócio-histórico tratou e moldou a visão de Paulo Bezerra sobre o indivíduo e a sociedade? Qual das obras deste escritor deixou traços mais marcantes em sua vida?

Para Dostoiévski, investigar as profundezas da alma do homem é o caminho para conhecê-lo e entendê-lo, e também para entender a sociedade que o produziu ou que ele ajudou a produzir, a fim de posicionar-se diante dela. O conjunto da obra de Dostoiévski foi fundamental em muitas questões de minha vida. Foi de especialíssima importância a seguinte concepção filosófica que atravessa toda a sua obra: quando atingimos um objetivo e nos damos por satisfeitos, negamos nossa condição principal de seres humanos, pois a solução de um problema gera necessariamente outro de ordem superior. Assim, estamos sempre à procura do autoaprimoramento, isto é, sempre em estado de criação.

Tradutor de obras do russo para o português, com importantes premiações por este trabalho. Nesta questão, gostaria de saber a sua opinião sobre a literatura brasileira, e também sobre qual o escritor de nossa língua que precisa ser melhor traduzido, ou melhor compreendido, pelos leitores e pela crítica literária.

Além de Machado de Assis, acho que Graciliano Ramos e Guimarães Rosa são os autores brasileiros que precisam ser melhor estudados e entendidos pelo leitor ou pela crítica. Considero São Bernardo um romance perfeito como gênero, e Grande sertão: veredas, a obra de maior pulsão de vida na literatura brasileira.

O que poderia contar sobre o período em que esteve na Rússia? O momento histórico, os fatores que o influenciaram como leitor e tradutor e os que contribuíram para as atividades acadêmicas até o momento…

Acho que a resposta não caberia numa entrevista, mas posso afirmar uma coisa: foi o melhor período de formação da minha carreira e da minha vida.

Uma mensagem que considera importante repassar aos diversos leitores, jovens pesquisadores de literaturas de língua portuguesa e também a futuros educadores.

Não se deve aceitar a afirmação de que o homem já nasce com seu destino traçado. Ela é a receita para a resignação. Ninguém nasce com destino traçado. É o homem que faz seu próprio destino. Basta apenas que tenha sensibilidade para perceber a chegada do seu momento e agarrá-lo com unhas e dentes. Aceitar a predestinação é aceitar que uns nascem para serem grandes e felizes e outros para serem inferiores e infelizes. Não há pessoas melhores nem pessoas piores. Elas são apenas diferentes: cada uma bela ou sinistra a seu modo.

Glauco Homero é licenciando em Letras pela Universidade Federal Fluminense.

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