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OPACIDADE E TRANSPARÊNCIA

(recensão a A porta de Duchamp, de Rosa Maria Martelo. Lisboa: Averno, 2009)

Uma epígrafe de Cesariny, na qual “Não há porta. Por que haviam de bater à porta que não há?” (p. 5); outra de Álvaro de Campos, em que figura uma “porta do ser, que não tem porta” (p. 5). O livro intitula-se A porta de Duchamp, e o elenco inicial já aponta para um aspecto importante: o francês, o português e o inventado engenheiro são, cada um em seu espaço-tempo e a seu modo, modernos. O que me interessa aqui na ideia de modernidade é a invenção da obra como um organismo capaz de se pensar profundamente, e isso me interessa porque interessa a Rosa Maria Martelo, nesse livro e em diversos de seus ensaios. Moderno, pois, como vanguarda, como novo, como uma “porta” para muitos entendimentos e mudanças de lugares e subjetividades.

Se falo em mudanças, penso em Camões para chegar à personagem de “A porta de Luiza”. Luiza Neto Jorge, sabe-se, é potente leitora camoniana, e autora do poema “A porta aporta”, bem-vindo a uma leitura do livro de Rosa: “a porta roda ao invés da lua/ a porta roda bússola enterrada ao invés dos olhos/ a porta geme é um cão nocturno/ a porta geme extinta na trela da noite/ a porta areia/ a porta caruncho pária de mar”.[1] Com alguma boa herança surrealista, mas sem mergulhar demais no surrealismo, Luiza amplia a ideia de porta não apenas nesse poema, mas em outros. Lendo Luiza e tornando-a sua personagem, ou melhor, encontrando “ela”, que “tinha jurado não obedecer” (p. 15), “A porta” de Rosa “aporta” num constante movimento, desmontando o pressuposto designativo “porta” e tornando-o multissêmico, tornando-o, digo de outro modo, uma novidade: “Ela via em síncope, como quem espreitasse a uma porta intermitente. Vislumbres. Não havia som, havia transfusões, tubos transparentes, fogos-fátuos.” (p. 15).

E “havia” também, e há, “O viajante”: “Está acima das nuvens, no alto da montanha mais alta. Vemo-lo de costas, imóvel e contemplativo.” (p. 11). Nesse lugar, “diante dos cumes mais altos” (p. 11), não há “porta”, há, pelo contrário, a amplitude, a perene possibilidade da entrada e da saída, pois tampouco há entradas e saídas. Uma poderosa metáfora reside em “A porta de Duchamp”, texto de abertura do livro: “Quando vivia em Paris, no pequeno apartamento da rue Larrey, nº. 11, Duchamp fez instalar dentro de casa uma porta que não podia estar nem aberta nem fechada porque estava sempre aberta e fechada ao mesmo tempo.” (p. 7). De modo semelhante, os textos desse livro são dotados de uma reflexividade (não falei em caráter moderno?) típica do ensaio e, “ao mesmo tempo”, da expansão de sentidos característica da poesia. Não surpreende, pois a ensaísta Rosa Martelo sempre se dedicou sobremaneira a pensar o poético.

Não surpreende tampouco, consequentemente, ser “Verso” o título do segundo texto de A porta de Duchamp. É claro que existe um verso, uma peculiar trajetória, no ritmo desse livro tão concertado em portas e cumes. Mas julgo ser “Verso” o texto mais próximo do poema, sobretudo pelo ritmo da linguagem: “Há quem fale de livros entrados na carne como agulhas, de venenos incolores descompassando veias em vertigens de tempo por ideias; há quem diga ser pura visitação, perder tapete e espelho, ouvir na própria voz a voz alheia (aí onde te encontras, leitor, perdido como eu sob as estrelas); há também quem fale de coisas bem pequenas, em recriados exercícios de encolher (ou recolher) a exaltação.” (p. 9). Na “voz” de Rosa, muita “voz alheia”, declarada (Duchamp, Luiza, Hitchcock – “Filme” (p. 26) –) ou sugerida. Em “Verso”, noto a sutil, porém forte, presença de algumas linhas de força da poesia de Herberto Helder, e não me deterei a elencar minhas herbertianas suspeitas – a “carne” entrada por “livros”, os “venenos”, a “exaltação”, e paro por aqui.

Sigo com “Vidros”, texto em que encontro sintagma que nomeia a mais recente reunião de ensaios da autora, Vidro do mesmo vidro: “Não há como colar o vidro das palavras ao vidro das coisas”, e profere tal assertiva quem leu, não apenas Foucault, mas muita poesia, Pessoa inclusive. Cito mais: “Ainda que sendo o mesmo vidro, não há como juntar vidro com vidro e ocultar a cicatriz que não continua o mesmo quando do mesmo se separa. E para mais neste caso, sendo um como o outro translúcido, e eu sem saber de qual dos dois estou a falar agora. Vidro do mesmo vidro, em dois pedaços – contíguos, não contínuos: este, que agora uso, como uma lente, e o outro que através dele procuro ver, sem discernir qual dos dois o mais opaco ou qual dos dois mais transparente.” (p. 19). “Vidro do mesmo vidro” lembra-me a expressão brasileira farinha do mesmo saco, e não deixo de pensar nos muitos nomes grafados e sugeridos nesse livro, farinhas que convivem fluidamente com Rosa Martelo. Mas não posso, nem quero, confundir fluidez com excessiva coincidência, pois só a partir do desequilíbrio os textos de A porta de Duchamp se erguem.

Por isso, nada de “ocultar a cicatriz”, pois à poesia a “cicatriz” interessa – sim, a mancha, o erro, a diferença na semelhança e vice-versa. Que seja mais “opaco” ou mais “transparente”? Importa mais saber que, dentro do poético, opacidade e transparência não se excluem, tampouco, por outro lado, se entrelaçam sem atrito. É muito provocativa, por essas e outras, um texto intitular-se “Chaves”: “Queremos a presença das coisas. É tão simples, isto: queremos as coisas próximas, íntimas, como peças de roupa pousadas na cadeira ao nosso lado. Próximo e íntimo, desse mesmo modo, o que nos pertence ainda mais de perto: a evidência viva do mundo.” (p. 20). Constrói-se uma espécie de redemoinho luiziano: “a evidência viva do mundo” é algo desejado, mas tangível apenas na construção, não é coisa dada. Nesse sentido, atrai-me muito em A porta de Duchamp a possibilidade de o leitor ligar os textos uns aos outros, produzindo inesperados sentidos ao fazer a porta girar, ou criativamente percebê-la “sempre aberta e fechada ao mesmo tempo”.

Ou notar o voo desses blocos de sentidos permutáveis; “Asas”: “Quando chegou a casa trazia na mão um novelo de escuras penas molhadas. ‘Perdido no chão, à chuva, este pássaro estava pronto para ser comido por um gato’, explicou. Mas não aconteceu assim. Dias e dias aquecido à luz do candeeiro do quarto, engenhosas destilações brancas e amarelas a servir-lhe de comida. Até poder piar com fome, cantar depois. Vejo-o agora outra vez, dentro da mão do rapaz, como num ninho. ‘Pensará que é a mãe?’ – ‘Não, para ele, qualquer mão é a mãe’. Abre um pouco aquela envolvência quente, dedo contra dedo em humana versão de ninho, quase perfeita. Muito largo e lento, o braço a mover-se no ar, um círculo em roda de outro círculo (aves em voo antecipado, ainda antes das asas).” (p. 25). Para o leitor, “mão” vira “mãe” e volta a, manualmente, pois sem qualquer assombro facilmente tecnológico, voar. Vejo-me diante de uma obra “quase perfeita”, e não estou fazendo uma avaliação qualitativa – a literatura, felizmente, resiste a esse tipo de comentário –, mas tentando apontar para um dado considerável: “A estreitíssima porta”, lê-se em “Distâncias”, localiza-se “entre o lado onde se bate e o outro lado do mundo.” (p. 30), e isso pode ser um lugar múltiplo, ou lugares muitos (nesse sentido é que me atrai articular A porta de Duchamp a moderno). Basta a leitura, e que ela seja múltipla e muita.

NOTA

[1] JORGE, Luiza Neto. Poesia. 2. ed. Organização e prefácio Fernando Cabral Martins. Lisboa: Assírio & Alvim, 2001. p. 44.

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Luis Maffei é poeta e professor de Literatura Portuguesa da Universidade Federal Fluminense.

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