opiniões fortes, seres em solidão e ficções em desassossego – lucia helena


Tenho por objetivo nesta apresentação abordar três narrativas que se aproximam ao tratarem da violência exercida pelo Estado em situações de crise social. Refiro-me às obras Vida e época de Michael K (1983), de J. M. Coetzee, Vidas secas (1938), de Graciliano Ramos, e A hora da estrela (1977), de Clarice Lispector, textos nos quais a centelha do talento de seus autores faz com que o leitor possa apreender a luz mortiça da condição humana levada aos escombros de si mesma pela exclusão, refletindo sobre seus efeitos. Sem tribunal visível, mas em uma sociedade militarizada e burocratizada, Fabiano, Macabéa e Michael K engrossam a fileira dos seres sem defesa nem escapatória, condenados à precariedade e à morte por instâncias invisíveis de uma burocracia de Estado cruel que, se revela sua eficiência na capacidade de segregação, demonstra-se bastante ineficiente, por outro lado, para proteger e valorizar a cidadania.

Em Vida e época de Michael K, o protagonista traz à baila uma situação-limite extremamente contemporânea: o fato de se ter uma vida desperdiçada — fenômeno que também atinge os personagens principais dos três romances mencionados. Como o Fabiano de Vidas secas, Michael K encontra-se subordinado a um lesivo aparato sócio-econômico que lhe escapa à compreensão. Há, a uni-los, um infinito e forçado deslocamento dos personagens em direção ao concretamente inapelável. E isso também remete à figuração de Macabéa, a nordestina “de maus antecedentes” que Clarice Lispector tomou emprestada da poesia cabralina sobre os cães sem pluma do Capibaribe, articulando-a aos seres do nordeste desertificado de Graciliano Ramos.

A trajetória sem escape de Michael K conduz o leitor a Macabéa e a Fabiano e sua família, pois todos eles encontram-se instados a um processo de êxodo e migração sempre inglório. Vidas sem direito a pouso nem repouso, essas três narrativas apresentam uma escrita renovadora que torna difícil classificar os textos como romances, lançando ao leitor uma nova pergunta: com que linguagem narrar aquelas vidas? Ao mesmo tempo em que renovam a linguagem, tais obras observam e avaliam uma crise social e o resíduo de perdas da difícil jornada pela aventura da modernidade, respectivamente nas fases do modernismo (Vidas secas) e da modernidade tardia (A hora da estrela e Vida e época de Michael K).

Graciliano Ramos reflete sobre a desilusão do progresso levado ao Nordeste a toque de caixa. Recusando a utopia da modernização a ser conseguida pela implantação da técnica a qualquer custo, seu sentido de utopia em muito difere do que tinha sido usado em nossa ficção até aquele momento. Qual será, então, a caracterização da centelha utópica em Vidas secas? Ela se origina da concepção da utopia como o princípio-esperança que, ao contrário de ser ufanista, se mescla ao ceticismo e à tragédia a que estão condenados os seres que, manipulados pelo poder discricionário, são roubados de um sentido mais pleno de existência. Graciliano Ramos lida, portanto, com uma utopia do precário, distinta daquela que é utilizada, por exemplo, nos manifestos da vanguarda paulista, a exemplo do Pau-Brasil oswaldiano, que fez da alegria a prova dos nove. Ao contrário de Oswald, Graciliano registra, em tom menor e seco, sem figuração “alegre”, os problemas brasileiros do agreste.

Esse novo sentido de utopia trabalhado por Ramos — a consciência da finitude e da precariedade dos projetos humanos, assim como a consciência de que, ao mesmo tempo, sem eles a vida perde sua legitimidade e viabilidade, mesmo quando são precários — é o que percorre também A hora da estrela e Vida e época de Michael K, nos quais um mundo de vida frágil é reservado como única possibilidade para dois personagens — Macabéa e Michael K —, cujo estar no mundo não consegue ser tocado pela redenção, nem logra atingi-la.

Macabéa participa da estirpe dos Fabianos e dos Michael K, que não dispõem do mínimo que os habilite à decifração dos códigos e discursos disponibilizados pelas estruturas de um poder estatal que não os abriga ou protege, mas que os obriga a respeitar, atender e manter uma burocracia que se volta contra eles.

Michael K, ao contrário de Fabiano e de Macabéa, no entanto, convive com o ceticismo finissecular da passagem do século XX ao XXI. Porém, tem em comum com os dois outros personagens uma acentuada operação com as ruínas do pensamento, defrontando-se com a doída escavação do mundo que a narrativa observa. Tão pungente no pauperismo quanto Macabéa, a consciência de Michael também não é culta, e ele parece a princípio não ter noção do que o cerca.

Frutos da imaginação e da circunstância sul-africana e européia, assim como brasileira e sul-americana, uma marca potente reúne esses três textos. Que marca é essa a assinalar, na intimidade, uma diferença que, paradoxalmente, não os afasta? O que liga esses personagens de extração tão distante, no tempo e no espaço? O que faz com que se conectem essas ficções, que apresentam uma temporalidade complexa, com episódios e eras descontínuos uns com os outros e heterogêneos entre si?

Em primeiro lugar, os três desenvolvem algo próximo a uma parábola social, apresentando uma forma alternativa de compreender as origens e as aventuras do modernismo e da modernidade tardia, revelando com riqueza a temporalidade histórica diferenciada na qual se inscrevem. Em segundo lugar, partem de uma base em que o registro naturalista dos fenômenos de uma burguesia ideologicamente decadente é substituído com vantagem pela releitura crítica do mesmo “naturalismo” e da situação dos “excluídos”, escrita em linguagem insurgente e apresentando nova gama de práticas estéticas — em tensão, por sua vez, com os cânones estabelecidos e consagrados tanto pela dicção vanguardista quanto pela tradição realista e naturalista do século XIX.

Todos eles abandonam o relato orgânico, criando um personagem marcado pela incerteza e pelo precário — um herói problemático, no dizer de Lukács. Essas obras recuperam a estratégica construção de um personagem frágil que é “forte”, de alguém que roça o sublime por seu contrário e que é focalizado na ótica da perda, da lacuna, do resíduo, da ruína. Seres que falam no intervalo do silêncio regado de aridez.

Sua matriz remonta a Dostoiévski (a quem Coetzee homenageia em um de seus livros, intitulado O mestre de Petersburgo) e é retrabalhada inicialmente por Kafka, que examina a questão da culpa numa circunstância em que o social e o individual estão extremamente imbricados. Os núcleos que emergem dessa fonte são: a personagem torturada, a escrita em fragmentos e a repetição, até a náusea, de uma situação estressante. Tudo isso traz à tona a presença de uma tensão permanente entre o bem e o mal, um desajuste na linguagem à procura da palavra enxuta e da imagem sem colorido excessivo, de onde resulta o texto magnífico e o tom menor de uma escrita minimalista.

Filho primeiro desse filão, Fabiano é, pois, uma forma narrativa mais “antiga” do que Macabéa e Michael K, embora o último, até mesmo no nome, não esconda a ascendência em Kafka. Trata-se, como se pode perceber, da migração das idéias. No cenário e no imaginário dessas ficções, duas das principais vertentes da modernidade e do moderno estão embutidas e discutidas. Quais são elas? De forma sintética, digamos que é o desdobramento de uma solidão singular, que dá nascimento ao moderno e à sua mitologia.

Na migração e interconexão constantes entre observar, andar e viajar, vale lembrarmos que tanto em O processo, Vidas secas e A hora da estrela, quanto em Vida e época de Michael K, as imagens são onipresentes.

Em Kafka, uma imagem contundente fecha o romance — a da faca profundamente cravada no coração de Josef K, como um cão — e dá contas da violência de todo o texto e da inserção do personagem no aparato que o lesa e consome. Em Vidas secas, abre o texto uma aparição do sol crestando tudo, o vermelho manchando a visão e toldando o exame, a cegueira árida provocada por uma luz tão forte que resseca e expõe ao olho nu a aridez do deserto, revelando a falta de mediação e de cidadania na passagem do campo para a cidade (que os primeiros modernistas e a vanguarda haviam tomado como a musa iluminada dos novos tempos). Em Lispector, a estrela brilhante e muda junta o sonho e o esfacelamento — pela morte — das esperanças que Macabéa tinha de ser capaz de reunir o moderno de que participa — o Rio de Janeiro, o sul maravilha — aos maus antecedentes do nordeste agrário e subnutrido de que provém. A “hora da estrela” da personagem, que sonhava com as musas do cinema, é vivida na agonia da morte no meio fio, ao ser atropelada pelo automóvel possante da marca Mercedes-Benz. Isto vem contracenar com a esperança pífia vendida por pouco dinheiro pela cartomante velhaca. Macabéa, em busca da sorte, encontra a morte na calçada de um subúrbio carioca. Em Michael K, a imagem concentradora é a do buraco. Nele mal cabe um homem; porém, é nele que Michael se protege quando o mundo se fecha. Paradoxalmente, no buraco também se dá o tempo das sementes, a outra imagem forte do romance, juntamente com o lábio leporino do personagem, que indica o seu “estar no lado torto” da existência, fora do bafejo das forças benfazejas.

Michael K detecta nas sementes de abóbora a imagem de um fio de esperança em que deposita, no final de sua trajetória, o seu estar no mundo. Sem indiferença diante do mundo e sem imaginar que ele seja, como alguns hoje apregoam, fruto do discurso, Vida e época de Michael K sublinha a exaustão do mero elogio da diferença. Processa, antes, uma construção em abismo: a reminiscência do desejo da viagem da mãe dentro da viagem do filho, viagem em cujo leito todas as outras imagens se imiscuem. É na química desses personagens captados em sua errância que emerge a semente da esperança de que ainda se possa vir a fundar (ou não) um novo horizonte, em que o sujeito e a subjetividade revelam-se possibilidades de sentido. E de uma utopia do precário, é verdade, realmente humana.

Vidas secas, A hora da estrela e Vida e época de Michael K configuram um tipo de imaginação histórica que discute e reformula, de modo específico em cada um dos romances, o projeto de razão em marcha no contexto ocidental, desde o Iluminismo até os tempos atuais. Essa imaginação ficcional — a que estou chamando de ficções do desassossego —, são ficções que meditam, e que levam seu leitor a meditar, sobre a diferença entre o que foi prometido pela modernidade e o que de fato aconteceu, na reflexão magistral de uma literatura que

[...] trabalha no campo minado da fronteira – impossível de ser traçada! — entre a referência e a auto-referência Como a ironia, ela também pode ser vista como um espaço de auto-reflexão da linguagem, como um médium do trabalho de Penélope de costura e descostura da nossa subjetividade com o mundo, ou, ainda, como uma oficina de aprimoramento da linguagem enquanto uma máquina não tanto de “representar” o “real”, mas sim de dar uma forma a ele. (SELIGMANN-SILVA, 2003, p. 376)

Sem que produzam uma obra engajada no sentido da teoria do reflexo, nem aliada do panfleto, os romancistas aqui abordados conseguem percorrer o difícil equilíbrio (sempre tenso) entre a representação e o irrepresentável, o que de certo implica a responsabilidade do escritor diante de seu texto e de seus leitores. Tais obras, como propõe Seligmann-Silva, atestam que:

[...] esse “real” não deve ser confundido com a “realidade” tal como ela era pensada e pressuposta pelo romance realista e naturalista: o “real” que nos interessa aqui deve ser compreendido na chave freudiana do trauma, de um evento que justamente resiste à representação. (SELIGMANN-SILVA 2003, p. 377).

Os choques da vivência moderna, afirmou Benjamin em seu estudo sobre alguns temas em Baudelaire (1936), modificaram o nosso modo de ver e de representar o mundo. Se, como propôs Adorno, “escrever poesia após Auchwitz é um ato de barbárie” (Cf. FRANCO, 2003, p. 355), o que dizer, então, da experiência de vida hoje em dia, quando uma violência vertiginosa se imprime sobre os habitantes do globo, acionando o terrorismo, o fundamentalismo e a indiferença pelo que é ético ou antiético na vida, nas artes?

No caso de Michael K, pela circunstância da tardia ação de descolonização a que remonta o texto, descortina-se, tanto para o próprio Michael quanto para a África que ele representa, uma identidade mutante, uma formação identitária complexamente apreendida, que sugere e estimula a pergunta: “Quem é você, Michael, esse outro inapreensível, para o qual a sociedade africana não tem lugar, apesar de você estar por toda parte da África e em tantos outros lugares, não só desse continente?”

No espaço aberto por essas dolorosas questões — que, por serem imperativas, permanecem sempre em questão e não admitem resposta única — o texto parece refluir, por dimensão alegórica, a uma zona nublada de mitologia, construindo para o personagem a sugestão de uma identidade porosa e rarefeita, na qual tempos e espaços incongruentes se amalgamam de forma inusitada:

Você é precioso, Michaels, do seu jeito; é o último da sua classe, uma criatura que sobrou de uma era anterior, como o celacanto, ou o último homem que falava a língua Yaqui. Nós todos tropeçamos e caímos dentro do caldeirão da história: só você, ao seguir sua luz idiota [...], ao escapar da paz e da guerra, ao se esconder no aberto onde ninguém sonharia olhar, conseguiu sobreviver do jeito antigo, flutuando pelo tempo [...]. (COETZEE, 2003, p. 176).

Em prosa límpida, em que nada se desperdiça, enxuta à maneira de um Graciliano Ramos, as narrativas de Coetzee mergulham no debate acerca da disputa pela terra numa sociedade dilacerada pela crise, pela pobreza e pela criminalidade, na qual se dá o embate para um ajuste de contas entre o passado colonial e o presente estilhaçado de uma África que não é mais o que foi, mas que também ainda não dispõe da linguagem que a constitua livre. Dentre as obras por ele publicadas até o momento, Desonra é o texto fundamental no que tange à discussão da vivência pós-colonial na África do Sul contemporânea. A narrativa investiga, sutilmente, os graus de uma ética possível na tortuosidade de uma conjuntura em que as fronteiras do direito e do estado de direito, do nacional, do indivíduo, da cidadania e da barbárie são confluentes todo o tempo. E de novo vem à baila uma pergunta que continua ecoando: com que linguagem narrar as formas de uma reinvenção coletiva?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

COETZEE, J. M. (1999) A vida dos animais. Trad. José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
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_____________. (1983) Vida e época de Michael K. Trad. José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
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FRANCO, Renato. (2003) “Literatura e catástrofe no Brasil: anos 70”. In: SELLIGMANN-SILVA, Márcio. (Org.) História, memória, literatura. O testemunho na era das catástrofes. Campinas, S.P.: Ed. UNICAMP. p. 355-374.

HELENA, Lucia. (2006) Tempos de sombra: o nacional e o refugo da globalização, Advir. Revista da Associação de Docentes da UERJ, v. 20. Rio de Janeiro: Asduerj, p. 40-47.
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___________. (2001) O coração grosso: migração das almas e dos sentidos. Alceu. Revista de Comunicação e Política. Rio de Janeiro: PUC-RJ v. 1, n.2, PUC/RJ, p. 63-76.

KAFKA, Franz. (1925) O processo. Trad. Modesto Carone. Rio de Janeiro: O Globo; São Paulo: Folha de São Paulo, 2003.

LISPECTOR, Clarice. (1977) A hora da estrela. Rio de Janeiro: José Olympio.

RAMOS, Graciliano. (1937) Vidas secas. 40. ed. Rio de Janeiro: Record, 1978.

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Lucia Helena é professora titular na Universidade Federal Fluminense, em exercício na pós-graduação e na graduação, lecionando Literatura Brasileira, Teoria da Literatura e Literatura Comparada; professora de Teoria da Literatura (aposentada) da UFRJ; pesquisadora 1-A do CNPq; mestre em Letras (UFRJ, 1975); doutora em Teoria da Literatura (UFRJ, 1983); e pós-doutora em Literatura Comparada (Brown University, EEUU, 1989). Em livro, publicou: A cosmo-agonia de Augusto dos Anjos (Tempo Brasileiro, 2ª. Ed. 1984); Uma literatura antropofágica (Editora da Universidade Federal do Ceará, 2ª. Ed. 1983); Totens e tabus da modernidade brasileira (Tempo Brasileiro, 1985 e 2ª. Ed. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2007), com o qual ganhou o Prêmio APCA – Ensaio, 1985; Escrita e poder (Cátedra/INL, 1986); Modernismo brasileiro e vanguarda (Ática, 6ª. Ed 1996); Movimentos da vanguarda européia (Scipione, 1993); Nem musa, nem medusa: itinerários da escrita em Clarice Lispector (EdUFF, 1997; 2ª. ed. revista e ampliada, 2006); Nação-invenção: ensaios sobre o nacional em tempos de globalização (org.) (Contra Capa, 2003); A solidão tropical: o Brasil de Alencar e da modernidade (EdPUCRS, 2006); e Literatura e poder (org.) (Contra Capa/CNPq, 2006). Tem no prelo, pela Contra Capa, a sair em 2010, o livro Ficções do desassossego: fragmentos da solidão contemporânea. Fundou e coordenou, em 1993, o grupo de Estudos NIELM, na UFRJ. Fundou e coordena, desde 1995, o grupo de estudos “Nação e Narração”, vinculado ao Diretório Nacional de Grupos de Pesquisa do CNPq.

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