marienbad


15. Sci-fi. Qual conhecimento nos salvaria da impossibilidade de uma aventura humana, digamos uma nova arte ou um novo mundo? O que nos salvaria do pesadelo do mesmo e de história inevitável, fatídica, trágica em seu lento arrastar-se até um museu? Talvez a tecnologia e seus encantos duvidosos. Por exemplo, uma nova forma de energia, que permitisse o uso conspícuo e ilimitado dos aparelhos que, agora sim, seriam uma segunda natureza. Um mundo motorizado e condicionado em que distância e ambiente significariam nada, e o universo de segurança e ilusão que uma cultura burguesa monotonamente tornou paixão ao longo dos séculos seria finalmente um caminho para o absoluto e o sublime, dado que já não haveria outro. Poderíamos perceber finalmente a beleza arquitetônica de um shopping, ou afinal sentir amor. Amor de fato, pelo mais novo modelo da Toyota.

Há também a possibilidade de computadores quânticos, máquinas fascinantes e tão poderosas que poderiam cumprir as fantasias sádicas que as décadas de alienação e isolamento tornaram coisa positiva, até desejável. Poderíamos, por exemplo, nos plugar e viver aventuras à Matrix, com computadores titânicos nos informando do que seria voar ou dormir com a última modelo da Playboy. Pessoalmente, acompanharia a longa migração das tartarugas oceanos afora. Poderia também tornar-me uma, por ovos. Talvez experimentar o gozo raro que certas aranhas sentem ao se reproduzir e, ato contínuo, serem devoradas. Necessariamente penetraria em algum reino grotesco ou maravilhoso, não veria sentido em menos que isso.

Talvez o que nos poderia trazer um novo mundo seja a finalização de uma biblioteca universal, acessível a todos de toda parte através de computadores, celulares e gadgets de leitura. E o sonho borgeano da Grande Biblioteca (que poderíamos chamar também, e sem perda, de Universo) se tornaria um fato da vida. A biblioteca de Tudo para Todos seria possivelmente o fim das guerras, quiçá do próprio pulso corrosivo do desejo. Afinal, quem resistiria ao apelo esfíngico de infinitos livros?

Mas se acaso conhecimento algum tenha este poder e sejamos obrigados a conviver ainda, talvez para sempre, com nossos tristes périplos pelos mesmos desastres, perdas e esperanças, o melhor seria ter em mente que mesmo o mais baixo e irrefletido de nossos desejos possui uma cabeça própria, um demônio inquieto que nos consome mesmo nos momentos de insuportável paz. Ouvi-los, a estes demônios, é um caminho para a novidade. Obviamente, neste caso não seremos testemunhas de milagres, mas a tecnologia para acessá-los é tão antiga quanto a caligrafia de Ésquilo, o que nos pouparia algum tempo.

Ricardo Pinto de Souza, professor, escritor e editor-artesão da Oficina Raquel. É autor de CULTURAS.

Jump to the top of this page