espaço de memória: cinco perguntas para gastão cruz


Ao iniciar seu projeto poético em 1961, com a publicação do primeiro livro, A morte percutiva, num conjunto de plaquetes que ficaria conhecido como “poesia 61”, Gastão Cruz – poeta, crítico literário, encenador português –, nascido a 20 de Julho de 1941 em Faro, Algarve, mas radicado desde jovem em Lisboa, conseguiu marcar, junto com seus companheiros de edição – Luiza Neto Jorge, Fiama Hasse P. Brandão, Maria Teresa Horta e Casimiro de Brito –, um momento de diferença na linguagem poética até então dominante. Também em Portugal, esse tempo seria o início de uma década emblemática, em que o país vivenciou, politicamente, o acirramento da ditadura e da questão colonial e, literariamente, uma produção importantíssima para a configuração de novos caminhos da narrativa e da poesia portuguesa. Com a vasta obra que produziu ao longo de mais de quarenta anos de trabalho com a escrita, Gastão Cruz é um nome fundamental da poesia (e da crítica) portuguesa moderna e contemporânea. Dirige ainda uma das mais importantes revistas portuguesas de poesia, relâmpago, da Fundação Luis Miguel Nava, Lisboa. Em 2009, publicou o livro Os poemas, no qual recupera em volume único todo o seu percurso poético. Destaque-se, entre diversos prêmios que sua obra recebeu, o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, dado, em 2002, ao livro Rua de Portugal , e, em 2009, o prêmio literário Correntes d’Escritas, pelo livro A moeda do tempo. No Brasil, possibilitando que o leitor brasileiro conheça de perto mais uma forte voz da poesia portuguesa pós-Pessoa, foi lançada no ano passado uma coletânea de sua obra, A moeda do tempo e outros poemas, com organização de Jorge Fernandes da Silveira e publicação pela Editora Língua Geral, do Rio de Janeiro.

gastao cruz, por maria josé palla

Entrevista concedida a Zaira Mahmud. Fotografia: Maria José Palla.

Alguns críticos dizem que a poesia de A morte percutiva, publicada em 1961, é mais contida, e que a mais recente se abre a uma discursividade, narratividade mais forte. O que você acha disso?

Entre a minha colaboração em Poesia 61 e os meus livros mais recentes existe um longo período de mais de quarenta anos, durante o qual cerca de quinze livros foram publicados, sem contar com as várias edições de “poemas reunidos”. Não creio que “mais contida” seja uma expressão que defina bem a minha poesia inicial em oposição à dos últimos tempos. De certo ponto de vista, talvez ela até fosse mais expansiva e menos vigiada, mais confiante numa certa dinâmica auto-regulada da torrente verbal. É possível que um certo carácter descritivo e até narrativo surja agora com maior frequência. Mas isso já vem desde há bastante tempo. Ou mesmo desde sempre: o tipo de descrição e de narração é que já não será o mesmo.

Como se deu a sua relação com a escrita? Por que a poesia?

Como suponho que suceda com toda a gente que escreve: lendo e imitando. Primeiro (no meu caso, a partir dos dez anos), imita-se o que vem nos livros de leitura escolares; a seguir, começa a perceber-se que é possível afastarmo-nos desses modelos, até porque as leituras se alargam e outros modelos surgem; por fim, sente-se a absoluta necessidade de encontrar uma linguagem própria. No começo, além de poesia, tentei escrever outras coisas. Mas cedo descobri que a poesia era o género em que me sentia melhor.

Entre algumas das imagens recorrentes em sua escrita, destacamos a da “casa”. Por que perseguir essa imagem?

Não creio que a imagem da “casa” seja assim tão predominante. É uma imagem, entre inúmeras outras, talvez mais presente em alguns momentos. As casas são, no entanto, elementos com especial importância para todos nós. Elas contêm, abrigam, uma grande parte das nossas vidas. É sob um tecto que, normalmente, nascemos, que conhecemos as primeiras formas. E também temas como o amor e a morte acabam por estar, forçosamente, bastante ligados ao lugar que é a casa. Mas, para além disso, há as ruas, as praças, as cidades, as praias, o campo, os transportes públicos…

Percebe-se que a questão temporal é muito presente em sua poesia. Alguns títulos de seus livros, tais como: A morte percutiva, Repercussão, A moeda do tempo, entre outros, comprovam isso. Como você vê a temática do tempo em seus poemas?

Como vejo a temática do tempo? Está nos poemas. Frequentemente os escrevi para falar disso. É possível que seja esse, realmente, se algum existe, o meu tema central. Meu e de muitos outros autores, não apenas poetas: à la recherche du temps perdu. À medida que a idade avança e nos vamos lembrando de coisas cada vez mais distantes, a consciência que temos da sua passagem acentua-se. E essa passagem torna-se um mistério cada vez maior, pondo tudo em causa – um mistério que não é, afinal, mistério nenhum, somente uma realidade implacável.

Em Rua de Portugal, percebe-se uma afirmação da subjetividade, uma vez que a força do sujeito se faz como organizador de sentido do poema. Portanto, você considera a emoção dessa poesia contida ou depurada? Por quê?

Não sei se podemos separar Rua de Portugal, nesse aspecto, dos restantes livros. Acredito que a recente recolha (pela quinta vez) de toda a minha poesia num único volume, agora com o título Os poemas, torna evidente uma certa unidade de linguagem, de estilo. O Luis Maffei sugere isso no prefácio, que considero muito esclarecedor.

Esse meu livro (de 2002) relaciona-se talvez mais estreitamente com os restantes três publicados a partir de 2000: além dele, Crateras (2000), Repercussão (2004), A moeda do tempo (2006). Todos são, de alguma forma, “memórias” e “registos”, muitas vezes mais explicitamente do que era habitual acontecer nos meus poemas, de episódios passados e presentes, de casos da minha vida. Mas, como já tenho dito em diversas ocasiões, a minha poesia foi sempre acentuadamente autobiográfica, apenas acontecia que os tais casos eram porventura mostrados de um modo mais elíptico, menos referencial, o que reforçava os aspectos estilísticos do texto como lugar de produção, mais que de reprodução, de imagens.

A emoção é, na poesia, sempre “contida” e “depurada”, qualquer que seja o tipo de linguagem utilizado. A emoção mostrada no poema não é a emoção em estado selvagem – isso não é poesia. A que o texto transmite ao leitor é já completamente diversa da hipoteticamente sentida antes de condensada em linguagem. É claro que Pessoa formulou, de forma definitiva, a questão, na “Autopsicografia” e em muitos outros poemas (assim como na própria criação dos heterónimos).

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