diálogo com a casa de maria gabriela llansol: um ensaio poético – fábio santana pessanha


Não tenho bens de acontecimentos.
O que não sei fazer desconto nas palavras.
Entesouro frases.
— Manoel de Barros, Gramática Expositiva do Chão


Da desmesura de um porvir retilíneo, abarcamos a vaga da multiperspectividade num percurso llansoliano de leitura e vertigem. Assim é todo o tempo da novidade de uma obra singular. Toda a atenção se esvai numa queda alucinada, cuja racionalidade se perde nos corredores de um tempo lógico-já-ultrapassado.

Na casa de julho e agosto é um convite ao despropósito, ao mergulho na novidade de um teatro de pensamentos difusos que, em seu próprio tempo, inaugura um mundo de possibilidades, de leituras libertas das amarras conceituais.

Na perspectiva das idas e voltas, o diálogo de cartas lançadas ao infinito repercute o entrelaçamento poético de imagens dançantes. Estas envolvem o leitor e o imiscuem em sua própria confusão, no entanto, uma confusão fundamental ao entendimento. Neste sentido, perdemos a noção da linearidade para um salto surdo-cego-e-quase-mudo no abismo do improvável.

Sempre em dívida com aquilo que merece ser dito, mas que se resguardou no silêncio do a-se-escrever, este tecido de palavras se constitui em um percurso desregrado de forma no âmbito de uma excelência procedimental. É nas paragens do pensamento que vamos ensaiando uma reflexão conduzida pelas cartas e personagens em seus descaminhos. Como na leitura de toda obra de arte somos lançados a nós próprios, em Na casa de julho e agosto não é diferente, posto que seja uma incontornável desditura das possibilidades do racional.

Encaminhemo-nos, portanto, à soleira da catábase de nossa humanidade.



As pedras

De que uma casa é construída? De papel, neste caso. As pedras são cartas que se dizem no cuidado de uma não-revelação total: “Não vos inquieteis com as volutas e cortes bruscos das vossas vidas, minha correspondência entre nós, que o fogo, Elo, não é história que possamos contar” (Llansol: 1984, p. 9). Na medida dos dizeres, o que não é dito se resguarda na dimensão dos saltos. Entre uma carta e outra, falas se interpõem e se mesclam. A narratividade múltipla se concentra na concretização de acontecimentos não meditados. O ponto de vista é variado e depende daquilo que se queira dizer e se queira fazer demonstrado ao leitor.

Lógico, há uma logicidade. Mas não esta dos jornais populares. Esta lógica nada tem de puramente racional. Referimo-nos aqui a um racional que não acerta os ponteiros do pensamento, que desmembra uma perspectiva em inúmeras outras.

Uma casa que se diz na figura de um convento. Beguinas. Mulheres comprometidas, mas de uma beatitude falsa. Sem votos, dizem na agonia do corpo a transitividade de ser humano. Estas compõem as casas, são os muros da transposição entre-mundos e se ligam pelo fogo: o “Elo”.

Cada mulher, personagem ou fala compõe com seu mistério o nada que permeia todo o movimento da narrativa. Assim, como as rochas se fixam em seu lugar e juntas de outras erigem a epopéia da solidificação, cada mulher-rocha se intermedeia na imersão do não-saber para, juntas, inaugurarem o impacto daquilo que estará sempre por acontecer.

Fala a narrativa de uma casa, mas esta não é só uma construção. Sua estrutura não está na antecedência de uma teoria, mas se estrutura em sua própria estruturação. Neste sentido, percebemos os entre-cortes que, na dimensão de uma parte numerada, extrapola a brevidade de um romance tradicional.

Não nos atendo às formalidades próprias de um discurso engessador, a vertigem para a qual nos lançamos atravessa e desnuda qualquer proposição de um estabelecimento estático. Eleanora, Margarida, as velas e os rios nos conduzem à ambiguidade de uma reta que se entorta a cada letra. Na travessia da fala, os caminhos se imiscuem. Interpenetram-se na inaugurabilidade de uma construção, cujas portas sempre se abrem a um novo horizonte. Desse modo, vários sóis se mostram em sua própria luminosidade. Esta perpetua a obscuridade de trancas com chaves incertas, cujas voltas circulam a impropriedade do círculo ao se aspiralizar na deveniência das curvas e do amanhecer.

Na figura de uma vela sempre acesa, espraiam os pensamentos e questionamentos dos seres do absurdo. Eis o elo da significância do escuro. Pela doação da imobilidade, toda movimentação se dá em lances e nuances do inesperado, isto é, a escalada do vento se compraz nas margens de uma vela que, ao ser acesa, ilumina a fuga labiríntica de um olhar sempre à procura da origem: a chama que, na iminência da fumaça, aclara a obscuridade de um quarto trancado.

As pedras silabares de dizeres atônitos contornam o entorno de ruas arenosas. Então, em viagens às vezes “garrettianas”, a caminhada quilométrica de centímetros descansados se enveredam por lençóis brancos que guardam em sua ingenuidade a surpresa de um boca entreaberta: “O meu quarto tornou-se num dos mais belos porque nada tem/ e tudo tem” (p. 113).



Os rios

No trajeto de águas inovadoras, mergulhamos em Llansol. Em pequenos e raros lençóis de conchas que nos cobrem na pequeneza tátil de cortes certeiros e nos insinuam na claridade enganadora de outros sóis amanhecentes. Somos iniciados como nascentes que fluem libertariamente na configuração de suas margens. Deste modo, invertemos o marcado dito quando percebemos que é o caminho dos rios que formam suas margens e não o contrário.

É neste entorno que nos imergimos. É esta imersão que nos afoga na contínua oxigenação de re-pensamentos. Enquanto nascentes que somos na leitura vertiginosa de um conhecer diverso, empenhamo-nos no rasgo de vias para singrarmos livres no então desconhecido de pausas e vírgulas: “os rios se pensam vivos iguais a vivos” (p. 98).

Esta última passagem nos conclama a atentarmos para o que somos na medida de nossa fulgurância. Em outras palavras, brilhamos entre luzes e sombras na liminaridade própria de sermos sempre o acontecimento do movimento de vida. A “entridade” que nos perpassa resulta na mundividência singular e individual de cada homem no desenho de seus passos. Assim, cada pegada que deixamos é o registro da irreversibilidade da volta, haja vista que nunca pisaremos do mesmo modo ou no mesmo lugar, como já diria Heráclito (Cf. Heráclito et alii: 1984) ao pensar a nascividade do rio.

Tejo, Eufrates e Tigre: rios irmãos na desigualdade do leito. A geografia dos espaços menos importa quando o sentido articulado não se atrela à probabilidade de uma correção científica. Aquilo que os aproxima e os separa vige no paradoxo de caminhos feitos e refeitos. Assim sendo, o que têm em comum não se mostra na aparência do visível e nem se reduz à mensurabilidade do condicionável. Os três são águas que correm nunca do mesmo modo, porém sempre para o mesmo lugar: o mar. Este gigante absoluto em sua própria inconstância acolhe os caminhos trilhados e criados nas fendas da terra. Deságuam nele as quedas horizontais de água, uma vez que estas são sempre o arcabouço da originariedade. Como já fora mencionado, a correção menos importa em se tratando de rios que tanto se diferenciam em sua historiografia e conformação hidrográfica. Eufrates e Tigre se ambiguizam na similaridade de lugares enquanto o Tejo se opõe espacialmente. Mas, como percebemos na leitura de Na casa de julho e agosto, as certezas historiográficas se desfazem de suas bases lúcidas ao serem postas na poética da narratividade llansoliana. Não nos importam datações ou contextualizações, ao contrário, devemos nos deixar atravessar por suas lâminas verbais de estocadas poéticas.

Somos o leito de uma manifestação paisagística. Na leitura deste romance, somos ungidos pelas águas dos rios de um mundo instaurado literariamente e onto-poeticamente, tendo em vista a configuração de imagens desfiguradas do senso habitual e que apontam para um viés de apropriação daquilo que nos toma enquanto entes jogados num mundo.

Na medida em que somos doações do nada, compartilhamos da relação experienciada com Luís M., ou seja, na efervescência do porvir, desnudamo-nos na linguagem, no silêncio e no nada para sempre a estes retornamos enquanto dinâmica de doação de vida e morte:

eu nunca seria apenas para ele uma fonte gotejante de linguagem.
Eu seria o nada que vem.
Eu seria o pássaro indesejado que vem com o Nada nos vestígios do ser (p. 105).

Constantemente, somos postos de cara com um tipo de arguição poético-filosófico que nos retira do senso comum de prosseguimento. Noutras palavras, é uma leitura que nos desprossegue, que nos faz perceber que o pensamento não está premeditado na manipulação litúrgico-vocabular de teóricos. Mais do que isso, o pensar insurge na rotatividade das falas dos personagens ao contarem um pouco do que são. As mulheres desta obra, os seres da escuridão, a vela, os gatos, o mar e os rios são personagens de plurissignificação. Imiscuem-se em si e nas dobras do tempo, na medida em que historicizam a memória da não-linearidade.

Cartas lançadas ao nada, entregues a qualquer um que se proponha a uma doação de si. Este é o movimento primordial deste romance: somos parte do remetente. Dizemos “parte” porque não somos o destino de chegada. Em nós as cartas continuarão sua trilogia autor-leitor-nada.

O Tejo não é só um rio, é também um personagem. Um alguém que tem algo a dizer e o diz mesmo quando em silêncio, quando apenas corre em sua correnteza:

Tejo-rio, na sua sombra, não se move. Quando lhe pergunto pelo lugar do nascimento dos rios, incluindo o Tigre e o Eufrates, responde-me que deve perigar minha razão pois os rios não nascem,/ brotam nos seus símbolos (p. 103).

Este tipo de personificação está muito além de simples processo estilístico, posto que nesta dinâmica percebemos o acontecimento poético pelos olhos não só de quem fala, mas de quem também se cala. Uma vez que calar não significa só ausentar-se do discurso, mas viger na excessividade da linguagem.

Se “os rios não nascem” é porque estão em permanência de fluência. Daí que “símbolos”, do grego symbállein (Cf. Houaiss: 2001), diz-nos aquilo que une, logo, um movimento de reunião. Pois, sym- significa “junto” e bállein é um verbo grego que significa “lançar-se”. Tal reunião não é só observada na confluência poética do Tejo, Eufrates e Tigre, como também no próprio dizer do narrador quando temos a manifestação do Tejo-rio. Assim, não há mais separação, não é só o Tejo enquanto entidade hidrográfica ou não é só um rio singularizado por um nome. Um e outro são o mesmo, a fronteira conceitual é desfeita quando os dois habitam a conformação de uma unidade complexa, ou seja, o uno que, no mínimo, é duplo. Deste modo, mais uma vez percebemos os dizeres heraclíticos segundo o fragmento 50 deste pensador, na tradução de Emmanuel Carneiro Leão: “Auscultando não a mim mas o Lógos, é sábio concordar que tudo é um” (Heráclito et alli: 1991, p 71). Este “tudo é um” é também um nada, o vazio primordial que possibilita o Tejo ser tanto Tejo quanto rio numa inseparabilidade identitária. Cria-se, portanto, um novo ente nos “vestígios do ser”. E o que isto significa? Ora, o ser não é algo à parte, mas é tudo que toma parte, é o que mora na habitação de sua própria negação não como oposição, mas como radical ambiguidade e proveniência. Assim, percebemos que o não-ser é o que se vela no ser e o que possibilita que este ser se manifeste recolhidamente em cada ente. Portanto, observemos que estamos diante de uma leitura desmetafisicizante, quando nos deixamos entre-ver e entre-ter (em seu sentido mais profundo) enquanto parte de seus escritos. Já que se trata de uma entrega ao que cada palavra, pontuação e ritmo têm a nos oferecer.



Das portas da escrita à saída do fim

Uma escravidão que atravessa o tempo e instaura outros universos. Pela escrita, estas cartas e pensamentos vão se dando. A história é o acontecimento que acomete o personagem em sua personificação, funda um mundo ao articular sentido em palavras tragadas pelo silêncio. Assim vai a língua num gotejamento insular quando o escrever assalta a possibilidade do falar, a fim de suportar o empenho do mensurar. Entretanto, nenhuma medida dá conta da fluência da fala. Dizem-se em seus pormenores e em suas ausências.

Como uma pena que se afunda no papel ao trilhar o caminho da tinta, a língua é dita na narração singularmente llansoliana de apreensão da história. Passeamos por Portugal, por pensadores como Nietzsche e pela memória tanto mnemônica quanto poética. Ou seja, não nos deparamos com uma contação historiográfica, mas com a experienciação dos acontecimentos num tempo inaugural. O momento de pensar é único. Não há voltas ou lembranças de um passado, posto que o passado jamais seja revisitado. A cada sugestão de retorno temporal, vive-se o novo na articulação de um mundo, quando emoções são sentidas sem o apelo de mera sensorialidade. De outro modo, cheiros, sensações ou emoções que parecem voltar de seu túmulo crônico, inauguram-se no instante de seu aparecimento.

O epílogo que traria o desenlace é mais um rio que perfura caminhos na medida de seu curso. A assunção da escravidão é então manifestada. Porém, não nos enganemos ao achar que se trata de simples jogo retórico ao lermos que “ser só a mulher que escreve é impossível” (p. 140). A escravidão aqui evidenciada é o jogo tenso de dizer na imobilidade gráfica a vultuosidade da linguagem. Por isso, não é “só a mulher que escreve”, é mais! No momento da escrita, desvela-se a imagem de alguém que, na intensidade da pena, desnuda-se quase completamente ao entregar-se às palavras. Então, como uma imersão à escuridão, das trevas eclodem as luzes que aclaram os dizeres sombriamente esclarecedores. Tal esclarecimento se reporta ao enigma do dizer-se ambíguo em que a verdade jamais é revelada por completo.

Personagens dançam ao som das ondas, seus diálogos labirintam a formalidade do discurso e suas ausências preenchem o devir dos desconhecidos remetentes.

Assim findamos um breve percurso que deixou muito por se dizer. Na mágoa da incompletude, cria-se um ensaio que nenhuma pretensão alimenta.

A leitura da imortalidade cabe aos artistas do não-pensamento, àqueles que afogam na limitação de sua língua as palavras originadas no sopro da eternidade.

Deus e o Diabo andam juntos na vírgula despercebida da ladainha do senso comum. A ninguém pertence a pausa de um texto quando cabe em sua respiração o minuto da desatenção. Aqui dizem acontecer o atravessamento de imaginações, vidas que se interpelam na ficcionalização de um “olhar para o lado”. A falta de atenção resguarda a possibilidade de todas as possibilidades, pois, em si, a fluência dos caminhos de um alguém ganha a dinâmica da intermitência.


NOTA

[1] Doravante, as citações referentes a esta obra virão somente com as páginas entre parênteses.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÀFICAS

ANAXIMANDRO, PARMÊNIDES E HERÁCLITO. Os pensadores originários. Trad. Emmanuel Carneiro Leão e Sérgio Wrublewski. Petrópolis: Vozes, 1991.

BARROS, Manoel de. “Retrato Quase Apagado em que se Pode Ver Perfeitamente Nada”. In: Gramática Expositiva do Chão (Poesia quase toda) . Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1990.

HOUAISS, Antônio. Dicionário eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa. Versão 1.0. Editora Objetiva Ltda, 2001.

LLANSOL, Maria Gabriela. Na casa de julho e agosto. Porto: Edições Afrontamento, 1984.


Fábio Santana Pessanha é Mestrando em Poética pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. É membro do NIEP – Núcleo Interdisciplinar de Estudos de Poética, também na UFRJ, além de integrar o corpo editorial do Dicionário de Poética e Pensamento. Tem publicado ensaios sobre teatro e seu estudo sobre o poeta moçambicano Virgílio de Lemos.

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