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A AUSÊNCIA DA SIMBOLOGIA DE DEUS OU A CULPA PODE SER DO HERBERTO HELDER
(recensão a Caim, de José Saramago. São Paulo: Companhia das Letras, 2009)
O problema de boa parte dos debates contemporâneos é tratar das questões erradas. O debate que em Portugal se seguiu à publicação de Caim padece desse mal. Discussões, quando revestidas de moral ou bandeiras demasiado extraliterárias, em torno da fé ou da ausência de fé de um escritor ou de uma obra, são ociosas. Discussões interessadas na gama de sentidos que uma obra pode produzir, e, a partir disso, na possibilidade de interferência de uma obra no mundo, talvez possam ser mais produtivas. Não me importa que a cara de um escritor qualquer apareça, em Portugal ou no Brasil, nos fundos de veículos de transporte coletivo ou nos chamados outdoors; é um mal sinal, pois o escritor em questão faz as vezes de garoto-propaganda, mas não é isso o que me importa. Tampouco me importa muito o que um escritor diga de seu próprio trabalho, pois isso pertence a uma esfera não literária. Importa-me, no caso de Caim, as significações, de preferência em deslocamento e/ou expansão, que advenham de personagens como Deus, ou “o senhor”, Caim, Abraão etc. Importar-me-ia, na verdade, pois não encontro muito disso no romance. Encontro uma espécie de manifesto contra Deus, o que, em se tratando de literatura, é pouco.
A culpa, não da existência de Caim, mas de meu modo de ler esse romance, pode ser do Herberto Helder. Uso culpa para brincar com um vocábulo bastante apreciado pelos católicos, e também, ao que parece, por Saramago. O protagonista do romance, como o título indica, é Caim, uma das personagens malditas do Antigo Testamento. Tendo o fratricida como condutor, vários episódios bíblicos são transgredidos a partir de estratégia um bocado arbitrária: “súbitas mudanças de presente que o faziam viajar no tempo” (p. 89). Desse modo, Caim testemunha ocorrências que são, em Saramago, salientadas em seu caráter histórico-moralista e esvaziadas em seu caráter mítico. Explico-me: após uma abertura, previsivelmente iconoclasta, que se centra em Adão e Eva e na expulsão do casal dum modorrento Éden, dá-se o gesto homicida de Caim, e tem lugar mais uma iconoclastia bastante óbvia, tanto pela motivação do crime como pelo encaminhamento diegético que daí advém. A motivação: “Abel tinha o seu gado, caim o seu agro, e, como mandavam a tradição e a obrigação religiosa, ofereceram ao senhor as primícias de seu trabalho, queimando abel a delicada carne de um cordeiro e caim os produtos da terra, umas quantas espigas e sementes. Sucedeu então algo até hoje inexplicado. O fumo da carne oferecida por abel subiu a direito até desaparecer no espaço infinito, sinal de que o senhor aceitava o sacrifício e nele se comprazia, mas o fumo dos vegetais de caim, cultivados com amor pelo menos igual, não foi longe, dispersou-se logo ali, a pouca altura do solo, o que significava que o senhor o rejeitava sem qualquer contemplação” (p. 33). É a velha história do filho rejeitado que, por ser filho e rejeitado, escolhe desviar-se, e é esse o perfil do Caim que conduzirá o romance.
O problema é que, optando por tal premissa, a obra tão somente inverte o jogo dado pela Bíblia, não se importando com aspecto que, a mim (a culpa pode ser do Herberto Helder), é notável: inversões costumam manter os eixos intactos. Eixo mantido, Deus, ou “o senhor”, deixa de ser benigno para ser maligno, mas continua sendo “o senhor” – não sem ironia, é claro, mas o eixo se mantém. Incomoda-me uma perspectiva assim, que, além do mais, abre mão de muitas ambiguidades e ambivalências, dando às personagens caracteres marcados e fixos, deambulantes (caso de Caim) apenas no plano geográfico e temporal, o que me sabe, já sugeri, a uma espécie de deus ex machina. Deus ou “o senhor”, em Caim, possui uma simbologia muito pobre, quase simbologia nenhuma, ao contrário do que ocorre num dos mais bem conseguidos romances de Saramago, o pré-Nobel O evangelho segundo Jesus Cristo; aí, a dimensão histórica não afasta o mito nem diversas incoerências que marcam a complexa humanidade de cada uma das personagens, já que a humanidade é o norte da construção do romance e de sua voz, sua poiésis. Em Caim, a complexidade do protagonista basta-se no desvio e na maldição que “o senhor” lhe impõe: “(…) farei um acordo contigo” (p. 35): “Andarás errante e perdido pelo mundo, Sendo assim, qualquer pessoa me poderá matar, Não, porque porei um sinal na tua testa, ninguém te fará mal, mas, em pago da minha benevolência, procura tu não fazer mal a ninguém, disse o senhor, tocando com o dedo indicador a testa de caim, onde apareceu uma pequena mancha negra, Este é o sinal da tua condenação, acrescentou o senhor” (p. 37), e está saído do forno um protagonista bem à feição do que quer o romance: um desviado, um desobediente, um marcado. Quem o marca, o “senhor”, digo sem nenhum prazer, é o vilão de uma estória dita por narrador, ressalto, que pouquíssima margem dá a quem lê, pois estão todas as índoles definidas e prontas.
Em Caim cabem também gestos iconoclásticos baseados num humor que segue a mesma lógica da inversão: se há perfeição nas coisas divinas, haverá, no texto, imperfeição. Em Saramago, Caim salva Isaac de ser morto por seu pai, Abraão, quando a estória bíblica relata tratar-se a ordem de Deus para que o pai sacrificasse o filho em Seu nome apenas de uma provação. No Testamento, quem intervém para salvar Isaac é um anjo. No romance em questão, como Caim chega primeiro, cabe ao anjo, cuja tarefa passa a ser escusada, justificar seu atraso: “Chegas tarde, disse caim, se isaac não está morto foi porque eu o impedi. O anjo fez cara de contrição, Sinto muito ter chegado atrasado, mas a culpa não foi minha, quando vinha para cá surgiu-me um problema mecânico na asa direita, não sincronizava com a esquerda, o resultado foram contínuas mudanças de rumo que me desorientavam (…)” (p. 80). A tirada baseia seu efeito humorístico na submissão das asas do anjo a regras a que anjos, ainda mais os bíblicos, não se submetem. Talvez esse seja o modo mais imediato e eficaz de demonstrar desobediência: rir-se do que não pode ser risível. Mas é também o modo mais à mão para esse fim, e, ainda que eu me repita, trata-se de uma mera inversão, que em nada modifica qualquer eixo.
Em detrimento de Deus, um argumento central de Caim é a pouca bondade do “senhor”. Num diálogo baseado nas tormentas impostas a Job, diz Caim: “O senhor não ouve, o senhor é surdo, por toda a parte se lhe levantam súplicas, são pobre, infelizes, desgraçados, todos a implorar o remédio que o mundo lhes negou, e o senhor vira-lhes as costas, começou por fazer uma aliança com os hebreus e agora fez um pacto com o diabo, para isso não valia e pena haver deus” (p. 136). O argumento antidivino baseado na indiferença ou no abandono não dá conta da simbologia de Deus, pois exige uma sua monocondição, e volto à pobreza dos debates que cercaram o lançamento desse romance: os que defenderam a liberdade de expressão de Saramago talvez não tenham notado que uma instância, hoje tão ou mais poderosa que a Igreja, o mercado, torna desnecessária qualquer defesa da liberdade de expressão de Saramago; os que atacaram o autor, especialmente os religiosos convictos, talvez não tenham notado que ele se esqueceu de algo que seria bastante mais problemático que uma inversão de papéis. A culpa pode ser do Herberto Helder porque, na poesia assinada por esse nome, Deus é muitas coisas, desde opressão até liberdade, chegando a ser, num poema recente, maravilha tecnológica: “o vídeo funciona,/ água para trás, crua, das minas,/ tu próprio crias pêso e leveza, luz própria,/ (…) / o mundo nasce do vídeo, o caos do mundo, beltà, jubilação, abalo,/ que Deus funciona em sua glória electrónica”. Aprendi com Herberto: Deus é digo de desobediência e escrita, de ataques e bate-bocas, portanto, ao contrário do que alguns gostam de pensar, Deus não é assim tão óbvio. Nem a literatura.
NOTA
[1] HELDER, Herberto. A faca não corta o fogo. Lisboa: Assírio & Alvim, 2008. p. 159.
Luis Maffei é poeta e professor de Literatura Portuguesa da Universidade Federal Fluminense.
