editorial
Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram, apr(e)endemos com Calvino. E, a partir do que nos ensinou o italiano, com nosso colunista Ricardo Pinto de Souza e Solange Santos Santana lemos essas marcas culturais incontornáveis. Pois, se o Nelson Rodrigues de Solange ainda não é um clássico, o temos, ou o deveríamos ter, como canônico. E este canônico autor nos apresenta Glorinha, personagem de Perdoa-me por me traíres, que aos 16 anos torna-se um exemplo de prelúdio à prostituição e que, além de despertar o desejo em seu tio Raul e no deputado Dr. Jubileu, também demonstra como o erotismo pode ser expresso pela presença do objeto do desejo erótico. Cânone, clássico e atento cultural é o Benjamim de Ricardo, que, via Tony Kushner, reflete sobre experiência histórica.
Na edição que é aqui oferecida, Pedro Serra, da Universidade de Salamanca, implica-nos a fabulosa poeta catalã Maria Mercè-Marçal, à guisa de poesia e imagem/documento, nos fazendo tomar, em certa medida, a experiência histórica benjaminiana. Assim como a Adília Lopes de Cadernos, livro resenhado por Luis Maffei em sua coluna.
Ainda a poesia, mas agora a de Ismael Nery, um dos pintores mais singulares do Brasil: fortemente influenciado pela arte de vanguarda da época — Picasso, Chagall, entre outros —, teve uma carreira curta, morrendo aos 33 anos em 1934, e aqui sua obra poética é-nos mostrada por Bernardo Guadalupe S. L. Brandão e pelo próprio autor, que acompanha Claudia Schroeder em nossa seção de poemas.
Nesta edição temos ainda o gosto de oferecer ao leitor a entrevista com a jovem romancista Manoela Sawitzki, para quem basta sentir que se consegue viver sem escrever para não dever sequer tentá-lo, texto que poderia ser de Valentine Ackland, cujas palavras são traduzidas por Tessi D’Ávila, ou ainda — porque as artes plásticas se escrevem com tinta — por Olivia A. Niemeyer Santos.
Boa leitura!
