um mistério mais importante que o entendimento: seis perguntas para manoela sawitzki
Tendo se embrenhado desde cedo pelas matas da literatura, aos 24 anos a aventura da gaúcha Manoela Sawitzki conquistou lombada e título: Nuvens de Magalhães. Hoje, aos 31, após incursões da autora como dramaturga e roteirista, o romance ganhou a companhia de Suíte dama da noite, livro que não cansa de lhe render elogios. Considerada um dos principais nomes da nova safra da literatura brasileira, a autora nos disponibilizou um pouco de seu tempo para falar sobre temas caros à produção literária.
Entrevista concedida a Hugo Langone.
À maneira clássica, nosso Tristão de Athayde descreveu a literatura como um livre agir humano sobre as palavras, em busca do belo, mas ainda assim um fazer em conjunção com outros fazeres e, dessa forma, limitado em sua própria natureza. Como você vive as fronteiras e os limites da literatura?
Você se refere à fronteira entre a vida e a literatura? Se for isso, respondo que procuro aproximá-las o máximo possível. Pra mim, há duas instâncias que precisam ser levadas em conta: uma se refere à matéria, ao substrato que tornará possível você tocar em certas questões através da sua escrita. Essa matéria, esse substrato vem da vida, não apenas de uma vida vivida, mas também da vida observada, intuída, imaginada. A segunda, é o próprio exercício narrativo, se relaciona com a técnica, com a teoria literária, trata da engenharia da escrita. Não entenda isso como dogma, falo apenas do que me diz respeito. Não desejo produzir algo que não derive prioritariamente da primeira instância, trabalhar com uma escrita que não seja motivada, impulsionada pela vida. E essa pulsão pode vir também das dificuldades, dos obstáculos que você encontra quando decide que, sim e apesar de tudo, irá seguir o caminho da literatura. Eu, por exemplo, preciso trabalhar como jornalista, aceitar encomendas etc, e essa necessidade muitas vezes e por muito tempo me afasta da escrita literária. Pensando bem… eu escrevi “afasta”? Não, na verdade toda distância imposta me aproxima, porque me dá saudade, porque me mostra o quanto quero e preciso voltar a escrever.
Por que a prosa e a dramaturgia, e não a poesia? O que há nessas linguagens que se aproximam do que você almeja quando cria?
Como quase todo mundo que descobre cedo esse gosto por escrever, comecei pela poesia. Acho que já ensaiava uns versos perto dos seis, sete anos. No princípio fazia uns joguinhos de palavras, uma rimazinhas, coisa pequena, singela, muito infantil, depois fui ficando mais pretensiosa. Acho que foi por volta dos dez que cheguei a dizer poemas em saraus públicos na casa de cultura da minha cidade, uma cidade do interior do Rio Grande do Sul, na escola, e também a publicar de vez em quando num pequeno jornal. Foi aí que comecei a ficar meio convencida de que era ótimo aquilo tudo que eu escrevia. A adolescência, naturalmente, me cortou as asas – no bom sentido. À medida que a pessoa cresce e se realmente se interessa, se tem curiosidade, descobre que o mundo não orbita ao redor do seu umbigo, deixa de ser sua única referência e começa a entrar em contato com autores e obras importantes. Esse contato evidenciou minhas deficiências e assim fui colocada no meu devido lugar, o lugar do aprendiz, o lugar que ocupo até hoje. Foi um processo doloroso, mas fundamental. Enfim, senti atração pelas palavras muito cedo. Diante disso, a poesia foi como um instrumento que me permitia produzir sons mesmo quando não tinha muito fôlego e ainda que eu desafinasse feio. Aos poucos me dei conta de que escrever poesia é muito difícil, de que me falta poder de concisão e, sobretudo, percebi que me falta vontade de concisão. Gosto demais do exercício, de seguir o fio de um enredo, de um personagem e me permitir ir com eles até onde for possível, até que um ou outro se fechem e me expulsem. Posso dizer que a prosa é uma inclinação natural. Agora, em relação à dramaturgia, fiz os primeiros exercícios há mais ou menos quatro anos e foi prazer puro. A motivação é simples: tenho profundo amor pelo teatro. Ainda quero fazer muitas coisas nesse território.
Tive a oportunidade de ler você dizendo, em outra entrevista, que a sua literatura se encaminha para dentro. O que você acha que faz com que, ainda assim, ela não seja uma espécie de literatura autista? O que há de universal que emerge e faz com que esse “para dentro” se desligue de ti e seja também do leitor? É a beleza, a tematização…?
Quando disse isso, me referia ao dentro do enredo, ao dentro dos personagens, falava sobre buscar tudo o que é anterior à ação e evidenciar essas descobertas através da narrativa. Claro que isso, necessariamente, também me coloca em contato com minhas próprias questões internas, mas essa não é a motivação maior, nem a finalidade do movimento. Acredito que esse núcleo é o que posso apreender de mais universal e o que pode imprimir mais universalidade a uma história.
Manoela, por um instante pensei em lhe perguntar para quem você escreve, mas imediatamente — e por não sei que motivo — me veio a cabeça que sua resposta seria: “Para mim.” Porém, me parece que, sendo a literatura uma exteriorização, é também um ato de comunicação. Criamos, exteriorizamos e comunicamos algo a alguém, e antes que esse alguém seja um leitor, é alguém que nos guia na própria escrita, que nos dá a certeza de que seremos compreendidos. Neste sentido, refaço a pergunta inicial: para quem você escreve? É a imagem de quem que te guia durante o escrever?
Não, eu não responderia “para mim”. Mas se você me perguntasse “por quem”, aí responderia “por mim”, porque quero me colocar em contato. Esse eu (ou essa minha curiosidade) é mais uma alavanca do que um fim. Quando o contato se mostra intenso e sincero, aí sinto vontade de compartilhar o que foi possível produzir a partir dele. A verdade é: quando escrevo, dialogo. Com quem? Com as questões que permeiam cada história. Nem todas, aparentemente, me dizem respeito, e são justamente essas as que mais me despertam o interesse. Escrever é a maneira mais contundente que encontrei de me relacionar com o mundo, com suas questões. É no momento da escrita que tento decantar todo o repertório que acumulo, o que suponho que compreendo, o que estranho, é através desse processo que consigo apreender melhor os sentidos das coisas. Quanto à imagem que você menciona, não há “a imagem”, há imagens que variam de exercício para exercício.
Você escreveria o que escreve em qualquer lugar? Em que medida, em teus textos, você dialoga com o ambiente, com o que é externo? É possível delimitar essa atuação?
Acredito que o ambiente influencia a elaboração e a execução de qualquer tipo de trabalho. Uma razão que me trouxe para o Rio de Janeiro foi o desejo de incorporar a luz, o calor, a nudez e a turbulência dessa cidade ao meu processo criativo. O frio e a cultura do sul produziram influências que estão bastante enraizadas em mim, mas em algum momento senti que precisava também de algo distinto. Agora, eu carrego comigo todos os lugares onde já estive, assim como trago imagens idealizadas, abstrações, possibilidades de lugares em que nunca pisei, e guardo imagens vistas e não vistas: de tudo isso posso me servir na hora em que escrevo uma história.
“…basta sentir que se consegue viver sem escrever para não dever sequer tentá-lo.” Você talvez há de concordar sobre a veracidade e a beleza do conselho de Rilke. No seu caso, é possível — talvez olhando para trás; ou para dentro — racionalizar essa necessidade de escrita, ou será essa inclinação mesmo um mistério?
Eu li essas cartas na minha adolescência. Elas me foram passadas pelo Biño, um dos meus irmãos mais velhos, alguém que teve um papel importante na minha formação pessoal. Ele me emprestou esse livro como uma espécie de resposta para um esboço de novela que havia lhe entregado semanas antes. Naquele momento, com muita seriedade, me fiz essa pergunta. A resposta continua sendo a mesma até hoje: sim, eu poderia viver sem escrever, mas essa vida não me interessaria tanto. Se escrever tornou-se algo natural e necessário, uma vida sem a escrita seria uma vida artificial. Não acho possível ou interessante racionalizar essa inclinação, o mistério às vezes é mais importante que o entendimento.
