a presença de glorinha – solange santos santana


Introdução

O dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues sempre destinou um lugar de destaque às mulheres em seu teatro, principalmente, quando se propunha a representar a sexualidade feminina. Valorizadas por Rodrigues, essas personagens provocaram e ainda provocam o público através de suas atuações que, inevitavelmente, vão de encontro ao discurso hegemônico sobre a sexualidade. Este, só para relembrarmos, teimava e, ainda insiste em calá-las, podando-as de qualquer experiência longe da constante vigília social. Entretanto, mulheres brasileiras, tais como Pagu e Leila Diniz, consideradas à frente de seu tempo, ousaram transgredir as normas vigentes e, assim, anteciparam um pouco da liberdade que agora dispomos.

No teatro de Rodrigues encontraremos muitas personagens que antecedem, também, a Revolução Sexual da década de 60, preconizando uma mulher mais livre, mesmo que ficcionalmente, do cerceamento social que só as “libertavam” em um espaço fechado e velado por todos. Como sabemos, anterior a esta década, foram buscados os direitos igualitários de voto, a inserção da mulher no mercado de trabalho e a proposição de uma maior liberdade sexual com o surgimento da pílula anticoncepcional (BRAGA, 2005), a qual realizaria o que Freud já havia descoberto: “O prazer como a força vital do sexo” (FREUD apud SARAIVA, 1960, p. 58).

Amor, sexo, erotismo e sensualidade foram os temas mais visíveis da década de 60, classificada pelos americanos de permissive society. Todas as permissividades desse momento em relação às representações acerca da sexualidade fizeram com que a sociedade acreditasse que o passado era muito mais decente do que o presente. ”Nunca um assunto foi tão abundantemente tratado e retratado“ (SARAIVA, 1960, p. 57). Todavia, Nelson já tratava desses temas muito antes da década de 60, desde 1941, para ser mais clara, quando escreveu sua primeira peça, A mulher sem pecado.

Na dramaturgia rodriguiana, considerada por muitos “desagradável”, os conflitos, as alegrias e as dores humanas são representadas sem nenhuma maquiagem, sem nenhum pudor porque, como todos sabem, Nelson Rodrigues era impiedoso quando expunha as mais profundas obsessões humanas. Para o dramaturgo, o homem é soma de todas as suas obsessões (CASTRO, 1992). Poderia ser um pai que desejasse a filha, um sogro apaixonado pelo genro, a filha que se prostituísse para sustentar a família, um marido que amasse a cunhada, solteironas cheias de amantes, adultérios, mortes, assassinatos, falsas famílias e falsos códigos de conduta – em todas as mais variadas situações, consideradas anormais pela sociedade, lá estaria Rodrigues olhando pelo buraco das fechaduras.

Enfrentando a censura, chocando os espectadores, não há como negar que o teatro do dramaturgo brasileiro, como boa parte do teatro moderno, tem como tema central a sexualidade humana, principalmente, a feminina. Como já dissemos, a mulher tem um lugar especial em sua dramaturgia ao protagonizar desejos, angústias e todas as transgressões possíveis. Neste trabalho, portanto, estudaremos a personagem Glorinha, objeto de desejo erótico, da peça Perdoa-me por me traíres, analisando, assim, como o erotismo se faz presente à sua representação.

A trajetória de Glorinha

Ao analisarmos o teatro rodriguiano atentando para muitas de suas personagens femininas, imediatamente nos lembramos de obras como Presença de Anita (1948), de Mário Donato, e Lolita (2003), de Vladimir Nabokov. Aquele autor vivenciou dias de glória e de muita polêmica. Aclamado pela crítica como inovador, ousado e erótico, seu livro provocou, entre tantas, a ira da Igreja. Nabokov, por sua vez, foi considerado muito arrojado para a moral vigente de sua época. Inicialmente, seu romance foi recusado por várias editoras, só sendo lançado em 1955 por uma editora parisiense. Gerando opiniões antagônicas, houve quem definisse o livro como um dos melhores do ano e quem o considerasse pornográfico. Nos Estados Unidos, aonde só viria a ser publicado em 1958, rapidamente conquistou o topo das listas dos mais vendidos.

Com Nelson Rodrigues não foi diferente. Ora considerado, por muitos, um gênio que inovou o teatro brasileiro, ora denominado como “tarado”, “pornográfico” e polêmico, o dramaturgo sofreu com as críticas e a censura. Contudo, assim como Donato e Nabokov, não se deixou intimidar ao representar o erotismo, a sedução e o desejo sexual que provocam, por exemplo, o apetite pelo incesto e a transformação da mulher em objeto de desejo erótico masculino.

Uma das notórias ninfetas rodriguianas é Glorinha, personagem de Perdoa-me por me traíres, que aos 16 anos torna-se um exemplo de prelúdio à prostituição que, além de despertar o desejo em seu tio Raul e no deputado Dr. Jubileu, também demonstra como o erotismo pode ser expresso pela presença do objeto do desejo erótico.

Fugindo às convenções, o bordel é um local que seduz as heroínas de Nelson Rodrigues, e, confirmando essa obsessão, a peça se inicia com duas adolescentes, vestidas de colegiais, entrando no prostíbulo de madame Luba, uma cafetina lituana, especialista em oferecer virgens com 16, 17 e até 14 anos de idade, aos seus clientes mais ilustres, geralmente deputados. Uma delas, Nair, está levando a amiga Glorinha, pela primeira vez ao lugar.

No primeiro ato é pintado um quadro realista do ambiente com ênfase em Dr. Jubileu, cliente do prostíbulo, que vive uma satisfação solitária na presença de Glorinha, a ninfeta que acendia seu imaginário apetite sexual. A menina, tímida e curiosa, mostra-se dividida entre ser a boa moça, temendo as reações de seu tio, ou se oferecer como objeto de desejo erótico a outros homens num bordel (MAGALDI, 1993).

Com o deputado, a cena suscita o riso e o escárnio devido ao descompasso entre as experiências opostas:

Glorinha – O senhor está me apertando! Me largue! O senhor está maluco!
Dr. Jubileu – (arrasta-se de joelhos e, de joelhos, a escorrer suor, persegue a pequena). Não me interrompa!
Dr. Jubileu – [...] mais uns dez minutos, ou cinco. Cinco, está bem? (numa lamúria infinita). Cinco, filhinha cinco. Te dou tudo, tudo… (RODRIGUES, 1993, p. 789).

Após este momento, Dr. Jubileu “alcança o máximo da tensão e tem um soluço interminável, grosso como um mugido” (RODRIGUES, 1993, p. 789), chegando, finalmente, ao gozo sexual, mas, sem consumar o ato com Glorinha. Excitado, ele recita um ponto de Física e suplica à menina que o chame de “reserva moral” da nação, o que traz ao episódio uma dimensão clara de desmascaramento social. Conforme Castro, “o bordel de normalistas, naturalmente, era uma fantasia carioca, mas a ideia de flagrar nele um deputado (numa época em que ainda se levava em conta o decoro parlamentar) era um acinte” (1992, p. 275).

Ao estudar Nelson Rodrigues, é possível notar que “não há possibilidade de uma representação da sexualidade pacífica e positiva em seu teatro. Ao invés disso, o erotismo desencadeia uma violência desregrada e um desequilíbrio naquele que o experimenta” (BATALHA, 2007, p. 44). Dessa maneira, na dramaturgia rodriguiana, “Eros é também Anteros: está sempre pronto a desarmar, a desmascarar os que fingem ignorá-los, ou os que julgam possuí-lo” (SARAIVA, 1960, p. 15).

Para o filósofo espanhol Ortega y Gasset, não é a vida que determina todos os movimentos da razão, mas, um encontro, uma parceria, uma cumplicidade entre a razão e a vida. Conforme o autor, a vida dar energia e vigor à razão, e esta, por sua vez, controla os impulsos supérfluos, excessivos, desnecessários e inconvenientes (PORTELLA, 2005). Com isso, o filósofo previu, no clássico Estudos sobre o amor (1960), que a paixão quando se estabelece, nubla a capacidade de julgamento do homem.

Entretanto, Ortega y Gasset falava dos amantes em geral, não tratando, como gostaríamos, da diferença de idade em relacionamentos amorosos. Entre meninas e senhores a situação se complica e o desejo de possuir é o que comanda a relação. As ninfetas – Anitas, Lolitas e Glorinhas – perturbam e mexem com a vaidade dos parceiros. Por isso, quando eles conseguem alcançar seus objetivos, isto é, ter o objeto que tanto desejam, este será exibido como um atestado de virilidade e de sobrevida.

Em Perdoa-me por me traíres, Dr. Jubileu deseja Glorinha e assume seu anseio: “[...] desde que eu me mudei, que vejo você todos os dias [...]. Você tem um corpinho que…. E a pele sem uma espinha, uma mancha (trêmulo). As meninas têm, realmente, um cheiro de menina… (RODRIGUES, 1993, p. 788). A despeito do cheiro que exala do corpo feminino, Georges Bataille acredita que,

[...] o sentido último do erotismo é a fusão, a supressão do limite. Apesar disso, em seu primeiro movimento, o erotismo se exprime pela posição de um objeto do desejo. No mundo animal, o cheiro da fêmea freqüentemente determina a procura do macho. [...] O olfato, a audição, a visão e mesmo o paladar percebem sinais objetivos, distintos das atividades que eles determinarão. Nos limites humanos, esses sinais anunciadores têm um valor erótico intenso (BATAILLE, 2004, p. 202).

As mulheres, para Bataille, são objetos privilegiados do desejo, por quem todos os sentidos masculinos se afloram. Uma bela jovem desnuda, por exemplo, pode ser a própria imagem do erotismo. No caso de Glorinha, não há nudez, mas, é justamente sua ausência que provoca Dr. Jubileu, visto que, o homem não busca um objeto de desejo fora de si. Esta escolha depende das preferências pessoais do sujeito, pois o erotismo está na consciência do homem e não no objeto escolhido (BATALHA, 2007). Sabendo ser o erotismo “uma busca psicológica, independente do fim natural dado pela reprodução e pela preocupação em procriar” (BATAILLE, 2004, p. 31), compreendemos, durante a análise desta peça, que mesmo o objeto de desejo não representando o erotismo por inteiro, este perpassa por ele.

Além do trecho em que Dr. Jubileu declara observar a menina e gostar de seu cheiro, é possível encontrarmos outras cenas que caracterizam Glorinha como o objeto de desejo erótico masculino em Perdoa-me por me traíres. Para tanto, lembramos que,

[...] pontuar imagens eróticas em um texto é sempre uma tarefa complexa, mas acreditamos que estas imagens tendem a ocultar o que as pornográficas revelam, visto que o texto erótico tende a trabalhar com a técnica de velamento, deixando subentendida uma cena sensual (FILHO, 2002, p. 30).

É partindo desse pressuposto que analisamos a primeira rubrica da peça, na qual Nelson Rodrigues nos apresenta a normalista da seguinte forma: “Glorinha está na porta de madame Luba, vestida de colegial, uniforme cáqui, meias curtas, cabelo rabo de cavalo, pasta debaixo do braço” (RODRIGUES, 1993, p. 783). Aparentemente, esta passagem pode nos parecer ingênua. Contudo, o sexo, frequentemente, está aliado às mais variadas fantasias sexuais que povoam, a todo instante, o imaginário de pessoas comuns.

Segundo Roland Barthes, há casos em que todos os objetos tocados pelo corpo do ser amado tornam-se parte desse corpo, fazendo com que o sujeito se ligue a eles apaixonadamente. Do ser amado sai uma força que nada pode deter e que vem impregnar tudo o que ele toca, até mesmo com o olhar. Ora o objeto metonímico é presença (gerando alegria); ora ele é ausência (gerando a tristeza) (BARTHES, 1990, p. 155).

Tal atração é chamada de fetiche, do fr. fétiche (MACHADO, 1995, p. 40), mas também,

[...] termo proveniente da palavra portuguesa feitiço, relacionada a encantamentos, magias e, é claro, a objetos aos quais se atribui certo poder para conseguir determinados fins. Contudo, provavelmente a origem mais profunda do fetichismo deve ser procurada na África, onde muitas etnias e clãs politeístas dispunham de pequenos deuses próprios — são os povos animistas. Suas divindades eram simbolizadas por objetos ou figuras confeccionados com diferentes materiais, desde grandes totens a pequenos amuletos; muitos deles eram associados à sexualidade. Daquela antiga magia à paixão pelos objetos sexuais, abrem-se novas possibilidades (GALOTTI, 2007, p. 105).

Para o senso comum, fetiche é definido como uma tara sexual que certas pessoas têm por imagens ou personagens. “Entre Julia Roberts e um sapato, por exemplo, o fetichista escolhe o sapato”. Esta frase, mais que uma definição, é uma sentença acertada do psicólogo Moisés Lemlij (apud GALOTTI, 2007). Isso porque, no fetichismo, o desejo pelo objeto prevalece sobre a pessoa que o carrega. Esse devaneio que se elabora com a observação do objeto intensifica o apetite sexual. Uma simples meia, neste caso, se converte para o fetichista em acessório de culto, que o leva a um estado de êxtase (GALOTTI, 2007).

Em relação à mulher, observa F. Perrier e W. Granoff que,

[...] a mulher pode ser fetichizada, mas não fetichista. Ela é frequentemente tomada como instrumento e objeto causa da perversão, “sujeitando-se” ao desejo do Outro, oferecendo-se para ocupar o lugar do objeto A. Há, na relação amorosa, um pacto de cumplicidade, de “cumplicidade objetal”: de um lado, a mulher se oferece como objeto parcial para o homem e este, por sua vez, visa na parceira não a sua totalidade, mas os objetos que ele pode recortar do corpo feminino. Diríamos que ela causa o desejo no homem quanto mais for possível despertar nele suas fantasias perversas. Nesse contexto, estão sempre implicados dois lugares frente ao Outro, justificando a necessidade de um pacto para a manutenção das relações (apud QUEIROZ, 2002).

Não é, portanto, o fato de a mulher não ser fetichista que a impedirá de perverter sua libido de um modo narcísico. Na verdade, à medida que se oferece como objeto de desejo, a mulher torna-se, para ela mesma, seu próprio fetiche. Nelson Rodrigues já dizia que toda mulher bonita é um pouco a namorada lésbica de si mesma (CASTRO, 1992).

Conforme Galotti (2007), as variantes dos objetos de desejo se inscrevem em duas áreas: partes do corpo e objetos inanimados. Entre as primeiras, a fixação passional concentra-se, principalmente, nos peitos, nas nádegas, nos pés e no umbigo. Embora os objetos inanimados sejam inumeráveis, escolhem-se com mais frequência sapatos, roupas de couro ou de pele, calcinhas, sutiãs, cuecas e gravatas.

Porém, entre todos os objetos de desejo, os uniformes, tais como, os de colegiais, estão entre os campeões da prática fetichista tanto no Ocidente quanto no Oriente. No Brasil, é possível encontrarmos filmes pornôs intitulados “Colegiais” que trazem nas capas ninfetas vestidas conforme o título prediz. Esse fetiche também está presente, e visível, nos sexy shops que expõem dentre tantas fantasias, a que veste Glorinha.

Já no Oriente, principalmente no Japão, há uma tara nacional: os homens vivem à procura de meninas vestidas de colegiais, com suas saias curtas e plissadas. Conforme Cordeiro (2008), o fetiche japonês, conhecido pelo nome de burusera, possui características que o torna ainda mais curioso. Uma delas é a atração dos homens pelas calcinhas usadas pelas meninas. Este desejo tomou uma proporção tão grande entre os japoneses que começou a ser explorado pela indústria erótica, transformando-se em assunto para mangás, cinema e internet.

Para entendermos melhor o porquê desse fetiche, basta sabermos que uma mulher vestida com uniforme de colegial significa a pureza, e ao mesmo tempo, o despertar para a vida sexual, o que mexe com a imaginação erótica dos homens. Glorinha mexe com o imaginário erótico de Dr. Jubileu que, mesmo antes de encontrá-la no bordel de madame Luba, já a observava constantemente. Sobre essa atitude voyerista do deputado, Gallotti (2007) nos diz que,

[...] desfrutar, olhando o objeto de desejo, tem efeitos mágicos sobre os olhos. Quando entra neles, agiganta-os, fazendo-os fixar o olhar. A partir daí, esses olhos não são mais os mesmos. Perdem a inocência, destilam erotismo. Uma descarga instantânea e profunda faz dessa pessoa um ser invadido pelo desejo sexual. Ela se excita com o que vê, seu coração se acelera, a imaginação dispara, a pulsação aumenta. Seus olhos brilhantes se concentram e sentem uma atração irresistível apenas por aquela cena que, para a intuição, é um caminho até o prazer (p. 13).

Aquela sensação de semiclandestinidade que Dr. Jubileu sente abrirá uma porta para seu desejo de possuir Glorinha, seu objeto de desejo erótico. A respeito disso, concordamos com Bataille (2004) quando ele nos diz que, o erotismo está na consciência do homem. Em um sentido o ser pode se perder objetivamente. Distrair-se de si é a condição da experiência do erotismo, que depende das fantasias de cada pessoa, do desejo mantido no inconsciente que emerge frente a estímulos inesperados (GALOTTI, 2007, p. 20).

Seguindo o pensamento de Foucault (1984) a respeito do objeto de prazer que se torna a jovem mulher diante dos olhares masculinos, entendemos que a iniciação de Glorinha ao mundo dos prazeres representa a manutenção de uma cultura falocrática, na qual o homem conta, além da força física, com a passividade feminina diante de afagos e elogios. Não obstante, Bataille também nos assegura que:

Se os homens têm a iniciativa, as mulheres têm o poder de provocar o desejo deles com a sua atitude passiva; elas tentam obter, suscitando o desejo, a união que os homens alcançam perseguindo-as. Na verdade, elas se propõem como objetos ao desejo agressivo dos homens (BATAILLE, 2004, p. 203).

Entretanto, e por mais que Dr. Jubileu seja agressivo, Glorinha resiste, com medo do tio que a criou. Ainda assim, sente um certo fascínio pelo local, marcando um encontro para o dia seguinte. O que transparece à análise do 1º ato, é que a menina necessita de algum motivo que desperte toda a sua vontade de se dar ao Outro. E este motivo será dado por seu tio Raul a partir do momento em que ela tem que enfrentar sua fúria por sabê-la em um bordel.

Após descobrir as aventuras da sobrinha, Raul compreende que não poderá mais controlá-la. Irritado, conta-lhe que sua mãe, Judite, não se matou, como a menina acreditava. Ele obrigou-a a cometer o suicídio para punir seu pecado – o adultério. Raul, ainda, justifica para Glorinha a razão pela qual, só naquele momento, estava revelando-lhe a verdadeira história de sua mãe: “Porque vocês duas se parecem como duas chamas e vão ter o mesmo destino” (RODRIGUES, 1993, p. 816).

Tio Raul: [...] Eu sempre te julguei uma coisa e vejo que és outra. Sempre te julguei, sabes quê? Uma menina sem sexo, isso mesmo – uma menina sem sexo. Eu não admitia nunca que, até aos dezesseis anos, tivesses tido um desejo, jamais. E de repente, alguém me diz que há em ti, uma deformação monstruosa. Eu quero saber se é uma coisa ou outra (p. 818-819).

A verdade sobre Glorinha faz com que Raul se sinta novamente traído. Isto, também, o fará confessar seu primeiro crime à sobrinha: ele amava a cunhada e matou-a porque ela o rejeitou. O seu único consolo foi tê-la beijado na hora em que morria. Quanto a isso, Bataille (2004, p. 45) nos diz que, “se é verdade que a posse do ser amado não significa a morte, também o é que a morte está necessariamente envolvida na busca dele”. Inevitável para Nelson Rodrigues não associar amor e morte em toda a sua dramaturgia. Relações obsessivas, alimentadas, muitas vezes, por desejos ocultos, permeiam histórias como esta que, aqui, analisamos. E assim, corroborando Bataille (2004), Tio Raul confessa uma segunda verdade: “Glorinha eu te criei para mim. Dia e noite, eu te criei para mim! Morre pensando que eu te criei para mim!” (RODRIGUES, 1993, p. 824).

Demonstrando, ainda, a evolução do comportamento feminino, nesta peça, Glorinha não se comporta como sua mãe, que se deixou dominar por Raul sendo guiada por ele ao suicidou. Ao invés disso, tripudia de sua velhice e de seu desejo:

Glorinha – Já que devo morrer [...]. Morre comigo, junto comigo! Seria lindo! Eu sei que você me ama! Não ama?
Tio Raul – Primeiro responde: ficaste nua com o deputado?
Glorinha – Não, titio!
Tio Raul (num imenso soluço) – Mas se for mentira, eu te amo assim mesmo, te amo, te amo, te amo! (RODRIGUES, 1993, p. 822-823).

Quanto à declaração acima, Barthes (1990) esclarece que Eu-te-amo não tem emprego nem nuances. Essa palavra pode ser tanto sublime, solene, frívola quanto erótica e pornográfica. Por isso, torna-se uma palavra que se desloca socialmente, que dispensa as explicações, as organizações, os graus e os escrúpulos.

A partir do Eu-te-amo, Glorinha brinca com aquele que lhe tirou a mãe e para isso faz uma manobra: ao invés de morrer sozinha, sugere que eles bebam o veneno e morram juntos. Porém, enquanto o tio bebe a substância, ela apenas finge tomá-la. Tio Raul morre chamando por Judite, anunciando aos quatro ventos que, “a morte é o grande obstáculo à submissão de Eros à ordem. O fato bruto da morte nega definitivamente a realidade de uma existência não-repressiva, porque a morte é a negação, final do tempo, enquanto o prazer exige a eternidade” (MARCUSE, 1969, p. 37).

Glorinha vive. Entretanto, Rodrigues prefere, entre irônico e sádico, reservar-lhe outra forma de morte para época na qual vivia. Enquanto o tio agoniza, ela telefona para o bordel de madame Luba confirmando o encontro marcado: “- Pola Negri! Sou eu Pola Negri! Glorinha! Bem obrigada. Olha: eu vou sim, avisa à madame e ao deputado que eu vou. Meu tio… não se opõe… concorda… de forma que está tudo azul. Bye-bye” (RODRIGUES, 1993, p. 824), e desaparece.

Em relação à prostituição, Battaille (2004) nos diz que,

[...] não existe uma prostituta em potencial em cada mulher, mas a prostituição é conseqüência de uma atitude feminina. Na medida de seus atrativos, uma mulher está exposta ao desejo do homem. Com as condições satisfeitas, ela sempre se dá como objeto. A prostituição, por si só, salienta o valor erótico do objeto quando permite o enfeite e o jogo de sedução (BATAILLE, 2004, p. 204).

Historicamente, a mulher é o objeto de erotização e de desejo masculino. Entretanto, pelo cuidado que ela dispensa a seus enfeites, pela preocupação que ela tem com sua beleza, realçada pela roupa que usa, uma mulher se considera ela mesma um objeto, incessantemente oferecido à atenção dos homens (BATAILLE, 2004, p. 203-204). Glorinha tem consciência desse fato, se enfeitando e se confirmando como objeto de desejo erótico: “Eu queria ir à casa de madame Luba e te digo: tomei banho caprichado, perfumei o corpo, me ajeitei toda [...] (RODRIGUES, 1993, p. 794).

As afirmações de Bataille (2004) e a trajetória de Glorinha nos levam a ver que o erotismo é exposto, muitas vezes, como elemento de poder. No texto rodriguiano, o corpo feminino representa a instrumentalização de significação erótica e, por isso, as prostitutas o usam de maneira a seduzir seus parceiros. Contudo, além da imagem de mulher sempre disposta a doar prazer, existe a sensação erótica do convite, da sedução, da procura. Isto nos lembra a cena em que Nair tenta desmascarar Glorinha para madame Luba ao narrar uma farra que participaram no carnaval: “A Glorinha estava com uma fantasia sem alça, em cima da pele! Veio um engraçadinho e, pelas costas, te puxou o fecho ecler até em baixo. Ficou pelada, madame” (RODRIGUES, 1993, p. 786). Neste caso, há um apelo visual na cena e o vocabulário bem construído acaba por transmitir um tom de sensualidade presente em Glorinha que convida, seduz e procura, mas não permite que elas, a cena e a menina, se tornem vulgares.

Para Alberoni (1986), a prostituta é, com seu corpo real, a encarnação da mulher famélica de sexo. Discordamos, entretanto, pois, para nós, Glorinha representa muito mais do que a fome devoradora de sexo. Representa, sim, a mulher rodriguiana manifestando a sua sexualidade, lutando pela sua própria vida, vivendo e atuando numa sociedade falócratica.

Considerações finais

Após esta breve análise, verificamos que a peça Perdoa-me por me traíres, como é próprio do autor, traz personagens com certas características que estão fora dos padrões de moralidade vigente, mas que são inerentes ao ser humano, assim como o erotismo o é. Por isso, afirmarmos que a trajetória de Glorinha, descrita na primeira rubrica como uma colegial, confirma sua posição nesta peça: a de objeto de desejo erótico.

Esta ninfeta rodriguiana que despertou o desejo tanto em seu tio quanto em Dr. Jubileu, mostra-nos um pouco da liberdade concedida, por Rodrigues, às suas personagens femininas. Por este motivo, Perdoa-me por me traíres, quando encenada pela primeira vez, forçara na plateia um pavoroso fluxo de consciência. Afinal, a prostituição, naquela época, era uma ameaça à moral feminina, ao casamento e às normas vigentes, porque, como figura da modernidade, a prostituta passava a ser associada à extrema liberalização dos costumes nas sociedades civilizadas, à desconexão com os vínculos sociais tradicionais e à multiplicidade de novas práticas sexuais (RAGO, 2008).

As prostitutas, várias ninfetas rodriguianas, muitas vezes, visualizadas como mulheres que eram capazes de sentir prazer, mesmo sem amar, ou serem amadas, simbolizavam, assim, a fragmentação do sujeito moderno e a separação radical entre o erótico e o amor.

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Solange Santos Santana mora em Salvador (BA). É graduada em Letras Vernáculas pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), instituição na qual participou do Grupo de pesquisa História do Teatro em Língua Portuguesa: as fontes do teatro de Gil Vicente e o teatro vicentino como fonte do teatro em Língua Portuguesa, sob a coordenação do Prof. Dr. Márcio Ricardo Coelho Muniz (UEFS/UFBA). Guiada pela perspectiva comparatista em literatura e orientada pelo professor supracitado, em 2007 conseguiu a bolsa de pesquisa PIBIC/CNPq, com o projeto intitulado Diálogos entre Gil Vicente e Nelson Rodrigues, renovando-a em 2008 com o projeto A luxúria e o erotismo em Gil Vicente e Nelson Rodrigues.

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