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COMO TOCAR UM DIA-NOITE
(recensão a Caderno, de Adília Lopes. Lisboa: & etc, 2007)
Abisma-me cada vez mais a musicalidade da poesia de Adília Lopes. Ao contrário da tradição lírica consagrada em Portugal, que, salvo exceções, investe na fluidez melódica do verso, Adília pode ser considerada um poeta de harmonias. Sei, através da própria, que ela não gosta de música. Não importa. Adília versifica, em poemas quase sempre curtos, como se sua música se baseasse no acorde, em ataques seguidos de novos ataques – cá estou eu pensando na abertura de Turandot. A de Caderno é o primeiro dos “Dois poemas sobre a minha rua”: “Quando encostam/ ou abrem/ o portão/ do Pátio do Duarte/ na minha rua sossegada/ à tarde/ é como se músicos/ afinassem os instrumentos/ antes do concerto// Nas grades/ pintadas de verde/ do quartel/ a glicínia/ de flores lilases/ encaracola” (p. 7). O poema refere-se diretamente a música, não a uma orquestra em plena execução, mas àqueles sons que tanto fascinam o melômano, a afinação “antes do concerto”. Há, no texto, uma espécie de música anterior, efetivamente “antes do concerto”, ou seja, antes de que “os instrumentos” se entendam na realização de uma obra. A obra está lá, à espreita, e advirá logo, mas o que o poeta escuta é preliminar, é, além de fascinante, de escuta mais problemática.
Tenho agora nas mãos o problema da harmonia: “antes do concerto” não está exposta harmonia alguma, pois os sons que se produzem não são ainda harmônicos. No entanto, a poética de Adília Lopes versifica como versifica, e induz a duas opções de leitura em voz alta. Os versos podem ser lidos como se perfizessem uma narrativa, e isso de narratividade nesse poeta já foi muito dito por muita gente. Nesse caso, o poema tange um relato, uma espécie de prosa, vocábulo que não sabe estranho a Adília, interessadíssima no prosaico. Os versos, por outro lado, podem ser lidos como versos, sem enjambement, o que constrói uns blocos de sentidos bastante estranhos pois inconclusos. Acorde após acorde, talvez, seja uma maneira intermédia de esses poemas serem lidos, e a sequência harmônica se estabelece. Poesia é, em grande medida, som, e daí advêm as possibilidade de sentido. Os acordes sem acordes do “portão/ do Pátio do Duarte” exigem os acordes em versos do poema, e solicitam que a “rua sossegada” ganhe ouvidos atentos e pena capaz de acordar um locus só potencialmente acordado antes da escritura.
Não são todos os que podem brincar de Pã ou Orfeu no Largo Dª Estefânia: “Entre espelhos e bruaá/ passo a tarde/ num café de Lisboa/ que se chama Tarantela” (p. 12). Ouçamos o “bruaá”: que dele advém? A tarde está sendo passada num rigoroso presente (“passo”), ainda é “tarde” (afternoon, não late), o Tarantela existe. “Nas grades/ pintadas de verde/ do quartel/ a glicínia/ de flores lilases/ encaracola”. No “café”, na “rua sossegada” bem próxima ao café, algo acontece no mundo, e a pena desse poeta interessadíssimo no prosaico vira flauta, lira, “encaracola” e é capaz duma curiosa redondilha menor, “antes do concerto”. Alguma harmonia, pois, e fortemente heraclitana: “A vida/ é luta/ e eu gosto/ assim// Só da luta/ da noite/ com o dia/ nasce/ o dia// Só da luta/ do dia/ com a noite/ nasce a noite” (p. 9), e do confronto entre os contrários, disse o pré-socrático, é que a harmonia pode surgir. Heráclito e gosto, “gosto assim”, já que “gosto” da necessidade; “gosto assim”, pois gosto a necessidade, saboreio-a, desfruto-a, localizo-me neste mundo onde as coisas são “assim”, afirmáveis pelo verbo ser: “A vida/ é luta”. Mas o verbo ser não constrange um devir cuja configuração pode até mesmo ser o eterno retorno, pois a “luta/ da noite/ com o dia” dá-se sempre, e a “luta/ do dia/ com a noite/ nasce” diariamente. E diariamente também o devir-orquestra do “portão/ do Pátio do Duarte”. E diariamente o “Tarantela” ao alcance de uma breve caminhada.
Do “dia” à “noite”, da “noite” ao “dia”: dia-noite: “Dia/ sem poesia/ não é dia/ é noite escura// Mas a poesia/ é noite escura” (p. 13). A filosofia não dará conta duma poética tão musical, tão buscadora do próximo movimento, capaz de resolver um problema sem resolvê-lo, fundando uma aporia em cores e em branco e negro. A poesia é o branco do dia (“O céu/ sobre Lisboa/ de tão azul/ é branco” (p. 25)), a poesia é criação colorida (“A cerejeira está em flor/ à porta dos Botelhos// A casa dos Botelhos/ é amarela” (p. 14)), mas “a poesia/ é noite escura”: quem quiser encontrar respostas em poemas, decerto se frustrará. Mas quem quiser meter-se num dever-devir (necessidade heraclitana mais transformação), por certo terá um lugar muito claro e obscuro, cujo entendimento abraça a impossibilidade de entendimento. A poesia de Adília Lopes, em verdade, não é interessadíssima no prosaico, mas sim na compreensão que pode resgatar diante de muitos e diversos fenômenos – é claro que digo compreensão como ato de trazer para dentro. Portas, por exemplo: “Há portas/ que é melhor/ fechar/ para sempre// Há portas/ que é melhor/ não abrir nunca” (p. 18). Não é numa solidamente frágil psicanálise de bolso que o poema se instaura, mas na incerteza mesma acerca do lugar do sujeito diante das “portas”.
Recorro a Bergman: dentro de certo armário fechado, uma lanterna bem manejada insinua que o menino tornar-se-á artista. Portanto, é possível estar dentro das “portas” fechadas “para sempre”. Claro que é possível estar fora das portas e “não” as “abrir nunca”. Mas “Quando encostam/ ou abrem/ o portão/ do Pátio do Duarte/ na minha rua sossegada/ à tarde/ é como se músicos/ afinassem os instrumentos/ antes do concerto”. Haveria alguma possibilidade de as “portas” serem como “o portão/ do Pátio do Duarte” e fazerem sons? Tendo nas mãos o problema da harmonia, não me permite Adília ver em sua obra uma harmonização do mundo, seja isso o Largo Dª Estefânia, um armário ou a “casa dos Botelhos”. Mas a obra faz sua música, executa seus acordes, e é patente que se forma alguma sequência harmônica, com algumas cores, com todas as cores – o branco –, e com a ausência de cores – o negro, a obscuridade. Indo e vindo, Caderno guarda uma das várias referências adilianas a Mariana Alcoforado: “Quando partires/ se partires/ terei saudades/ e quando ficares/ se ficares/ terei saudades// Terei/ sempre saudades/ e gosto assim” (p. 15), num poema intitulado “Mariana e Chamilly”. Há prazer, mais de um, nesse livro. Há também variadas atualizações, e “saudades” até das “saudades”. Não é tolo um poeta que diz “gosto assim” duas vezes no mesmo livro. Não é tolo um poeta que vai e vem e sobe e desce: “Degrau a degrau/ verso a verso/ o poema/ a escada” (p. 24). Adília Lopes, nesta altura de sua trajetória, fica claro que já sabe experienciar anábases e catábases, por vezes simultaneamente: sobe o “poema”? Sobe o poema. Desce o “poema”? Desce o poema, e conhece bastante bem recônditos onde é belo acender uma lanterna e fazer ficção.
“Há mar/ salgado// Há ondas/ barulhentas” (p. 28) “e eu gosto/ assim”, pois o sal se prova, não é apenas choro que vale a pena, e as “ondas” se escutam, não são apenas metáforas: de novo uma escuta se revela mais problemática. Se Adília, musicista, é fazedora, ao final de Caderno, de um “Círculo de poesia”, que se ressalte a “espiral” no poema, pois essa ars poetica surpreendente pode ser muitas coisas: “É um tapete/ é um olho/ é o Sol/ é um caracol/ é um espelho/ é uma espiral/ é um alvo/ é um ovo/ é uma maminha/ é uma aranha” (p. 29). Adília poderia gostar ao menos de ópera, já que ali não se conversa, canta-se. Mesmo que o poeta não cante melodiosamente, seu real rechaça prosaísmos, pois executa uns dias-noites deveras espantosos. Nesse real, faz mais sentido conversar em música que trocar meia dúzia de palavras banais. Esse real, além disso, exige uma batuta poderosa, apta a absorver transfiguradamente o “bruaá”, “o portão/ do Pátio do Duarte” e escurecer, colorindo, “portas” e mais “portas”. Faço minhas as palavras do poeta: “e eu gosto/ assim”. O que não difere tanto de dar boas vindas a um mundo realmente interessante.
Luis Maffei é poeta e professor de Literatura Portuguesa da Universidade Federal Fluminense.
