os diálogos entre brasil e canadá: seis perguntas para neil bresner


Crítico, editor, revisor e tradutor, Neil Besner nasceu em Montreal, Quebec, em 1949, e reside hoje em Winnipeg, Manitoba. Neil completou o bacharelado em artes na McGill University, o mestrado em artes na University of Regina e o doutorado na University of British Columbia. Sua carreira tem sido majoritariamente dedicada à academia. Lecionou na University of Regina, na University of British Columbia, na Mount Royal College, na McGill University e na University of Winnipeg, onde ocupa hoje o cargo de Deputy Provost e Associate Vice-President (International). Sempre interessado pela literatura brasileira, Neil é um dos responsáveis pelas interessantes conexões da University of Winnipeg com as faculdades de nosso país.

Entrevista concedida a Camila Mello. [1]

Neil, como você percebe a difusão e a recepção da literatura canadense no mundo hoje? E o que você acha que motiva esse tipo de recepção?

Nos últimos vinte e cinco anos, a literatura canadense tem tido um impacto forte fora do Canadá, por vários motivos. Primeiro, a circulação das obras literárias pelo mundo, assim como de escritores, leitores, enfim, da “audiência literária”. Tudo isso tem se tornado muito mais fácil e efetivo via novas tecnologias. Segundo, enquanto o mundo de hoje fala inglês, também tem desviado sua atenção da Inglaterra e dos EUA — outrora as principais origens da literatura de língua inglesa — para se direcionar a ex-colônias inglesas e americanas, como o Canadá. Isto é um movimento político, cultural, econômico e global, motivado por vários aspectos que nós todos, ingleses ou não, entendemos bem. Em terceiro lugar, e mais importante, a literatura canadense explodiu no mundo por causa dos escritores — romancistas, poetas, dramaturgos — que surgiram recentemente no Canadá. (Para mim, uma analogia útil é a da relação entre a literatura da Irlanda e a literatura da Inglaterra no século XX). E, claro, a obra de tradutores ajudou muito também. No aeroporto do Rio, semana passada, vi uma tradução do romance que Michael Ondaatje escreveu em 1976, Coming Through Slaughter, feita por Paulo Henriques Britto. Nomes como Margaret Atwood, Ondaatje, Carol Shields, Alice Munro, Elizabeth Bishop, Tomson Highway, Robertson Davies, Joseph Boyden, Guy Vanderhaeghe etc. são bem conhecidos no exterior. Finalmente, organizações como a ABECAN, no Brasil; os núcleos de estudos canadenses, como a nova unidade inaugurada na USP recentemente, simpósios; os convênios entre instituições estrangeiras e canadenses (minha universidade, por exemplo, continua com quatro convênios com universidades brasileiras — a UERJ, a USP, a UNESP e a UFSC); e os muitos professores no exterior que ensinam e escrevem sobre obras canadenses, tudo isso ajuda na divulgação das nossas obras literárias.

Por fim, eu acho que a posição do Canadá no mundo mudou. Durante anos, era comum dizer que the twentieth century belongs to Canadá; eu acho que, possivelmente, é o século XXI que lhe pertence.

De que maneira a percepção que o mundo tem da literatura canadense difere e complementa a percepção que os próprios canadenses têm de sua produção literária?

Esta é uma pergunta bastante interessante. Do meu ponto de vista, a literatura canadense às vezes é mais elogiada fora do Canadá do que dentro do país. Por quê? Certo, nós todos temos os órgãos de difusão, e leitores também; e, além disso, há muitos cursos e programas sobre literatura canadense nas nossas universidades. Porém, talvez ainda exista em nós o chamado cultural cringe: antes de nós mesmos percebermos o valor de nossa produção cultural, queremos que ela seja avaliada e aprovada pelas ex-“autoridades” americanas e inglesas. Esta atitude colonial está quase morta, mas ainda persiste, eu acho. Há canadenses que ainda acham que não somos capazes de produzir uma literatura tão forte e tão bem recebida fora do país. Isto é uma espécie de falta de confiança que está diminuindo e que vai desaparecer na próxima década, seguramente.

Como a literatura brasileira é recebida no Canadá hoje?

Triste pergunta. Sim, há alguns escritores brasileiros conhecidos no Canadá (infelizmente, o mais conhecido é o Paulo Coelho), mas a literatura do Brasil até hoje não teve grande recepção no meu país. A culpa é nossa. Nos meus cursos de literatura em tradução, cheguei a trabalhar com obras como Dom Casmurro, ou com os contos da Clarice Lispector — ambos muito bem recebidos —, mas a verdade é que no Canadá não conhecemos bem a literatura (e, aliás, nem a cultura) brasileira. A perda é nossa.

Na University of Winnipeg, você desempenha um papel importante, que é o da procura de estrangeiros que tenham interesse e que possam se adequar à vida acadêmica da instituição. Por que a Universidade de Winnipeg e o Canadá, em geral, vêm mostrando tanto interesse em receber estrangeiros, principalmente no meio acadêmico e no mercado de trabalho?

O Canadá é um país do tamanho do Brasil, mas com uma população que não chega a um sexto da brasileira. Nós precisamos de gente! Gente com talento, iniciativa, educação e energia para ajudar-nos a desenvolver este país com tantas riquezas e possibilidades. Este é o motivo da nossa busca por alunos e do nosso interesse em inserir os estrangeiros no mercado. E por isso também governo tem criado várias iniciativas para encorajar estudantes e imigrantes em geral.

Como os estudantes e os professores canadenses têm visto estes imigrantes?

A maioria dos acadêmicos canadenses mostra-se muito satisfeita com a vinda de imigrantes. Isto nos ajuda muito a entrar num diálogo global pelo qual todos têm interesse em participar.

Você freqüentemente visita algumas universidades brasileiras. Como você compararia o meio acadêmico do Canadá com o do Brasil?

Eu não vou dar palpites neste assunto porque não tenho familiaridade suficiente com as universidades brasileiras. Posso afirmar que, em todas as que eu conheço – entre elas a UERJ, USP, UNESP, UFMG, UFSC –, sempre fui muito bem recebido. E posso afirmar também que, por parte de todos os muitos acadêmicos – alunos, professores e administradores – que conheço no Brasil, há um interesse forte, persistente e autêntico acerca dos assuntos canadenses. Ainda assim, me sinto mal preparado para encarar este assunto. Basta dizer que gosto muito do diálogo que tenho travado, nestes últimos dez anos, com meus amigos na academia brasileira. Espero que isso dure por mais uma década ou duas.

NOTA

[1] Camila Mello é mestre em Literaturas de Língua Inglesa pela UERJ e doutoranda em Literatura Comparada pela mesma instituição. Sua pesquisa gira em torno da literatura gótica no Brasil, no Canadá e na Inglaterra, recebendo co-orientação do professor Neil Besner.

Jump to the top of this page