o mergulho no desconhecido – claudio duffrayer
Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei.
– Clarice Lispector
Apresentação
O propósito deste ensaio é refletir, em um primeiro movimento, sobre as diversas metamorfoses e suas expressões nos clássicos Lavoura arcaica, de Raduan Nassar, e A paixão segundo GH, de Clarice Lispector, respectivamente. As diversas transformações psíquicas surgem através das metamorfoses sofridas por personagens distintas (a exemplo de André, na obra de Nassar, e GH, em Clarice) e suas respectivas jornadas, bem como os distintos graus de sucesso dessas jornadas considerando-se suas razões e suas consequências. Em um segundo movimento, pretenderemos um cotejo entre as personagens acima mencionadas e a figura histórica de Pedro Abelardo, filósofo medieval cuja castração (e inevitável sublimação do desejo) permitiu que suas idéias alcançassem outro nível.
O próprio Abelardo diz que, após a punição física que lhe fora imposta, passou a ser “Filósofo de Deus”, sofrendo, portanto, uma metamorfose que possibilitou a sublimação de seu desejo, dando-lhe acesso a um mundo novo livre das demandas da carne e do pecado. Pecado vem a ser uma das palavras-chave no romance de Nassar, pois seu protagonista, André, vê-se justamente preso por um desejo pela própria irmã. Consumado o incesto, ele rasga a crisálida que o sufocava (o afeto materno e o jugo paterno) e abandona a família, o lar, enfim, tudo o que para ele representava grilhões, amarras e mordaças. O retorno ao seio da família gera mudanças fatais em sua própria estrutura.
Melhor sucedida que ambos, GH busca em seu íntimo, com mais ousadia que André e mais coragem que Abelardo, as formas a serem tomadas e os passos a serem seguidos. GH não somente prova da essência viscosa da barata, mas antes se identifica com ela, superando o medo ancestral e adentrando a “gruta” guardada pelo inseto. Sim, a jornada de GH tem início em seu próprio quarto, onde a porta do armário nada mais é do que o portão do submundo enraizado em seu íntimo, no qual ela não hesita em mergulhar para descobrir a si mesma.
Paixão e Gnose
Nascido em 1935, Raduan Nassar, filho de imigrantes libaneses, publica, em 1975, Lavoura arcaica. O romance tem sido reconhecido como um momento de verdadeira epifania na literatura brasileira, e sua história foi sempre comparada à parábola do filho pródigo. Lavoura arcaica é isso e muito mais, contando a história de André, filho de uma tradicional família mediterrânea, que foge de casa (as razões descobrimos ao longo da narrativa) e é trazido de volta pelo irmão mais velho.
A jornada de André é a eterna busca do ser, pelo ser e ATRAVÉS do ser. É a jornada em direção a imanência, como é o relato de GH, “o sofrido resultado das indagações pessoais de Clarice na direção da imanência.”. [1] É também a jornada do herói trágico. O protagonista de LA é aquele que tem os pés tortos, é aquele que voa em direção ao sol apesar dos avisos do pai, e sofre irremediavelmente quando o calor derrete a cera que prende suas asas aos seus braços, fazendo-o afundar na turvas águas de seu próprio íntimo.
O leitor moderno há de pensar no incesto que caracteriza tanto a história de Édipo quanto o romance de Nassar como o fator que determina a proximidade entre os dois personagens, assim como a revolta contra o sufocante jugo paterno seria o denominador comum entre André e o Ícaro clássico. É, porém, uma conclusão precipitada. O que aproxima todos esses personagens é algo mais do que um evento carnal e toda a calamidade que o segue, ou mesmo um simples ato de rebeldia. O que os torna tão parecidos é algo que cada um deles carrega dentro de si, algo mais do que um anseio; uma “fome”, um “apetite perverso”, seja uma necessidade de resolver enigmas (mesmo que a resposta termine por trazer resultados fatais), seja uma impetuosidade nata. Algo que os separa de seus pares e inevitavelmente causa sua queda.
Embora a busca o leve para longe do seio familiar, ela paradoxalmente começa dentro de casa. Ao irmão mais velho incumbido de trazê-lo de volta, no quarto de pensão onde se refugiara, André confessa:
era preciso conhecer o corpo da família inteira, ter nas mãos as toalhas higiênicas cobertas de um pó vermelho como se fossem as toalhas de um assassino, conhecer os humores todos da família mofando com o cheiro avinagrado e podre de varizes nas paredes frias de um cesto de roupa suja. (…) Ninguém ouviu melhor em casa, Pedro, ninguém amou mais, ninguém conheceu melhor o caminho da nossa união (…) (LA, p. 45)
Ali começa o movimento de imanência, onde ele só vem a confirmar o isolamento de seus “semelhantes”. Não há, a seu ver, qualquer identificação entre ele e sua família.
Ele também se poupa, a princípio, de tentar explicar suas razões. Em suas palavras:
Eu poderia dizer ‘a desunião de nossa família começou muito mais cedo do que você pensa, foi no tempo em que a FÉ me crescia VIRULENTA na infância e em que eu era o mais FERVOROSO do que qualquer um em casa’; eu poderia dizer com segurança, mas não era hora de especular sobre os serviços obscuros da fé. (LA, p. 26, grifos meus)
São estas as palavras que ajudam a compreendê-lo, é esse o paradoxo que o destrói. A mesma fé que o sustentava como um quase-querubim torna-se a luz que o cega, pois a fonte desta fé é justamente uma sensibilidade desmedida, uma sede, uma cólera, uma paixão. Algo a ser evitado, segundo os ensinamentos do pai. Seus sermões são claros: “Cuidem-se os apaixonados, afastando dos olhos a poeira ruiva que lhes turva a vista, arrancando dos ouvidos os escaravelhos que provocam turbilhões confusos (…)”; e “ai daquele que brinca com fogo, terá as mãos cheias de cinzas, (…) ai daquele que queima a garganta com tanto grito, será ouvido por seus gemidos (…)” (LA, p. 57-58)
Desvirtuada quando o menino torna-se homem, a sensibilidade desmedida (ou seja, a Paixão), antes fonte de fé, passa a ser fonte de tormento, um sofrer desmedido. É quando ele percebe-se uma ovelha negra, um torto, um possesso e acometido. De sua Fé/Paixão (ambas interligadas) passam a vir os escaravelhos que o tentam, sussurrando em seus ouvidos, assim como a poeira ruiva que lhe turva os olhos e ele se recusa a lavar, preferindo “cultuar o obsceno”, seguir seus instintos (tortos ou não), talvez percebendo com imensa sabedoria que sua cólera não teria lugar no seio familiar. Em oposição à paciência pregada pelo pai, ele defende os direitos da impaciência; aos sussurros contidos e comedidos ele propõe berros tresloucados; à virtude da pureza e da sabedoria, a entrega total e irrevogável aos vícios.
Frente ao irmão, ele se admite um convulso, infecto:
Eu sou um epiléptico, um epiléptico! Você tem um irmão epiléptico, fique sabendo! Volte agora (…) e faça essa revelação, e que nossas irmãs de temperamento mediterrâneo e vestidas de negro hão de correr esvoaçantes pela casa em luto e será um coro de uivos, soluços e suspiros (…) e você ouvirá o coro sombrio e rouco que fará “traz o demônio no corpo! (…) Traz o demônio no corpo!”
Já disse Fitzgerald que
a vida é, toda ela, um processo de derrocada (…) Há uma outra espécie de golpes que vem de dentro, que só sentimos quando já é muito tarde para fazermos alguma coisa,quando acabamos por perceber que nunca mais seremos aquilo que fomos. (1969)
Suas palavras são importantes porque ele define muito bem o processo pelo qual passa o personagem de Nassar, pois é exatamente uma derrocada que André sofre, transfigurada no sentimento proibido pela irmã. Todo seu desejo, a repulsa pelos mandamentos, a reivindicação ao direito à impaciência deságuam na figura de Ana.
“Era Ana, Pedro. Era Ana a minha fome (…). Era Ana minha enfermidade, ela a minha loucura, ela o meu respiro, a minha lâmina, meu arrepio, meu sopro, o assédio impertinente dos meus testículos.” (LA, p. 109) Desnecessário dizer que coincide o amor pela irmã com a descoberta da própria sexualidade. O que importa para este artigo é o momento final da perda da inocência, quando ele se dá conta de que não há mais volta. Recusando-se a sufocar na prisão em que se tornara sua casa, o seio familiar, André comete o delito máximo, o pecado supremo, e quebra as correntes que lá o prendiam. Ou seja, através do (não tão) súbito despertar da paixão – que vai muito além da sexualidade –, André torna-se cônscio de si mesmo. A tão desejada metamorfose, o romper da crisálide, é detalhadamente descrito:
“ela estava lá, não longe de casa (…) assustadiça no recuo depois de ousado avanço (…), branco, branco, branco, o rosto branco e eu me lembrei das pombas, das pombas da minha infância (…) e eu espreitava e aguardava, porque existe o tempo de aguardar e o tempo de ser ágil. Ela estava agora diante de mim,branco,branco,o rosto branco filtrando as cores antigas de emoções tão diferentes.
Assim, cada passo, cada movimento em direção à irmã e à pomba, nada mais é do que um passo em direção ao seu próprio centro, seu próprio núcleo — em uma busca por si mesmo. Ana é, para André, menos um farol cuja luz o guia em meio a águas revoltosas do que o próprio oceano. André, a princípio, não se afoga, apenas mergulha mais fundo, buscando, mesmo sem saber, seus próprios traços. Ele não é mais introspectivo que o necessário, nem poderia ser. É o que torna sua viagem tão semelhante à viagem de Ícaro.
Ao continuar a guiar-se (mesmo alquebrado) por sua paixão, ao continuar tão resignadamente a entregar-se aos seus “instintos”, sua fome, sede e cólera, André cai dos céus (como o filho de Dedalus) a que fora elevado em menino, somente para afundar no próprio abismo, onde aguardam não sereias de melodiosas vozes, mas todo seu desespero transfigurado na figura da irmã, o amor proibido, gruta, porta e umbral por onde ele vem a ter a chance de conhecer a si mesmo. Pomba branca que ele captura com destreza de menino e devora com apetite de homem.
Enfim, consumada a ruptura com a tradição que ele tanto despreza, cometido o ato de suprema iconoclastia, ele vai embora, mas sua jornada não termina aí. O processo de autoconhecimento somente se inicia nesse instante, e fatalmente o protagonista de LA percebe que não há lugar para ele no mundo além da fazenda, e que mesmo reivindicando para si a irmã como esposa, mesmo traindo sua própria metamorfose, ele continuará desterrado.
Hilflösichkeit
A obra de Nassar não é o único momento epifânico da literatura brasileira contemporânea. Também caracterizada por uma narrativa ao mesmo tempo lírica e questionadora, bem como por personagens extremamente introspectivos, Clarice Lispector publica, em 1964, A Paixão segundo GH. O romance, como LA, versa sobre as angústias do ser quando ele questiona a si mesmo e ao seu papel no ambiente que o cerca. As questões levantadas por GH, personagem principal do romance, são de cunho ontológico, como costuma ser a narrativa de Lispector, e se a palavra “Paixão” no romance é usada no sentido bíblico (a Paixão segundo são Mateus, por exemplo), são demais as convergências entre GH e André para que seja ignorado um cotejo.
Se André sofre uma “fissura”, uma derrocada graças a esmagadora sensibilidade que o separa de seus pares, tornando quase insuportável o peso em seu íntimo e levando-o a tornar-se um fugitivo da família opressora, GH não tem para onde fugir, pois a fonte de seu sofrimento não pode ser “transferida” para algo externo, ela não pode impô-la como uma máscara a quem quer (ou o que quer) que a rodeie, como André faz com Ana. A irmã nada mais é do que um instrumento de escape, uma forma que a “virulência” tem de se manifestar de maneira menos efêmera do que uma fé religiosa. Ana é mais o meio do que o fim. GH não goza deste luxo.
O evento que dá início à sua jornada, no entanto, nem por isso é menos traumático. GH se vê sozinha em seu apartamento, e nada muda a sua rotina, a não ser essa solidão (a empregada a deixara alguns dias antes. Talvez para aliviar-se dessa sensação de isolamento, ela se dirige ao quarto deixado vazio, encontrando não preciosas relíquias de seu passado, mas uma organização inesperada: a empregada, antes de partir, arrumara o quarto à sua própria maneira.
Tudo o que se passa dentro da personagem (a sensação de não habitar aquele lar mais do que a pessoa que partira, o desamparo ao perceber-se privada – sem saber exatamente por que – de seu “ritual”: organizar o quarto à SUA maneira) é um mero prelúdio para o encontro que desencadeará todo o possesso de busca, perda e ganho pelo qual ela passará.
Antes de tudo, no entanto, é preciso ponderar sobre o estado emocional em que GH se encontra. Talvez a melhor palavra para defini-lo seja aquela usada por Freud: hilflösichkeit. No seu estudo “Pânico e desamparo”, Mário Eduardo Costa Pereira prefere traduzir o termo como “desamparo”, acreditando que assim aproxima-se mais do termo em alemão (que significaria mais do que um simples desamparo do infante em relação ao seu ambiente, na verdade). Seria impossível dissertar sobre os inúmeros significados e implicações dessa palavra para a psicanálise por evidentes questões de espaço, e por isso preferi lembrar tão somente que, no caso específico do romance do qual trato, há uma outra palavra que talvez possa traduzir o termo freudiano com eficácia: angústia. O que assola a personagem de Clarice é algo mais do que pânico ou desamparo/desespero, mais do que o medo sofrido pela psique prestes a desmoronar frente a algum abismo metafísico. É algo que na verdade não pode ser definido por uma palavra (como admite a própria personagem). Porém, ainda assim as implicações desse termo são de vital importância, bem como a reação da protagonista.
No apartamento, a situação de GH assemelha-se à de um recém nascido. Para compensar seu desamparo frente a uma situação que ela está longe de compreender, apela à mão imaginária do leitor, o que faz inúmeras vezes ao longo do romance : “Dá-me tua mão.” Assim, o relato todo ganha um tom confessional, assemelhando-se ao relato de André.
O processo de desrealização tem início quando ela se sente “refletida” no desenho que Jandira (a empregada) fizera. “Na parede caiada (…) estava quase em tamanho natural o contorno a carvão de um homem nu, uma mulher nua, e de um cão que era mais nu do que um cão.” Ela percebe que a mulher era uma espécie de caricatura sua. Continua então a se mover pelo quarto e, quando abre a porta do armário, encontra-se com o inseto. E é esse o passo derradeiro de sua narrativa. A barata é o outro absoluto, definitivo – não é sequer um animal que compartilha do sangue quente do homem, mas sim algo distante e hediondo, com o qual GH não quer (nem deve) se envolver.
O encontro com o inseto no romance de Lispector nada mais é do que um exercício de alteridade sofrido pelo sujeito, e esse sujeito é, a um só tempo, tanto GH quanto a própria barata. E este exercício só é possível graças à empatia entre ambos. A protagonista enxerga o inseto e ao mesmo tempo sente-se por ele enxergada. A desesperada tentativa de matar a barata tem o efeito catastrófico de um autoassassinato na psiquê de GH. Ela, traumatizada, pergunta-se: “Que fizera eu? (…) Que fizera EU de MIM? (…) Que matara eu?” (p. 36, grifos meus), percebendo-se semelhante ao inseto, ou melhor, identificando-se com ele. GH constata que, após o golpe, o intruso continuava vivo (“viva e olhando para mim” [p. 36]). A personagem de Lispector, ao realizar o cuidadoso escrutínio de sua pretensa vítima, percebe-se refletida naqueles olhos. Ela vê e enxerga a barata, sentindo-se por ela vista e enxergada. Assim, este encontro serve de ponto de partida para que a personagem torne-se cônscia de seu “eu”, através de sua antítese. O ato de matar, ou tentar matar, bem como o ato de provar da essência “imunda” do inseto, ganha um significado quase bíblico. É como se GH provasse do fruto proibido, conseqüentemente sentindo sua própria nudez, sua própria existência como ser vivente. Portanto, toda a jornada de GH é uma busca de si mesma, por si mesma. Como a jornada de André.
Os travessões que seguem a fracassada tentativa de matar a barata não devem ser confundidos com os já clássicos travessões que iniciam e encerram o texto. Eles não representam um suposto isolamento em relação ao mundo exterior, mas sim um traumático “entrar no mundo” (p. 42), no próprio mundo, em sua esfera íntima, bem como a impossibilidade de expressar esse “eu ser” (p. 42). Em suas próprias palavras: “Eu chegara ao nada, e o nada era VIVO e ÚMIDO.” (p. 41, grifos meus)
E da mesma forma que o personagem de Nassar prostra-se sobre a pomba, GH se debruça sobre a barata, em uma série de movimentos quase idêntica aos movimentos de André. A mesma sensibilidade para com o outro, o mesmo fascínio, o mesmo romper com uma estrutura opressora através de uma transgressão hedionda e imperdoável, tocando o que não deve ser tocado, possuindo o que não deve ser possuído.
Assim, iniciado o processo de desrealização, começa o processo de desumanização. “É que eu olhara a barata viva e nela descobria a identidade de minha vida mais profunda. Em derrocada difícil, abriam-se dentro de mim passagens duras e estreitas.” (p. 38) A jornada rumo a imanência começa aqui, quando em um sentido não kafkiano a personagem de Lispector metamorfoseia-se no inseto, ao mesmo tempo em que o inseto se humaniza. Ela se descobre única ao perceber sua antítese, um outro inimaginado. Um veículo tanto para sua angústia como para a superação/sublimação desta angústia. GH suja suas mãos, como suja a si mesma para alcançar algo além de si, além de sua sensibilidade, através dessa mesma sensibilidade.
Se André se aproxima de Ícaro em sua devota entrega ao obsceno e à impaciência, GH também nos lembra um outro herói clássico: Sísifo. A pedra que ele tão resolutamente carrega é aquela que GH deixa cair. Aquela que aparentemente (só aparentemente) provoca o inexorável conflito entre ser e não ser.
Curiosamente, ela não continua a caminhar e subir a montanha quando o peso parece não estar mais sobre seus ombros. Ao contrário, ela se afunda lentamente no lodaçal que é sua própria psique. O peso não é a causa da angústia, mas sim o porquê de carregá-lo. Por isso a jornada de GH é muito mais do que uma mera decida a qualquer inferno; é um mergulho em seu próprio âmago. E afundar nesse lodo de onde todos viemos não é um ato de fuga ou de perdição. Ao contrário de André, ela não chega a ser escrava de seus instintos. Nem espera que tudo a eles se adeque. E ela quer mais do que entender: GH saboreia (e sente) cada camada que a leva mais ao fundo, cada palmo que a afasta da superfície… sem medo.
Só então ela pode ressurgir e, novamente carregar a pedra. Novamente subir a montanha, em uma nova forma. GH (Gênero Humano?) suja, de fato, a si mesma. Como faz André. Ambos partem em busca de uma nova forma, não mais opressora, mas capaz de acolher (ao invés de simplesmente suportar) quem e o que são.
Eles não se perdem no labirinto, nem são devorados pelo minotauro; e tampouco chegam a combatê-lo ou matá-lo. Eles saem do labirinto como saem Dedalus e Ícaro; não guiados por algum fio, mas por seus próprios instintos e sensibilidade. E os resultados dessa jornada, como veremos, são distintos.
Sublimação e Transcendência
Pedro Abelardo, o filósofo medieval que causou tanta polêmica no século XII, é o último objeto de análise deste ensaio. O livro Correspondências de Abelardo e Heloísa, apresentado por Paul Zumthor, inclui a correspondência (fictícia) que ele teria trocado com um amigo de identidade ignorada, onde conta seus infortúnios (sua autobiografia — a História Calamitatum) e as cartas trocadas entre ele e Heloísa.
Nascido em Le Pallet, próximo a Nantes, na Bretanha, em 1079 (aproximadamente), e iniciado nos estudos das chamadas “artes liberais” pelo pai (um cavaleiro que tinha amor pelas letras), Abelardo logo se mostrou mais do que talentoso para a dialética (sua preferida entre as disciplinas filosóficas), chegando a Paris, “onde a dialética florescia, em especial junto a Guillaume de Champeaux, legitimamente considerado meu mestre nesse gênero de ensinamento”, segundo o próprio (HH, p. 30).
A história de Abelardo não é só a série de clichês que se espera da biografia de qualquer gênio (apresentando a ruptura com seu mestre, a acusação de heresia, a relegação ao ostracismo e a eventual “redenção” através do reconhecimento de sua genialidade). O importante, o vital para este ensaio, é o padrão que segue sua história: Abelardo, desde cedo, revela-se como um indivíduo à parte, chegando a negligenciar uma carreira militar (o caminho óbvio para um primogênito), as glórias materiais e afins, preferindo a escolástica, “o seio de minerva” (HH, p. 30), o que não acontece por um comedimento — um desapego a coisas mundanas, como a fama e o orgulho — e uma humildade inatos. Muito pelo contrário.
Abelardo é, também, um apaixonado. Tal qual André. Tal qual GH. Uma vez estabelecido como o aluno que superara o mestre, essa paixão se revela, a princípio, como orgulho. Em suas próprias palavras: “Acreditei ser então o único filósofo sobre a terra: nenhum ataque me parecia digno de temor.” (p. 38) A esse apogeu (mesmo jovem, mesmo sem o título que o permitiria ministrar suas aulas como professor, ele o fazia com imenso sucesso) segue-se justamente o contato com o umbral que inevitavelmente possibilita sua queda: Heloísa.
Sobrinha de “um certo cônego Fulbert” (p. 39), que contratara o jovem filósofo para educá-la, a bela Heloísa imediatamente faz despertar em Abelardo todo o amor que ele nunca chegara de fato a sentir até então (no sentido ovidiano do termo). Se Ana é a “perdição de André”, certamente Heloísa seria a de Abelardo.
Como já vimos, André sofre, exatamente como Abelardo. O que permite a esse filósofo medieval ultrapassar as barreiras que o cercam, ao contrário dos seus pares, é exatamente esse sofrer, essa paixão, essa virulência. Ambos carregam dentro de si uma força que mal conseguem conter, seguindo seu curso como um rio a desaguar no oceano. No caso de Abelardo, esse oceano é a escolástica, a filosofia, o amor pelo saber. Amor de fato, e, como não poderia deixar de ser, esse amor cobra seu preço.
Todo o amor sentido por Heloísa nada mais é do que sua “virulência” tomando uma nova forma, rompendo a crisálide que a cercava. A Fé de Abelardo (tão semelhante à de André, como não poderia deixar de ser) é uma faca de dois gumes, pois está fundamentada em uma sensibilidade desmedida que ele sempre apresentou. Suas palestras, ministradas com base em inspiração mais do que em qualquer outra coisa, seu talento indomado, seu ego (ao qual ele próprio dá rédeas), sua inconsequência: todos são sinais do quão passional ele realmente é, e quando o desejo surge, desviado inevitavelmente para as paixões carnais, ele encontra-se indefeso.
Em seu famoso ensaio “Personas sexuais”, Camille Paglia afirma que
o que o Ocidente reprime em sua visão da natureza é o ctônio, que significa “da terra” – mas das entranhas da terra, não da superfície. (…) São as realidades crônicas de que foge Apolo, o triturar cego da FORÇA SUBTERRÂNEA, o longo e lento sugar, a treva e a lama. (PS, p. 17, grifos meus)
Talvez não haja termo mais adequado para determinar a força à qual Abelardo se encontra subjugado. Se a treva, o triturar cego e a força subterrânea são o que guardam as entranhas da terra, certamente o mesmo pode ser dito do íntimo do poeta, talvez até com mais precisão. E se é da treva, da força subterrânea de que foge Apolo, é certamente essa mesma força que consome Abelardo, encontrando enfim uma forma de vir à tona de maneira menos sutil através do amor por Heloisa. E é essa força da qual ele não escapa, mas sublima, elevando-se de um estágio a outro. É essa força que, paradoxalmente, possibilita que o resultado da punição física a ele imposta resulte não em uma negação de seu ser, mas em uma afirmação. E é nessa força que o protagonista do romance de Nassar se afunda.
Portanto, a relação de Abelardo e Heloísa não se trata de uma tempestade que surge subitamente em meio a uma calmaria, é preciso que isso fique claro. Abelardo sofre uma tempestade constante em seu íntimo (mesmo não se dando conta disso), e somente nela mergulhando, através de sua amada, ele pode chegar não a um equilíbrio entre razão e emoção, mas a um nível de autoconhecimento (em um sentido não esotérico) normalmente não atingido por aqueles que não sentem (e sofrem) “em demasia”. O pensar de Abelardo não se encontra distinto de seu sentir, queira ele ou não, saiba ele ou não. Sua jornada, portanto, é também uma jornada pelo ser, através do ser, para o ser. Jornada que tem início em uma transgressão (não por coincidência).
A transgressão, obviamente, é o envolvimento com Heloísa. Fulbert o contratara para ser seu professor, não seu amante. Irado com o envolvimento de Abelardo com sua sobrinha, como seria de se esperar, ele aceita os termos do filósofo: este casar-se-ia com Heloísa (que, por sinal, estava grávida — e Astrolabe, como viria a se chamar a criança, é solenemente ignorado pelo pai). Ela, no entanto, nega o pedido. Em uma série de idas e vindas, subterfúgios, fugas e afins, o tio termina por colocar um final definitivo no que ele acreditara ser uma ofensa à honra da sobrinha (e, por consequência, à sua própria): sedento por vingança, na calada da noite, comprando um empregado e corrompendo outro, fazem-no “sofrer a vingança mais cruel, mais vergonhosa” (HC, p. 50): Abelardo foi, por eles, castrado.
A vergonha inevitavelmente recai sobre ele. Como recai o luto sobre todos que o admiravam. E é exatamente nesse ponto que ele se livra das demandas da carne, sublimando seu desejo. Em suas próprias palavras: “Deixava de ser o filósofo do mundo para me tornar verdadeiramente o filósofo de Deus.”
Ou seja, toda a paixão por ele sentida converte-se em algo mais. Abelardo consegue purificar-se através da castração, mas a paixão, o desejo, o amor por Heloísa não desaparecem, mas transformam-se na Fé ardorosa, não mais virulenta, mas sublime. Livre do desejo, a Fé que o guiava não mais é ofuscada pelo sentir/sofrer. Se Heloísa permitiu que Abelardo se confrontasse com algo que ele desconhecia, a punição física a ele infligida permitiu que ele transcendesse essa paixão, a virulência (o sentir, o sofrer) que o assolava, purificando-a.
Abelardo só tornou-se cônscio do que carregava dentro de si através de Heloísa (“Eu, que até então havia vivido numa ESTRITA CONTINÊNCIA, comecei a dar brida a meus desejos.” [p. 38, grifos meus]). O filósofo não goza de introspecção. Ele não percebe que nunca vivera em estrita continência. Abelardo esteve sempre à mercê dos seus sentimentos. Por acreditar-se de alguma maneira livre das demandas da carne, ele é uma presa mais do que fácil para essas demandas quando elas surgem.
Enfim, assim começa a jornada desse poeta-filósofo que de forma tão adequada sintetiza seu tempo. Suas ideias acerca da Trindade, causa de tamanha polêmica, não são vitais para este ensaio. O que nos importa é: por que Abelardo, André e GH se aproximam tanto?
Perdi uma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar, mas que fazia de mim um tripé estável. (APSGH, p. 09)
Ao contrário de GH, Abelardo torna-se cônscio da terceira perna trazida em seu íntimo graças a Heloisa. Ela desperta nele a ausência que antes ele simplesmente considerava como um fanático amor à dialética. É a sensibilidade que os aproxima. E no caso de Abelardo, uma total indefensabilidade quando as demandas carnais surgem, quando a Paixão finalmente se concretiza. Este amante do saber não tem a introspecção de GH. Mas sofre, também como André.
Abelardo alcança, também, o nada. Ele cai nas escuras águas de seu íntimo e delas se levanta. Se GH torna a segurar a pedra como o Sísifo de Camus, Abelardo, após a castração, consegue caminhar pela primeira vez, mas sem o mundo sobre seus ombros. Ambos transcendem, cada um à sua própria maneira; na imanência (no caso de GH), ou no completo divórcio com as exigências da carne (no caso de Abelardo). Já André, preso ao lodo e à sua recusa em sofrer, se afoga. Sua recusa em sublimar ou transcender fica clara quando ele diz a Ana:
Foi um milagre o que aconteceu entre nós, irmã, o mesmo tronco, o mesmo teto, nenhuma traição, nenhuma deslealdade. (…) Foi um milagre, irmã, descobrirmos que somos tão conformes em nossos corpos e que vamos em nossa união continuar a infância comum (…)” (LA, p. 120)
Que cama é mais limpa que a palha enxuta do nosso ninho? (LA, p.134)
…de minha parte, abro mão inclusive dos filhos que teríamos, mas. Na casa velha, quero GOZAR em DOBRO as DELÍCIAS desse amor clandestino. (p. 135)
Ou seja, o protagonista de LA espera que o lodo aos seus pés transforme-se em solo firme, onde ele poderia caminhar sem sofrer, sem se ferir. Ele espera que tudo à sua volta sujeite-se ao seu íntimo, seus anseios. Ele não muda. Ele não continua a perseguir uma nova forma. Não de fato. Mas o lodo não é um solo firme, e nele André termina por afundar…
A numeração dos capítulos em LA sugere que os eventos no romance não se repetiriam, a história não poderia retornar ao começo. De fato. A foice do patriarca corta os devaneios do filho tresmalhado sem piedade. André cai. E se afoga, como não poderia deixar de ser. André quer não só inserir-se em um sistema (seu próprio sistema: “valia o meu e só o meu ponto de vista!”), mas impô-lo à família que o oprime. GH e Abelardo não mais se encontram sob qualquer sistema, não quando conseguem alcançar o que sequer sabiam que lhes faltava.
GH e Abelardo seguem um outro caminho. Abelardo é elevado à transcendência; GH transcende na imanência. A Paixão (tanto o sentir quanto o sofrer em demasia, unidos em um só) que os habitava, mascarando-se por tanto tempo como algo perto de desespero, desfaz-se por completo quando o enigma é não resolvido, mas encontrado. “Eu não havia encontrado uma resposta humana ao enigma. Mas muito mais, oh, muito mais: encontrara o próprio enigma.” (APSGH, p. 89) A Esfinge tão temível joga-se nas águas e oblitera-se por completo não porque sua pergunta é respondida, mas porque deixa de ser relevante. O segredo é finalmente legado ao esquecimento, a pedra deixa de ser um fardo… e nada mais é proibido.
GH e Abelardo morrem e vivem não em um interminável ciclo de repetições, mas re-morrem e re-vivem a cada passo. A cada nova experiência. A cada nova condição. Suas jornadas (mesmo a de Abelardo) não são estáticas. Não há uma chegada final para eles. Como não há para a própria vida. André se consome exatamente por não dar-se conta disso. Ele QUER, achando que não pode fracassar. E paga por uma cegueira voluntária.
GH e Abelardo não são heróis, muito pelo contrário. São aqueles que mais ganham quanto mais renunciam, aqueles a quem a vida chama com mais clamor, aqueles a quem a vida toca com mais violência e ternura…
…e a vida se lhes é.
NOTAS
[1] Olga de Sá, Paródia e metafísica, A paixão segundo GH.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Correspondência de Abelardo e Heloisa. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
FITZGERALD, F. Scott. A derrocada e outros textos autobiográficos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,1969.
LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo GH. Florianópolis: Edição Crítica Benedito Nunes, 1988.
PAGLIA, Camille. Personas sexuais. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
PEREIRA, Mário Eduardo Costa. Pânico e desamparo. São Paulo: Escuta, 1989.
NASSAR, Raduan. Lavoura arcaica. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
Claudio Duffrayer é graduando em Letras (Português-Literaturas) pela UFRJ e, atualmente, participa do grupo de pesquisa Ficções literárias: fabulações multi-reais, do programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura da mesma instituição.
