marienbad


13. Aura. No Natal de 1942, quando centenas de milhares de tropas nazistas estavam cercadas ao redor de Stalingrado, morrendo de fome, frio e desespero enquanto o exército vermelho se preparava para destruí-las de vez, é que a Madonna de Stalingrado foi desenhada. A imagem religiosa é um carvão sobre o verso de um mapa russo (o único pedaço grande de papel disponível) feita pelo oficial médico Kurt Reuber. Uma Maria envolvendo um menino Jesus, de uma “maneira quase uterina”, como descreveria Anthony Beevor, com as palavras “luz, vida, amor”, “fortaleza Stalingrado” e “1942, Natal no caldeirão”, formando uma espécie de moldura ao redor da imagem. Causa um certo terror imaginar que uma figura tão simples, quase como um esboço estudantil, tenha sido causa de peregrinação durante aquele Natal, e, mais tarde, após o fim da guerra, consagrada como imagem devocional com cópias expostas em igrejas em Berlim, Londres e Moscou. É óbvio que o poder da Madonna vem do contraste entre a mensagem vital, maternal, que as palavras e a figura trazem e a profunda desesperança da morte lenta e miserável que os soldados alemães tiveram de enfrentar após eles próprios terem causado a mesma miséria e sofrimento à cidade que tentaram conquistar e à União Soviética como um todo. Este equilíbrio entre vida e morte, o contra-ponto que fica estabelecido de forma quase imediata e barbaramente arcaica entre luz e escuridão, é muito, é um continente inteiro que abriga possivelmente quase todo sentido da arte, de qualquer grande arte, mas há um pouco mais na Madonna de Stalingrado, a parte que escapa da arte, que é linguagem e representação apenas por um a concessão conceitual e que, enfim, trava o comentário fazendo crítica ou pensamento tornarem-se tímidos.

Do que chamar o combate de milhões de soldados em torno de um pequeno pedaço de terra, sua agonia e lenta morte, o amontoado ciclópico de sofrimentos que só fizeram a lembrança do que seja essa vida sonhada de luz, vida e amor ainda mais intensa? A matéria da esperança, suponho, nascida do sem sentido que é a vida vivida em campos de batalha. De resto, de qualquer vida, mesmo em situações menos dramáticas. Mas é isto, o Isto, que está na base de toda arte, não tanto enquanto as forças telúricas de economia e sociedade, como propõe o marxismo, nem no vago termo “vida”, com que uma tradição mais estetizante chama a dinâmica dos homens no mundo. Mas qualquer que seja o nome dado ao tecer lento e invisível das circunstâncias ou da história em torno de certos objetos que concentram nossa fantasia e pânico, e eu prefiro aqui usar o termo benjaminiano, aura, é esta tessitura que acaricia nossos ouvidos enquanto tentamos tornar o que é sentido um pequeno pedaço de nosso mapa pelo tempo.

Ricardo Pinto de Souza, professor, escritor e editor-artesão da Oficina Raquel. É autor de CULTURAS.

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