alguém para dizer o caos: sobre arrastar tinta, de pedro eiras e nuno barros – pedro lopes de almeida
Nuno Barros [Pintados] e Pedro Eiras [Escritos], Arrastar Tinta, Porto, Deriva, 2008, 57 pp.
Pode um desejo imenso
arder no peito tanto
que à branda e à viva alma o fogo intenso
lhe gaste as nódoas do terreno manto,
e purifique em tanta alteza o esprito
com olhos imortais
que faz que leia mais do que vê escrito.
– Luís de Camões, Ode VI
amor mi mosse, che mi fa parlare.*
–Dante Alighieri, Inferno, II — 72
No princípio era a treva, informe e vazia sobre o abismo. E para existir a noite, pairava sobre as águas a “bola / de mercúrio” (p. 31), a dilatar-se na escuridão de se conhecer, até ser só retina. Um livro escrito à borda da retina, este. Um livro – e é o que encontramos. Porque não pode ser outra coisa, a não ser que seja menos do que ele mesmo [1] (conceito, espaço, projecto), e o de Pedro Eiras e Nuno Barros sendo-o, é-o plenamente, com a certeza dos objectos feitos de “pés de ferro e mãos de vento” (p. 45): no momento em que se revela como obra de uma semântica maciça desde a raiz da sua reflexão metapoiética, desnuda-se a perene volatilidade dos pensamentos que descerra, num livro cuja leitura, não necessariamente coincidente com a ordenação dos fragmentos, será sempre um mergulho nos espelhos da criação. A voz chega-nos como canto do Orpheu regressado, abrindo os olhos para não ver: é o inquieto ofício da “difícil cegueira” (p. 33), e pressente-se na vigília a nítida vibração de todas as formas, arrastando a pupila como quem arrasta tinta. Lembro-me de haver um copo que também nos arrastava num frémito contido de revelação, e nessa altura ainda pensávamos que existíamos fora do copo e da mesa. Mas não aqui. Aqui “Também és tinta arrastada” (p. 33): porque de ti só resta a “sombra digital” (p. 33) de duas palavras, o nome que salva quando se afoga na escuridão da matéria-a-haver. Despido de tudo, és já o balde que desce às águas dos olhos, e a sede que o faz cair é, como ali, mais água do que sede [2]. Do fundo do poço, cantar é uma forma de respiração, e, não sei se líquido ou ar, o céu vê-se melhor daí. Talvez por isso seja esse o lugar da pupila, encostada contra a parede húmida no buraco que partilhas com Tales [3] (e este diz, colocando sobre os lábios um dedo: “Para veres, primeiro não vês” (p. 33): eis porque é necessário cair no poço para ver as estrelas).
E desde lá de baixo, do fundo dos olhos, começa a reconstruir-se, em estilhaços, a pintura cega da pedra.
Sentiremos na mão outra mão que nos guia através dos exercícios de desejo e angústia (p. 34), e pouco importa quem traça o destino, porque já só existe o movimento do corpo, da tinta, arrastados. A escrita cola-se, aqui, ao exercício: “entre o que viste [...] e o que paulatinamente vais, respiração pausada, arco tenso de atenção, empurrando sempre” (p. 34). Quem és, aqui? Ulisses ou Dédalo? “Só podes deixar que o salto se encoste ao próprio ar (sentir os ventos contrários) ou acorrentar o corpo” (p. 34). No fundo, pouco importa: não és tu que escolhes, porque as correntes, digo, as palavras, embalam o movimento até que só exista o ritmo, língua que aprendes e adoptas, e então dirás também a “sabedoria do ritmo” (p. 34).
Agora és tu a fala: as imagens prendem-se-te ao corpo, película sensível, e o mundo invade a pele como a geografia invade um mapa. Tu és o mapa – poderás, portanto, abrir os olhos até recobrirem o mundo inteiro: “Vão os dois coincidentes, nem um milímetro atrás ou à frente” (p. 55).
Novo exercício: “Justa a retina / se / justo o mundo” (p. 37). Haverá, então, alguma justiça na retina. Não, mas talvez haja justeza: retinamundo ajustada à mão, tão rasa que coincide com a própria alma. E anda um monge pelos claustros desta oficina, convento negro do instinto [4]. Ele esculpe a sua vida, perdendo o nome: “em cada sílaba perdes nome” (p. 39). É possível? É: “pode-se cortar a cabeça e caminhar sobre as brasas. Pode-se amaldiçoar as palavras por dentro: seta de veneno no meio da sílaba.” (p. 39) Mas não mais, porque a alma volta sempre (p. 39): a impossível aventura e a “resistência tensa da tela” (p. 39). Podemos escrever nos limites. Ou até sonhar que escrevemos para lá deles: mas nunca se pode deixar de ser nome para ser-se sílaba somente, porque entre um mundo e outro há o fosso duma “ferida que não cicatriza” (p. 39). O que fazer, então? “peregrina[r] a própria peregrinação” (p. 40), isto é, conhecer por dentro o movimento que se faz andando, “Porque assim segue a tinta a sua rota que não traçou ninguém” (p. 40).
A possibilidade da escrita e as suas consequências, numa lógica de paradoxos integrados caos/cosmos é uma das linhas fortes que percorrem o conjunto de meditações deste livro. Os Pintados abrem sob a égide de Manchas Casuísticas (pp. 9, 12, 14, 15). A disposição das formas, na aparente ausência de figuração, obstina-se em fragmentos distribuídos no espaço da tela/do papel segundo um princípio de necessidade interna das manchas: não se engane o olho tomando por casual o que o não é – derivando do caso (sem o prefixo a-!), a configuração da tinta espalhada obedece à minúcia impossível do que é absolutamente subjectivo: pela mesma razão que casuístico recobre o que é do âmbito da moral e do caso, trata-se aqui de cumprir o desígnio da organização interna da mão que arrasta tinta, moral irredutível de um microcosmo em exercícios de combinações possíveis, orquestradas pela precisão ínfima do desejo – “E há um encontro de si em obedecer ao que a si mesmo se impõe, / que é apenas o encontro de quem a si mesmo impõe aquilo a que obedece” (p. 55).

Como em Sei exactamente o que faço e no entanto faço-o (pp. 10, 11): “não poder dizer, e contudo saber, e contudo fazer” (p. 55). Se a composição das formas legitima a peça, é este conhecer os contornos que realiza, em última instância, a pintura: tal é a frase de Cage: “I have nothing to say and I’m saying it…”, ou, como se dirá nos escritos de Pedro Eiras, “Não há chegar, só o corpo que vai” (p. 41). E assim as simetrias transformam-se num “eterno aqui e agora” (p. 55), a recitar a possibilidade de se suspender o corpo, película sensibilizada pela luz da imagens, como uma tela a pairar um pouco abaixo da fotossíntese, na alegria de se ser insecto, ou “apenas mais um ponto de vista” (p. 41) “a adiar o caos” (p. 55). E agora já não estamos certos se é tela ou pele isto onde a imagem vibra. Seja apenas um Pintado – “Apaga a mão de luz / com o punhado de / sombra”(p. 43), e verás “Talvez o teu nome a bater contra o lado invisível do número” (p. 35).
Num lugar onde alastra a noite até que “do caos se levante a pequena rotação de um sentido” (p. 53), e esse sentido, raio débil, ilumine subtilmente “a desordem, essa beleza sem testemunhas” (p. 53). Universo de uma luz silenciosa donde emergem então talvez as catedrais de Bach, talvez a “ordem das palavras [que] toca na desordem” (p. 49): então é a palavra que cai sobre a película da imagem em branco, e, pacientes, as mãos, cheias de ternura, vão, pedaço por pedaço, recobrindo esse espaço alagado como quem, com o amor vespertino de mãe, recobre o bolo: “Ninguém faz o infinito (nem o destino) mas basta uma gota” (p. 49).
E eis as estrelas e o firmamento: “cosmos caído no caos” (p. 53). Também os Pintados já não são só a pulsão digital binária que move a necessidade: deram lugar à tela cheia de sentidos, demasiados sentidos sobrepostos num excesso mudo de nervos (p. 17), foram “clarabóia inventada” (p. 41) na lenta sublimação dos traços (p. 18), foram, na brancura de todas as possibilidades (p. 19), “uma ferida que cicatrizasse, não por costura: por apagamento da ferida” (p. 46), ou o invisível das coisas onde “a luz baterá com força” (p. 49). Foram ainda a pura textura (pp. 20-21), tela vista de perto, rugosidade acesa como memória de “alguma tinta caída na pele” (p. 49) a anunciar já a epifania das imagens. E é então que aquela mão ausente revela a visão: e as coisas apagam-se para existir um bosque (p. 22-25). Nas metamorfoses da árvore, “todas as questões dão as palavras exactas com que se responde à lacuna aberta” (p. 54), clareira de sombras luminosas que formam o nome percutido contra as árvores, “dedada num vidro” (p. 55), e o mundo já não existe fora dos Pintados, mas flui através deles e das árvores, supuração dos traços numa atmosfera (finalmente?) real, impossivelmente real [5].

Mas será mesmo uma aventura impossível? Na justa medida em que é uma aventura: “o que é incêndio por dentro pode navegar-se por fora” (p. 41). O mistério é esse: caminhar sobre as águas sem se queimar. Espalmar as mãos na parede para sentir o exterior das palavras – “mas nunca se pode chegar ao lado de fora” (p. 41). E saber que a magia reside toda em nós, na viagem fantástica onde “quando se regressa pela floresta já só há as costas da floresta” (p. 41), porque nós mesmos já não somos nós, mas personagens perdidas na outra floresta que não aquela por onde entrámos, senão esta outra, atravessada pelo vento real. Então, “entre silvados e cobras” (p. 40), que é dizer, entre sílabas e copas (ou coblas?), peregrinamos, inventando mundos debaixo do céu acabado de inventar, que “O que é incêndio por dentro / é noite por fora” (p. 41).
*”O amor me move, que me faz falar.” Fala Beatriz a Virgílio.
*Com sombras de Jorge de Sena ([1]: Arte da Música, “Variações Goldberg”), Sebastião da Gama ([2]: Pelo Sonho É que Vamos, “Imagem”) Tales de Mileto ([3]), Carlos de Oliveira ([4]: Mãe Pobre, “Odes”) e Álvaro de Campos ([5]: Tabacaria).
Licenciado em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (Portugal), Pedro A. frequenta o curso de Mestrado em Teoria da Literatura na mesma Universidade. Enquanto bolseiro de Integração na Investigação da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) desde 2008, encontra-se presentemente em vias de conclusão de um projecto tematizando a discursividade tipologicamente barroca na poesia de Murilo Mendes. Entre os temas de interesse recorrente, contam-se a Teoria da Literatura (em particular a problemática Ficção/Real), a Estética Literária, a literatura marginal/marginalizada, a abordagem Ecocrítica do fenómeno literário, as literaturas africanas de expressão portuguesa, a literatura portuguesa do barroco e neoclássico (com especial incidência sobre a obra de Tomás António Gonzaga), a literatura de autoria brasileira em geral e a obra pessoana. Tem artigos publicados nas revistas Mosaico (UNESP, São Paulo), Línguas e Literaturas (FLUP, Porto), Sin-ismos (Porto) e em actas de Congressos em Portugal e no Brasil. No futuro imediato, projecta debruçar-se sobre o paradigma teórico emergente na obra de Slavoj Zizek. Deseja continuar a ser um leitor convulsivo e viciado irredutível nas palavras. Mora em Santa Maria da Feira.

