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RESPOSTAS IMPERFEITAS

(recensão a Oráculos de cabeceira, de Rui Pires Cabral. Lisboa: Averno, 2009)

Rui Pires Cabral chega a seu sétimo livro. Número cabalístico, que parece mais cabalístico ainda num volume de título Oráculos de cabeceira. É impossível não pensar nos deuses de casa, guardiões dos lares gregos. A estratégia do livro chega a ser surpreendente em se tratando da obra de um poeta que olha mais em redor que para dentro de livros: cada poema de Oráculos de cabeceira origina-se de uma citação. Da obra outra vem o título do novo poema e, ao fim do livro, cada citação é referenciada, ao modo dos textos acadêmicos. Estaria Rui, em seu livro sétimo, mais interessado do que antes em se estabelecer dentro da tradição, o que equivale a dizer: dentro da literatura? É nisso que a estratégia do livro é mais surpreendente ainda: não há deuses, não há gregos, não há respostas orientadoras, há acaso – à página onde as referências são explicitadas, o cabeçalho diz “abertos ao acaso” (p. 49). Não há dúvidas de que, na lista apresentada, os autores são da predileção do poeta. Todavia, o elemento “acaso” comparece, e os poemas não estabelecerão um direto elo intertextual. Os oráculos não protegem nem respondem, apenas provocam.

“Não tenhas confiança na tua juventude”, poema a meio do livro, é sintagma originado do Dostoievski de A voz subterrânea, que no Brasil foi traduzido por Memórias do subsolo. Mas o oráculo apenas fornece uma frase, que sequer tem a dignidade de um título para o poema a se escrever, pois vem, a frase, entre aspas e seguida de uma referência que aponta para as notas de fim. Claro, Dostoievski como oráculo, mas “ao acaso”, e o poema, não sei se tem muito que ver com o russo: “Noites de tabaco com resina/ de Marrocos, pequenos quartos// onde a música era enorme./ As ruas pulsavam, eram coisas// mortais, o pensamento um carrossel/ de monstros vivos. E nós os únicos,// os mais sós, os mais relapsos/ no caminho que descia do devaneio// à angústia. Esquecidos das horas/ num qualquer degrau perdido,// o futuro era aterrador: it will end/ in tears. E tudo o que sabíamos/ estava errado, menos isso.” (p. 31). A citação dentro do poema é a uma canção pop, não a Dostoievski, e o texto está mais interessado no tempo e na “juventude” perdida que em algum subterrâneo. Portanto, às provocações de canônicos livros “abertos ao acaso” Rui responde com um interesse bastante coerente a sua lírica.

Se um precário sinônimo de oracular é profético, não há perfeição nas respostas vindas das obras que os poemas referem ou que pretextam os poemas, mas posso cogitar alguma profecia? É como se, no remoto momento em que Dostoievski escreveu o que se traduz por “Não tenhas confiança na tua juventude”, algo num qualquer oráculo soubesse que, muito tempo depois, um ainda jovem poeta português recuperaria o sintagma para, a partir dele, escrever um poema. Se eu estiver indo longe demais, paro por aqui. Importa é que o poeta ainda jovem, desconfiado da juventude que possui e que não possui, começa a perceber que tudo acabará em lágrimas. Dizendo de outro modo, percebe que há caráter profético tanto num canônico escritor russo como numa canção pop. Ou ainda: as profecias com que se depara são relativas, não aos deuses de casa, mas a uma construção subjetiva marcada numa pequena e nada oracular visada autobiográfica.

Assim, “(…) tudo o que sabíamos/ estava errado (…)”, e é tarde para algum acerto com a própria idade: é do Camilo de Coração, cabeça e estômago que vem a expressão “Ainda não é tarde”: “Ainda não é tarde, dizem os amigos/ aos quarenta anos. Amam as canções/ e as cidades estranhas que o desejo/ guarda: a pressa de Junho nas escadas/ do metro e essa livraria à beira do rio –/ só a descobrimos no último dia, a pena// que foi. No fim da estação regressam/ iguais com histórias diferentes, gratos/ souvenirs. Ainda não é tarde, nada/ está perdido (e ninguém lhes dá/ a idade que têm). Aos quarenta anos/ não sabem dizer o que aconteceu,// mas quando se juntam à roda da mesa/ na vaga euforia que a hora consente,/ já quase acreditam que podem voltar/ à pequena praça, à luz entrevista de um/ quarto de hotel, onde a noite é nova/ e toda a beleza se há-de cumprir.” (p. 38). “Ainda não é tarde”, diz o poeta com pouco mais de “quarenta anos”, mas “não é tarde” para quê? Para o passado deixar de ser assombroso, um amálgama de “monstros vivos”, sintagma do outro poema, ou para que a viagem que é a vida, uma espécie de mórbido turismo, se encerre? Ou para que a ilusão da juventude de mantenha, já que “( (…) ninguém lhes dá/ a idade que têm)”, entre parênteses?

Onde então os deuses de casa ou algum oráculo com poder de revelação excelsa? Se falei em visada autobiográfica é porque os sujeitos de quase todos os poemas de Oráculo de cabeceira têm sua própria história como objeto de atenção. Desse modo, o jogo que se faz entre passados (os dos sujeitos e os dos livros que regressam para provocar o sujeito) e presente só pode fornecer, se é que fornece, respostas imperfeitas, pois inconclusas e despidas de força divina e divinatória. O último poema do livro tem como origem Edgar Allan Poe, Aventuras de Arthur Gordon Pym: “Já é tempo de acabarmos com estas divagações”: “Sete e meia: também a praça/ tem as suas horas mortas./ Alguns trocam a esplanada// pelos bancos do jardim –/ aí se sentam ao frio, graves/ como sentinelas, não se sabe// o que vigiam. Terão chegado/ mais jovens à solidão derradeira?/ Ou são apenas o espelho// da tristeza de quem passa/ e se interroga? Os do costume,/ entretanto, até bebiam// mais uma, catam dos bolsos/ moedas, pedacinhos de cotão./ Mas está na hora, senhores,// que o dia pesa no corpo/ e o rapaz que serve às mesas/ já pôs o lixo na rua. Meus amigos,/ faz-se escuro: adeus, adeus.” (p. 46).

Não apenas pela expressão “horas mortas”, o autor que pode vir à mente do leitor não é Poe, mas Cesário Verde, pois o ambiente escuro e soturno lembra imenso o “Sentimento dum Ocidental”. Além disso, o real percebido possui grande densidade, e as “horas” serão “mortas” como “mortas” são as nossas horas, as do humano. Em rigor, o sujeito fala da cidade para falar de si e de sua experiência no tempo, mais que numa “cidade” específica. E a grande ilusão, no tempo, aproxima-se de ser vencida: “(…) Terão chegado/ mais jovens à solidão derradeira?”: terá o sujeito percebido que já alcançou a “solidão derradeira”? É curioso que, num livro que desemboca na solidão e no “adeus”, os sujeitos estejam sempre acompanhados, não apenas em algumas dedicatórias (seis dos vinte e sete poemas são dedicados), mas pela presença dos Oráculos de cabeceira: à noite sempre haverá, perto da cama, algo a ser lido, alguma companhia.

No entanto, se as respostas são imperfeitas, as companhias também o serão, mesmo que o autor a figurar na cabeceira esteja vivo, como João Miguel Fernandes Jorge. Com o poema originado desse autor, encerro um texto que contempla, afinal, quatro poemas de um livro composto por quase trinta. Será uma amostragem? Não sei se recensões se podem basear em amostragens. De todo modo, julgo que os três poemas citados, e o que virá ainda, podem servir como uma espécie de núcleo desse surpreendente livro, ao menos para sua apresentação. “Mas uma sombra, o que é uma sombra?”: “A meio de Março a noite começa/ e a minha presença é desnecessária./ Na casa em desordem o erro é o mesmo,/ nem sei porque insista: mas posso escolher?/ As linha que traço são vozes avulsas/ que o remorso alcança, ondas hertzianas/ de um canal exausto, frases que apareciam/ escritas nas paredes da calle del Ángel/ onde fui tão novo. Por toda a cidade te ouvia/ dizer na minha cabeça: me enfada la gente, sí/ porque soy libre. Sombras e fantasmas,/ coisas que não chegam a durar um verão/ e falam connosco o resto da vida.” (p. 27)

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Luis Maffei é poeta e professor de Literatura Portuguesa da Universidade Federal Fluminense.

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