paraísos e utopias – adriano de paula rabelo


Sempre que o ser humano se sente acossado pela miséria, a opressão, a violência, a falta de perspectiva, inevitavelmente imagina lugares plenos de abundância, liberdade, paz, felicidade, bem-aventurança; realidades em que os problemas humanos estão resolvidos e a vida é gozo perpétuo. A literatura, o cinema, a música, as artes plásticas, os livros sagrados nos oferecem inúmeros exemplos disso.

Os antigos egípcios imaginavam os campos de Aaru, o além onde reinava o deus Osíris, lugar ideal para a caça e pesca, onde os mortos iniciavam a vida eterna após seu julgamento. Aqueles cujas más ações os desqualificavam para o reino de Aaru eram reenviados para uma segunda morte.

Por sua vez, os gregos da Antiguidade acreditavam nos Campos Elísios, lugar no mundo subterrâneo onde a sombra dos homens virtuosos repousava após a morte. Governados por Hades, os Campos Elísios eram constituídos por belas paisagens naturais. Seus habitantes, em alguns casos muito especiais, poderiam receber autorização para retornar ao mundo dos vivos. Em oposição a essa espécie de paraíso, estava o Tártaro, lugar de tormento e sofrimento eternos.

O Jardim do Éden, paraíso descrito nos livros judaicos e na Bíblia, repete os lugares-comuns míticos de inúmeras culturas primitivas, sendo um sítio pleno de amenidades e belezas naturais onde o homem não precisa ganhar a sobrevivência com o suor de seu rosto e onde todos os animais são mansos. Outro lugar-comum do momento primordial de diversas culturas é a perda do paraíso pela iniqüidade humana, muitas vezes desencadeada pela mulher.

Muitas religiões e filosofias espirituais concebem para depois da morte um retorno ao paraíso, em geral para aqueles que praticaram o bem durante a vida. Dimensão de eterna bem-aventurança, em alguns casos o paraíso pós-morte é também habitado por almas exemplares, anjos, heróis, deuses e deusas. Em muitos casos, o paraíso é apresentado como compensação para os sofrimentos e as misérias deste mundo.

Hesíodo, já nos primórdios da literatura grega, em seu poema “Os trabalhos e os dias” imagina o seu lugar ideal não no espaço mas no tempo. Para ele, a humanidade havia atravessado cinco idades: a dos homens de ouro, a dos homens de prata, a dos homens de bronze, a dos Heróis e a dos homens de ferro. Obviamente esta última seria a era contemporânea do poeta, tempo em que os deuses haviam enviado dor, fadiga, confusão e discórdia por causa da soberba humana. Por isso, Hesíodo lamenta não haver nascido antes, numa das épocas em que os homens viviam “sem preocupações em seus corações, protegidos da dor e da miséria”. No entanto, sua evocação do passado tinha como objetivo alertar para a degradação do presente e a necessidade de se reavaliar os valores vigentes sob pena de não haver futuro, já que não haveria mais “nenhum amor entre amigos ou irmãos, como no passado. Os contraventores saquearão as cidades uns dos outros, e o poder fará a lei, e o pudor desaparecerá”.

Figura 1

Já na Grécia clássica, Platão concebe, em A República, uma cidade-estado fictícia cuja organização social funciona perfeitamente, governada pelos filósofos – aqueles que são preparados para se tornarem os sábios e os melhores –, estando expulsos dessa sociedade ideal os poetas, seres que nada produzem de útil. Durante o Renascimento, essa obra será a grande inspiradora de uma verdadeira moda intelectual na Europa, quando surgirão vários trabalhos imaginando formas idealizadas de organização social.

Na Antiguidade latina, Virgílio, com suas Bucólicas, será a maior expressão do gênero idílico ou bucólico, que surgiu na Grécia do século III a.C. com Teócrito. Influenciado pelo mito da Idade de Ouro, o poeta romano exalta a vida pastoril, o trabalho da terra, as delícias do vinho, o amor a um ideal de mulher, os problemas existenciais do homem, contrapondo-os às injustiças e aos abusos da política imperial romana, dialogando com as transformações políticas e sociais de seu tempo. Séculos depois, por ocasião do Renascimento e seus desdobramentos, Virgílio será o principal inspirador da ressurgência e recriação do gênero bucólico no Ocidente.

A Idade Média, com suas graves e recorrentes crises de fome, além da opressão e da falta de liberdade que a marcaram, será uma era em que a imaginação de lugares ideais será bastante fértil. O mais famoso deles é o país da Cocanha, lugar de plena abundância de víveres, onde o trabalho era desnecessário para ganhar a vida. Na Cocanha, os rios são de vinho e leite, as colinas de queijo, pedaços de ganso grelhado voam diretamente para a boca das pessoas, leitões transitam já assados e com uma faca espetada no lombo e peixes saltam das águas para as margens dos rios, aos pés dos pescadores. A temperatura é permanentemente amena, o sexo é praticado livremente e sem repressões. Ninguém envelhece nem adoece.

Ainda da Idade Média vem o conto de fadas “Joãozinho e Mariazinha”, compilado pelos irmãos Grimm. Ao se perderem na floresta, as duas crianças, que pertencem a uma família miserável, seguem um pássaro branco de canto mavioso que os conduz até uma casa feita de pão, com telhado de bolo e janelas de doce. Apanhados pela bruxa que habita o local, são presos e postos para engordar a base de muitas guloseimas, a fim de serem devorados pela horrenda senhora. Ao final, Joãozinho e Mariazinha conseguem matar a bruxa, lançando-a nas chamas da fogueira que iria assá-los, retornando para casa felizes e bem alimentados.

No início do século XIV, Dante Alighieri reelabora a escatologia da Igreja medieval, colocando no Inferno os que praticaram o mal em vida, no Purgatório aqueles que se arrependeram tardiamente de seus pecados, para que sejam expiados, e no Paraíso os que conquistaram a eterna bem-aventurança através da prática do bem. Guiado por sua amada Beatriz, em sua trajetória celestial Dante encontra Santo Tomás de Aquino e o imperador Justiniano, é interrogado pelos santos sobre suas concepções filosóficas e religiosas. Ao adentrar nos círculos angélicos, que giram em torno de Deus, Dante adquire a capacidade de compreender o mundo espiritual. Por fim, diante da visão da Rosa Mística, separa-se de Beatriz para sentir diretamente a emanação do amor de Deus, aquele que “move o Sol e as outras estrelas”.

Figura 2

No século XVI, era das grandes navegações, com a invasão do chamado Novo Mundo pelos europeus e o saque dos tesouros das grandes civilizações americanas num tempo em que a riqueza dos estados se media pelo montante de sua acumulação de ouro, muito se procurou pelo Eldorado, lugar que os indígenas afirmavam existir em algum ponto perdido do continente. Conforme suas descrições, tratava-se de uma cidade de plena opulência onde as construções seriam todas em ouro maciço, ostentando tesouros em quantidades inimagináveis. “El Dorado” significa, em língua espanhola, “o homem dourado”. Conforme os relatos colhidos pelos colonizadores, tal era quantidade de riquezas no lugar que o imperador local tinha o hábito de rolar sobre ouro em pó, fazendo com que todo o seu corpo adquirisse a cor do precioso metal.

Em 1516, Thomas Morus publicou seu livro Utopia, criando um neologismo com termos gregos que significavam “não-lugar” ou, em outra interpretação, “lugar bom”. Escrevendo num tempo em que a miséria se alastrava na Europa e os conflitos religiosos se acirravam, Morus imagina uma ilha no Novo Mundo onde seriam abolidas a propriedade privada e a intolerância religiosa. As leis eram justas e todas as instituições estavam comprometidas com o bem-estar da coletividade. Mais tarde, a palavra “utopia” se transformaria num substantivo comum, sendo utilizada politicamente de duas formas opostas. Para os donos do poder, os projetos utópicos representam concepções generosas porém irrealizáveis, ilusões, quimeras; para os que lutam por justiça e equilíbrio entre os cidadãos, esse “não-lugar” é o lugar ainda não realizado mas possível que justifica a luta política para mudar o status quo a fim de se alcançar o “lugar bom”.

Outros utopistas modernos foram Tommaso Campanella, autor de A cidade do sol (1623), e Francis Bacon, autor de A nova Atlântida (1627). Assim como a obra de Morus, esses livros concebem uma organização social em que os homens vivem felizes, tendo todos os problemas materiais básicos resolvidos, mantendo entre si relações pacíficas e fraternais. Tal organização se baseia nos princípios da racionalidade – que fundamentam um Estado regido por princípios matemáticos e científicos que buscam eliminar a imprevisibilidade e proporcionar segurança aos membros da comunidade.

No século XVIII, com a radicalização do racionalismo moderno, os avanços da ciência e o desencantamento do mundo, diminuíram bastante as grandes idealizações de lugares paradisíacos para onde se evadir das realidades brutais. Ainda assim, o Novo Mundo continuou sendo um lugar que instigava a imaginação européia, constituindo ora uma natureza virgem onde se pode escapar do cansaço civilizatório, ora um lugar de abundância onde para sobreviver basta colher o que essa natureza proporciona gratuitamente e aonde aventureiros podem vir em busca de riqueza rápida, ora um lugar habitado por nativos naturalmente bons, ora uma terra prometida onde se podia recomeçar a vida longe das perseguições sofridas no Velho Mundo.

No decorrer do século XIX, grandes ondas migratórias para o continente americano reatualizaram o mito da terra prometida. Talvez por terem sido os destinatários de variados fluxos de migrantes e terem se realizado como a grande potência político-econômica do século seguinte expliquem em parte a arrogância e o isolamento que têm marcado a história dos Estados Unidos em suas relações internacionais. O mito da terra prometida tem sido inclusive avocado como justificativa para o seu imperialismo.

Um poeta romântico inglês, Samuel Taylor Coleridge, fará com que, no mesmo século XIX, outro lugar imaginário torne-se célebre: Xanadu. Capital oriental do império chinês no tempo de Kublai Khan, no século XIII, a cidade situava-se no interior da Mongólia. Tendo sido visitada pelo veneziano Marco Polo em 1275, Xanadu tornou-se conhecida no Ocidente após a publicação dos relatos de viagem do grande navegador, que descreve a riqueza de seus palácios e a vida morigerada de seus habitantes, que praticavam as filosofias confucionista e taoísta. Coleridge, em sua imaginação, amplia muito as maravilhas do lugar, pintando um reino de opulência e beleza inigualáveis.

No século XX, a Razão entrou em crise aguda, por não ter conseguido resolver os problemas sociais, políticos e espirituais com que os homens vêm se debatendo há milênios, o que ela havia prometido realizar. Muitas sociedades enfrentaram horrores em escala nunca antes imaginada, toda sorte de infâmia foi praticada contra adversários políticos, países foram arruinados por guerras, catástrofes naturais, vampirismo imperialista. Nesse contexto, surgiram outras grandes concepções de lugares imaginários com características paradisíacas. Ao menos um deles se tornou mundialmente famoso: Shangri-La, também situado no Oriente.

Figura 3

Em 1933, o escritor inglês James Hilton publicou o romance Horizonte perdido, no qual, baseado na lenda budista de Shambhala, uma cidade desaparecida que tinha a forma de uma flor de lótus de oito pétalas, imagina uma aldeia paradisíaca situada no sopé de uma montanha no Tibete, para onde vai um grupo de pessoas fugindo da guerra. Nessa Utopia oriental, isolada do mundo ocidentalizado, tudo concorre para o bem comum, e a felicidade decorre do cultivo de valores opostos à ganância e ao materialismo da tradição européia. Encontrando paz e sabedoria, os fugitivos dos horrores da guerra conseguem superar o sofrimento, a velhice e a morte nessa espécie de novo Jardim do Éden.

No âmbito da História, a realização da sociedade comunista, tal como teorizada por Marx, foi a grande utopia de todos os que sonharam com a superação das misérias, dos crimes e das enormes desigualdades inerentes ao sistema capitalista.

Uma analogia com esses lugares ideais poderia ser feita com a busca pela posse de coisas que proporcionariam amor, felicidade, riqueza ou salvação a um indivíduo ou uma coletividade. A busca dos alquimistas pela pedra filosofal e o elixir da longa vida, a dos cruzados pelo Santo Graal, a de Juan Ponce de León pela Fonte da Juventude, a dos primeiros cientistas modernos pelo moto-contínuo ou a do Capitão Ahab por Moby Dick também podem ser lidas como metáforas para a realização de ideais utópicos e felicidades paradisíacas.

Já a esperança pelo retorno de redentores e a ação de líderes fortes se dá na perspectiva do resgate de paraísos perdidos ou da instauração de reinos de bem-aventurança. Cristo irá restaurar o paraíso para os bons após o Juízo Final. D. Sebastião irá recuperar o esplendor o império português. D. Quixote se imagina a suma dos ideais cavalheirescos, partindo para o mundo com a missão de libertar os fracos e oprimidos. Antônio Conselheiro funda a sua Canaã no sertão baiano com os desclassificados da então nascente república brasileira. Hitler pretende inaugurar o Terceiro Reich para a glória da raça ariana. E todos os fundadores de religião se imaginam novos cristos a conduzir seu rebanho para a beatitude eterna.

No âmbito brasileiro, o imaginário do paraíso tem persistido como um traço fundamental de nossa identificação cultural. Sérgio Buarque de Holanda, em Visão do paraíso, tece todo um panorama dos mitos relacionados ao Novo Mundo que povoavam a imaginação dos europeus nos primeiros séculos após sua chegada na América. O próprio Cristóvão Colombo, em suas anotações de viagem, exprime a convicção de que havia atingido o Éden. Muitos outros viajantes europeus situavam no continente recém-descoberto – recorrentemente no Brasil – o paraíso terrestre.

Em meados do século XIX, Gonçalves Dias publica a “Canção do exílio”, clássico dos clássicos da literatura brasileira em que o sujeito poético sente saudades do país e enumera seus exuberantes primores edênicos. Ao longo do século seguinte, o texto será glosado de todas as formas, seja em vertente parafrástica, seja em vertente paródica. O próprio Hino Nacional, que em certo momento toma literalmente de empréstimo uma estrofe da “Canção do exílio”, se realiza em grande parte como um inventário das qualidades paradisíacas do Brasil.

Figura 4

Machado de Assis, crítico dessa identificação nacional edênica, escreveu: “O meu sentimento nativista (…) sempre se doeu desta adoração da natureza”.

Na virada para o século seguinte, em 1900, o conde Afonso Celso, no grande sucesso editorial Por que me ufano de meu país, não só se tornaria um paradigma do pensamento de exaltação às belezas brasileiras como consagraria o termo “ufanismo”, hoje muito desprestigiado.

O poeta Manuel Bandeira expressa, em “Vou-me embora pra Pasárgada”, o desejo de evasão de um sujeito que durante quase toda a sua vida teve de conviver com as limitações e sofrimentos decorrentes da tuberculose, doença que até algumas décadas atrás matava enorme contingente de pessoas. Bandeira retirou o belo nome de seu paraíso imaginário de uma cidade da antiga Pérsia – hoje Irã – que no tempo de Ciro II foi uma das capitais do império. Em sua Pasárgada, o poeta liberta-se do trabalho e das aflições da existência comum para viver uma sexualidade livre e intensa, praticar atividades lúdicas ao ar livre, ter acesso a confortos da modernidade, aproveitar-se de boas relações com os donos do poder e, principalmente, superar a angústia de uma vida limitada e triste. A propósito, como costuma acontecer com os grandes poetas nacionais, o verso “Vou-me embora pra Pasárgada” acabou por tornar-se um bordão popular, sendo pronunciado sempre que a realidade se mostra por demais insípida e medíocre.

Essa marcante presença dos tópicos paradisíacos nos imaginários erudito e popular atesta a universalidade e atualidade do tema. Indubitavelmente o ser humano necessita do imaginário do paraíso para poder suportar os acidentes da existência, construir sentido para a vida, manter esperanças e agir para a transformação do mundo.

Uma visão na contracorrente das apologias ao Brasil paradisíaco é a de Paulo Prado, misto de historiador e sociólogo, que inicia seu pessimista Retrato do Brasil, de 1927, com a famosa frase “Numa terra radiosa, vive um povo triste”. Seu texto é um lamento pelos descaminhos de nossa formação, que teria se processado ao sabor da luxúria, da cobiça e do romantismo, fatores que estariam na raiz de todas as nossas mazelas e que teriam se desenvolvido aqui justamente por causa das qualidades paradisíacas de nossa natureza, que proporcionariam uma propensão à aventura, à lassidão, aos arroubos românticos.

Em artigo recente, o historiador José Murilo de Carvalho demonstra a firme persistência do motivo edênico no imaginário social brasileiro. A partir de uma análise de duas pesquisas de opinião pública de âmbito nacional, ele demonstra que as razões de orgulho patriótico dos brasileiros em grande parte se localizam na exuberância da natureza, tendo muito pouco a ver com as instituições nacionais ou com as qualidades intrínsecas do homem brasileiro.

Figura 5

A cultura popular do país comprova essa preponderância do imaginário paradisíaco como fundamental em nossa identificação. A canção “Aquarela do Brasil”, de Ari Barroso, que reconfigura belamente o vasto repertório de amenidades e riquezas naturais da tradição edênica, é outro clássico dos clássicos da cultura brasileira. O fato de a “Aquarela” ser uma das peças musicais mais executadas no mundo comprova ainda a persistência dessa concepção também entre os estrangeiros.

Também de enorme projeção internacional é a produção ligada ao movimento da Bossa Nova, que possuía como tema recorrente a exaltação, em teor paradisíaco, da paisagem do Rio de Janeiro, cidade que se consagrou em nosso imaginário como um paradigma de beleza natural. E um herdeiro da Bossa Nova, Jorge Benjor, compôs outro clássico de exaltação do Brasil paradisíaco: “País tropical”.

Já Dorival Caymmi situa seu paraíso num lugarejo próximo a Salvador. No samba “Maracangalha”, escrito a partir da história de um amigo de sua juventude na Bahia, que forjava para a esposa a necessidade de ir fazer negócios naquela cidadezinha para lá se encontrar com a amante, dizendo “Eu vou pra Maracangalha”, o compositor constrói, com a simplicidade dos grandes artistas, uma canção que trata da evasão de uma realidade opressora. Fugindo dos excessos e cansaços da civilização, o sujeito do texto afirma sua resolução de partir para Maracangalha usando simplesmente roupas brancas e chapéu de palha, se possível na companhia de Anália, a figura feminina que completará sua felicidade.

Pode-se lembrar ainda um dos grandes sucessos de Roberto e Erasmo Carlos, “Além do horizonte”, em que o sujeito da canção imagina um lugar com todas as características edênicas:

Lá nesse lugar o amanhecer é lindo
Com flores festejando mais um dia que vem vindo
Onde a gente possa se deitar no campo
Se amar na relva escutando o canto dos pássaros

No entanto, esse jardim de delícias só adquire sentido com a presença da mulher amada, podendo os dois enamorados restaurar a completude e felicidade do casal primordial antes do pecado original.

Qual o sentido de se esboçar toda essa trajetória do imaginário paradisíaco hoje, nesta época denominada por tantos como pós-utópica, neste tempo em que projetos de desenvolvimento e progresso predatórios estão causando uma destruição da natureza de tal monta que pode inviabilizar a vida na Terra? Nada mais atual, talvez. Em primeiro lugar, os anelos pela experiência paradisíaca estão aí, vivíssimos. A extensa e profunda despolitização das pessoas – decorrente do fracasso das grandes experiências socializantes tentadas no século XX e da reconfiguração das políticas imperialistas, que agora ampliam mercados e zonas de influência por meio de avançadas tecnologias que difundem por toda parte um único estilo de vida como sinônimo de progresso e bem-estar – fez com que impulsos antes direcionados para a participação política fossem canalizados para a sexualidade e o consumo. Assim, os paraísos imaginários da chamada pós-modernidade assumiram uma feição individual, no máximo familiar, cujas palavras-chave são beleza física, conforto material, riqueza, poder, gozo permanente, ultrapassagem de limites. Essa fórmula consumista da experiência paradisíaca curiosamente se realizou como a própria antiutopia, fundamentada que está no desencanto e no ceticismo quanto aos projetos coletivos.

A injustiça, barbárie e o vazio que nos rondam estão aí a clamar pela necessidade de reconfiguração das coisas. O vasto imaginário paradisíaco que habita nosso inconsciente haverá de se contrapor aos poderes da opressão ideológica e da mediocridade extensiva que hoje assolam a humanidade. O alerta de Hesíodo, feito no século VIII a.C., nos parece atualíssimo: ou reformulamos, sob uma perspectiva humanista, os valores atualmente em voga – flores do globalitarismo, dogmas do mercado desenfreado – ou não haverá futuro.


CRÉDITO ÀS IMAGENS

Figura 1: “A era de ouro” – Lucas Cranach (1472-1553)
Figura 2: “País da Cocanha” – Pieter Bruegel (1525-1569)
Figura 3: “O jardim das delícias” (detalhe) – Hieronymus Bosch (1450-1516)
Figura 4: “Floresta virgem perto de Manqueritipa” – Johann Moritz Rugendas (1802-1858)
Figura 5: “Idílio” – Tarsila do Amaral (1886-1973)

Adriano de Paula Rabelo é doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo e pela University of Wisconsin – Madison, Estados Unidos. Publicou A melodia, a palavra, a dialética: o teatro de Chico Buarque (2008) e Lendas e mitos do povo brasileiro (2009).

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