marienbad
12. Burckhardt. “A cultura do renascimento na Itália: um ensaio” é um dos primeiros livros de história da cultura, dos primeiros a tentar captar aquilo que chamaríamos sem muito cuidado de espírito de uma época, mais do que fazer uma crônica de reis. É também daqueles livros que se manuseia com certa reverência, uma daquelas bíblias profanas que nomeamos clássicos. Como a Bíblia, esta classe de livros muitas vezes prometem mais sabedoria do que realmente entregam. Em parte porque, mesmo grandes, são objetos do tempo, envelhecem e não nos entendem mais ou menos na mesma medida que não os entendemos. O olhar de Burckhardt sobre a Itália renascentista tem a grande virtude do cuidado que o amor traz. Como qualquer grande professor, transmite a mesma paixão pelo objeto de seu ensaio que acaso sinta. A maneira que o desenvolvimento do espírito renascentista é descrito, com pequenas rubricas para o comentário do próprio Burckhardt são um espetáculo à parte, pois vemos diante de nós o esforço de tentar tornar compreensível uma outra época e universo. Finalmente. É espantoso que apesar dos séculos, a obra ainda comunique tanto. É isto, enfim, um clássico? estes livros que, como disse Calvino, estão sendo sempre relidos? Pois a familiaridade com Burckhardt venha talvez de nossa visão do Renascimento, tributária daquilo que ele disse em seu ensaio.
Mas há algo mais, aí. Um clássico é o livro sempre relido porque seu conteúdo formou de antemão nosso entendimento, como uma espécie de herança genética. Mas um clássico é também um livro que possua algo de indestrutível, que o tempo e as reduções não conseguem roer. No caso de Burckhardt quiçá sua pretensão de dizer toda a Renascença: sublime e grotesco, nobre e povo, delicadeza e brutalidade. Seu concorrente mais próximo, Huizinga em seu “Outono da Idade Média” tem a mesma pretensão, mas talvez por um excesso de zelo — Huizinga se atém às fontes existentes, ou seja, aos cronistas da corte, nunca extrapola– fica apenas no projeto. Já o livro de Burkhardt é um livro de tudo, inclusive um livro político — seu comentário e paixão republicana (e calvinista?) estão sempre presentes, a ponto de tornar certas figuras, como César Bórgia, monstruosas, talvez exatamente por suas pretensões imperiais. Em Huizinga temos esta honesta esperança de fidelidade a seu objeto, o que possivelmente foi conseguido, mas a que custo? Porque nesta fidelidade, na ocultação e tentativa de ocultação daquele que escreve, e note-se que Huizinga é tão profundo e apaixonado quanto Burckhardt, há um certo malogro.
O clássico, então, é o livro total, mas o clássico é também o livro do autor do livro total. É possível que o renascimento de Burckhardt não corresponda a um potencial espírito do Renascimento conforme realmente existiu (um conceito, o de um espírito que não seja um construto posterior, Hegel que me perdoe, por si absurdo). Mas mesmo que este espírito verdadeiro e final fosse uma possibilidade, ele seria necessariamente obscurecido e metamorfoseado pela obra de Burckhardt. Então um clássico é um livro total, um livro de autor e, finalmente, um livro que modifica a realidade após sua existência, nem que seja aos poucos (a recepção de Burckhardt e sua aceitação como autoridade é demorada). É isto talvez que Borges queira dizer com o célebre ensaio sobre o precursores de Kafka.
É um pouco assustador que um mero homem tenha este tipo de efeito sobre a cultura, e ainda assim, como Kafka, ou Dante ou Shakespeare, continue sendo apenas um homem. Não há divindade alguma aí, e este desafio final à ignorância, esta afirmação do humano sobre as superstições humanas, ou seja, o fato que um simples homem possa modificar o pensamento e a fantasia, e, mais que isso, a memória de infinitos outros homens, é, enfim, a matéria quase inexistente, de tão sutil e arbitrária, de um clássico. Ou talvez o contrário disso, se nos concentrarmos na palavra “arbitrária”, o contrário disso, e a marca mais forte do poder do acaso sobre os destinos humanos. Seja como for, ainda pagamos tributo a estes nomes e suas palavras. O quanto terão necessariamente falsificado do que seja a verdade lhes concede uma estranha santidade. Aqui nos encontramos com eles, em nossas comuns falsificações, pois um clássico é, por fim, o livro que elegemos para nos levar a nós mesmos.
Ricardo Pinto de Souza, professor, escritor e editor-artesão da Oficina Raquel. É autor de CULTURAS.

