gilles deleuze: letras e espírito – ângela sarmento
(Recensão a L’Abécédaire de Gilles Deleuze, realização de Pierre-André Boutang, Paris, éditions Montparnasse, 2004 [Série de entrevistas televisionadas de Claire Parnet a Gilles Deleuze. Filmagens de 1988. 1ª edição, Arte, 1995; edições Montparnasse, 1997]) [1]
“É um espírito que vos fala”. É com estas palavras que Gilles Deleuze anuncia a longa entrevista concedida a Claire Parnet, que fora sua aluna e colaboradora, nomeadamente em Dialogues (1996). A entrevista foi filmada em 1988, na casa do filósofo, sob a realização de Pierre-André Boutang, mas na condição de uma difusão póstuma, que ocorreria, pela primeira vez, logo depois da morte de Deleuze [2], ainda no ano de 1995 [3], no canal Arte, no programa Metropolis, da responsabilidade do mesmo realizador, Pierre-André Boutang. Em 1997 foi editada pelas edições Montparnasse [4], num conjunto de três dvds que contêm cerca de oito horas de emissão (c. 453 minutos), e que como “extras” apresentam o acesso “pelo meio” ao Abecedário e uma conferência dada por Gilles Deleuze à Fémis [a escola nacional do cinema em França], a 17 de Março de 1987, no âmbito das “Terças-feiras da Fundação” [Mardis de la Fondation], sobre “O que é o acto de criação?” [Qu’est-ce que l’acte de création?]. [5]
O Abecedário de Gilles Deleuze é composto pelas seguintes palavras: A-animal; B-bebida; C-cultura; D-desejo; E-infância [enfance]; F-fidelidade; G-esquerda [gauche]; H-história; I-ideia; J-alegria [joie]; K-Kant; L-literatura; M-doença [maladie]; N-neurologia e cérebro; O-ópera; P-professor; Q-questão; R-resistência; S-estilo [style]; T-ténis; U-um; V-viagem; W-Wittgenstein; X-desconhecido [inconnu]; Y-indizível [indicible]; Z-zig-zag.
Gilles Deleuze aceitou a proposta destas palavras como ensejo para discorrer sobre a sua filosofia. Avesso a interrogações – que não acrescentam nada de novo e que não têm qualquer interesse, como em tantas conversas televisivas ou como em geral nos convívios de sociedade, onde só muito excepcionalmente os intervenientes “se descobrem” perante os outros ou perante as câmaras –, o filósofo prefere os verdadeiros problemas, ou a emissão de signos que lhe permitam desenvolver ideias e criar conceitos (Cf. “Q-questão”).
É, pois, em jeito de provocação que Claire Parnet lança certas “questões”, e parece tratar-se do interlocutor justo para ir modelando o discurso de Deleuze. Não estamos perante uma intervenção monológica como a da referida conferência apresentada na Fémis ou como a das aulas que sempre deu enquanto Professor, mas as interpelações feitas por Claire Parnet resultam de uma atenção sequencial e reflectida e seguem o andamento do pensamento, como se estivesse perante a audição de uma música num concerto. Aliás, àquelas aulas (que rejeitava) e que têm por objectivo obter reacções bastante imediatas por parte de um público, Deleuze prefere a concepção dita “magistral” ou, como escolheu chamar-lhe, “musical”. (Cf. “P-professor”) No prefácio a Critique et Clinique (1993), livro publicado seis anos depois, dedicado aos problemas da escrita, e que já anuncia como projecto no segmento “L-literatura”, Deleuze conclui: “[t]oda a obra é uma viagem, um trajecto, mas que apenas percorre este ou aquele caminho exterior em virtude dos caminhos e trajectórias interiores que a compõem, que constituem a sua paisagem ou o seu concerto” (Deleuze, 2000: 10). Devemos, assim, receber estas palavras e, sobretudo, as ideias, as noções, os conceitos enunciados nestes dvds como “dobras ou pregas” [plis] da filosofia deleuziana ou como grandes “ritornelos” [ritournelles], para usarmos os seus termos; e, ao desígnio de apenas difundir postumamente estas gravações, devemos entendê-lo como o desejo de se tornar “imperceptível [como] é a Vida, [de] ‘incessantemente e sem condições’ alcançar o sussurro cósmico e espiritual” (DELEUZE, idem: 42). Acabámos de citar, ainda de Critique et Clinique, o último parágrafo do capítulo IV: “O maior filme irlandês (Film de Beckett)”, que está em consonância com a resposta do filósofo à pergunta de Claire Parnet, no fragmento “R-resistência”, sobre se se sentia célebre e clandestino:
Não me sinto clandestino, célebre. Queria ser imperceptível. Isso são questões pessoais. Eu quero é fazer o meu trabalho. Ver pessoas, preciso de um pequeno número de pessoas. Não quero que isso cause o menor problema. As relações imperceptíveis são o que há de mais lindo no mundo. Somos todos moléculas, redes moleculares. [6] (“R-resistência”)
Entendamos, pois, as palavras de Gilles Deleuze como redes de conceitos, linhas de fuga de uma autoria “des-subjectivada”, entrevista a vários níveis ou estratos. E faça-se ainda justiça à realização de Pierre-André Boutang, que segue atentamente a entrevista, que está presente em voz off, e que nos dá a ver o filósofo (como a personagem, interpretada por Buster Keaton, no Film de Beckett), através das “três grandes imagens elementares do cinema” (DELEUZE, 2000: 42): a imagem-acção — do homem que fala perante a câmara, e que tem uma vida e uma cronologia próprias; a imagem-percepção — do homem que segue as instruções da filmagem e que colabora com elas; e a imagem-afecção [7]– do homem-filósofo que se desd-obra pelos meandros da sua filosofia, afectando-a e sendo afectado por ela.
Através destas focalizações multifacetadas, e a um primeiro nível, temos acesso a “informações” mais ou menos pessoais, sobre a infância e as amizades, sobre o estado de saúde e sobre o percurso académico de Deleuze, no sentido de conduzir à construção do filósofo. Deleuze considera importante não reprimir o passado, antes chamá-lo, porque a memória não é um arquivo.
Da sua infância tem algumas lembranças, mas são pessoais, e não são relevantes para nenhum tipo de criação:
Escrever é arrastar a linguagem aos limites. Tornar-se animal da linguagem [cf. “A-animal”]; tornar-se criança; restaurar uma infância do mundo, é a tarefa do escritor. […] Ninguém é digno de se interessar pela sua infância. […] Nathalie Sarraute escreveu Enfance [Infância] (1983), sim, mas não é um livro sobre a sua infância. Ela inventa uma infância do mundo; de fórmulas estereotipadas, ela faz maravilhas. Eu fui “uma” criança, não “a” criança. Há uma riqueza extrema na multiplicidade. (“E-infância [enfance]”)
O percurso académico-profissional de Deleuze foi regular. Fez o secundário no liceu Carnot, em Paris, tornou-se agregado de Filosofia, deu aulas nos liceus de Amiens, de Orléans e Louis-le-Grand de 1948-1957 [8], antes de se tornar professor universitário, na Sorbonne, em Lyon e em Vincennes. Sobre a actividade de professor, e em complemento do que já referimos, acrescente-se o imenso apelo que os seus seminários constituíam para uma audiência diversificadíssima, cada qual com os seus interesses, que Deleuze “sentia a pulular”. Era cativante, relembra Claire Parnet, a sua voz inconfundível e as aulas, transbordantes. Como resultado de ensaios e intensa preparação, reconhece Deleuze, independentemente do nível, para que a matéria a transmitir o fosse com o maior entusiasmo.
Esta griffe, que não perdeu, tornava-se mais distintiva dado o seu percurso filosófico pouco ortodoxo. Deleuze não se detinha no marxismo, na psicanálise, no estruturalismo ou na filosofia de Heidegger, na altura tão em voga. [9] Não deixando de os abordar, até mesmo para os contradizer (veja-se L’Anti-Œdipe [1972]), foi por muitos considerando dissidente [10] ao preferir centrar-se na obra de filósofos de outras tradições, como Hume, ou até mesmo “malditos”, como Espinosa ou Nietzsche, que “recusaram toda a transcendência” (cf. “H-história da filosofia”) (cf. ainda referências bibliográficas de Gilles Deleuze, aqui em anexo). No liceu, enquanto professor de filosofia, permitiam-lhe experiências com a serra musical, que fazia vibrar nas aulas (sem que descurasse o programa oficial): sempre teve um fascínio pelas variações infinitas (Cf. “P-professor”).
Os anos da Sorbonne parecem ter coincidido, segundo Claire Parnet, com os anos em que trabalhou sobre a história da filosofia (Cf. “P-professor”). Deleuze reconhece que fazer história da filosofia é importante como aprendizagem e formação, e que é necessário encará-la com respeito e temor, como os grandes coloristas perante a conquista da cor. Defende, pois, um trabalho lento e modesto, de elaboração de retratos antes de proceder à invenção dos conceitos (Cf. “H-história da filosofia”). Admite também, no entanto, que não são apenas ou integralmente determinados filósofos ou obras de filósofos ou pensadores que lhe interessam, mas antes determinada ideia, noção ou até mesmo conceito que lhe importa explorar ao limite ou recriar, por exemplo, o conceito de “dobra” [pli], a partir de Leibniz, ou os conceitos de “expressão” e de “alegria” [joie], a partir de Espinosa (Cf. “R-resistência” e “J-alegria [joie]”). Em Kant, dos filósofos que trabalha, o mais afastado do seu pensamento (como observa Claire Parnet – cf. “K-Kant”), o que o fascina são as “tournures” [modo de dizer, expressão, estilo] e a inversão que propôs da subordinação do tempo ao movimento, passando a defender que “é o movimento que depende do tempo”. Mas há algo em que Deleuze se afasta radicalmente deste filósofo. Kant erige tribunais e Deleuze “sente-se ligado aos problemas que instigam a procura dos meios para acabar com o sistema do julgamento e para o substituir por outra coisa” (cf. “K-Kant”). Fazer filosofia é, pois, conclui, criar novos conceitos em função de problemas que façam sentido e que se colocam hoje, e que os conceitos vão ajudar a resolver:
Antes, servia-me da filosofia e da história da filosofia como uma aprendizagem indispensável, onde procurava os conceitos dos autores, grandes filósofos, e a que problemas eles respondiam. Então, acrescentei os problemas do século XX, que podem ser os meus, aos de Leibniz, por exemplo; estou persuadido da actualidade deste filósofo. Fazer como ele não é ser seu discípulo, é prolongar a sua actividade: prolongar os seus problemas, em relação e evolução. (“H-história da filosofia”) (Cf. também “R-resistência”)
No segmento “N-neurologia e cérebro”, perante o entusiasmo de Deleuze sobre a biologia molecular cerebral e sobre o funcionamento sináptico de continuidades e descontinuidades que se processa no cérebro “quando alguém tem uma ideia”, e depois de invocar o interesse ecléctico de Deleuze pela psiquatria do século XIX (preterindo a psicanálise) e pela farmácia (em detrimento da psiquiatria espiritualista), Claire Parnet lembra a ligação que filósofos como Bergson, Espinosa e Leibniz tinham com a matemática, e pergunta a Deleuze qual o seu método quando tem uma ideia e se depara com uma dificuldade científica numa área que não domina. Tal como para a filosofia, Deleuze admite que há sempre múltiplas leituras de uma mesma coisa (Cf. conceito de “ponto de vista”). Admite preferir uma percepção competente, mas também reconhece que estamos sempre no limite de uma certa ignorância, e que é aí que é preciso instalar-se. No mais, confia numa certa intuição (cf. Le bergsonisme, 1966) e, precavendo-se contra o perigo do auto-didactismo, e sem a pretensão de se querer fazer passar por cientista, assumindo-se sempre filósofo, aceita a confirmação dos cientistas que consulta. Acredita nos encontros entre os vários criadores e nos vários tipos de criação (cultura é isso mesmo, cf. “C-cultura”) e celebra esses ecos, misteriosos como certas amizades que nos ligam a determinadas pessoas e que nos fazem encontrar charme e graça nas suas pequenas “loucuras” ou, pelo contrário, sentir repulsa, desprezo e vergonha (Cf. “F-fidelidade” e “N-neurologia e cérebro”).
Uma das questões que podem justificar estas afinidades ou este fenómeno dos encontros (e das colaborações, por exemplo, com Félix Guattari ou com Claire Parnet) é o estilo, tratado no segmento “S-estilo [style]”. Para Deleuze, o que define o estilo é a mudança, a variação. No ténis, que praticou e que muito apreciava, os bons jogadores são aqueles que elevam um estilo já existente a uma pujança sem igual, mas os melhores são os que inventam novos lances (cf. “T-ténis”). Na literatura, interessa afastarmo-nos da concepção que a linguística fixa da língua e percebê-la e aceitá-la como um sistema em desequilíbrio. Escrever, ter um estilo em literatura, é fazer balbuciar, gaguejar a língua, é inventar uma personagem (cf. “L-literatura”), é criar uma sintaxe, o que envolve duas operações: primeiro, incrustar na língua uma língua “estrangeira” e, segundo, levar toda a linguagem a uma espécie de limite musical, ritornelo da Terra (cf. “O-ópera”); implica vocalizos, uma espécie de Sprachgesang (cf. “P-professor”). Enquanto filósofo, Deleuze não pode negar que tem preocupações estilísticas, e reconhece que trabalhar na composição de um livro é atender a um estilo; dá o exemplo de Logique du sens (1969), que considera uma espécie de composição serial, e de Mille plateaux (1980), escrito com Félix Guattari, como uma composição em planaltos [11].
Como se constata, Deleuze recorre muitas vezes às artes e à ciência para falar da filosofia, tanto que Claire Parnet nota, a propósito de “L-literatura”, que o filósofo sempre tratou os grandes escritores como pensadores, tendo-lhes também dedicado estudos e publicações, e acrescenta até ter, por vezes, a impressão de que é através da história da literatura mais do que através da história da filosofia que Deleuze inaugura um novo pensamento. Deleuze defende que a história dos conceitos não existe isolada e que há comunicações perpétuas entre os conceitos e os perceitos [12] (ver também “I-ideia”).
Na conferência apresentada à Fémis, anexada como extra, sob o título ”O que é o acto de criação?”, Deleuze desenvolve esta questão. Desfazendo um preconceito que qualifica de indigno tanto para a filosofia como para o cinema (neste contexto, dirige-se a estudantes de cinema), desvincula a filosofia da tarefa de reflectir sobre o cinema, actividade devida aos cineastas e aos críticos de cinema. Defende antes que a filosofia tem o seu próprio conteúdo, como o cinema e as restantes artes, e explica que criar em filosofia é fabricar “conceitos”, assim como criar em arte é fabricar “perceitos”, no caso da literatura, do cinema (especificamente, “blocos de movimento-duração”) e da pintura (especificamente, “blocos de linhas-cores”), e fabricar “afectos”, sobretudo no caso da música. E, de forma muito sucinta (e, por vezes, mesmo, um tanto tautológica), em “I-ideia”, descreve os “conceitos” como as invenções do filósofo, os “perceitos” como um conjunto de sensações e de percepções que se tornam independentes daquele que os experimenta, e os “afectos” como devires que ultrapassam aquele que passa por eles, e acrescenta que no limite de toda a criação existem espaços-tempo. Estima que a actividade criativa é de cada um, solitária (confessou, aliás que gostava de transmitir aos seus alunos o gosto pela “solidão” – cf. “P-professor”), mesmo quando admite a possibilidade de algumas ideias serem válidas simultaneamente em vários domínios, de entrarem em ressonância, sendo embora submetidas a processos criativos diferentes e específicos (desprezando as escolas, valoriza os movimentos e as redes de conceitos – cf. “W-Wittgenstein” e “R-resistência”). Em todo o caso, reitera que ter uma ideia em arte, em filosofia ou em ciência (neste caso, trata-se de funções), não é uma questão de comunicação nem de informação. Aceita, contudo, que se fale de contra-informação, já que a filosofia, a arte e a ciência são sempre actos de resistência, revolucionárias, contra a ordem do estabelecido ou, em última instância, contra a morte; são uma forma de “povoamento” (Cf. também “R-resistência”).
Dir-se-ia que Deleuze adopta um discurso político ou uma visão politicamente empenhada. Como defende em “G-esquerda [gauche]”, ser de esquerda é ser ou tornar-se revolucionário, o que significa, ser ou tornar-se minoritário: “[a] esquerda é o conjunto de processos através dos quais alguém se torna minoritário; e minoritário é todo o mundo, é aí que se dão os movimentos do devir” (Idem). No entanto, acrescenta, pode haver um governo favorável a certas exigências de esquerda, mas não há um governo de esquerda. E explica:
É uma questão de percepção. Não ser de esquerda é como um endereço postal: a rua, a cidade, o país, os outros países. Na medida em que se é privilegiado, como fazer para que a condição dure? Ser de esquerda é o inverso. Percebe-se, primeiro, o horizonte. Há problemas a resolver: injustiça, fome, há que tentar agir pela e para a liberdade. (Idem)
A questão do desejo prende-se com esta busca de liberdade e de agenciamento colectivo. Ao contrariar a versão psicanalítica tradicional, que circunscreve o desejo à esfera familiar e sexual, Deleuze, definido pela enciclopédia Larousse como “filósofo do desejo” (como lembra Claire Parnet – cf. “D-desejo”), amplia este conceito, imbuindo-o de um sentido construtivista. “Desejo é construir um conjunto, um agenciamento, uma região; sempre um colectivo” (Idem). E ainda enumera as quatro imposições de um agenciamento: 1.estados de coisas, que cada um os encontre; 2.ao nível dos enunciados, a cada um, o seu estilo; 3.o que implica territórios e, 4.movimentos de desterritorialização, a maneira como se sai do território (Idem).
Sendo um dos fios condutores do pensamento de Deleuze, a questão do desejo atravessa a sua obra, [13] e recebeu particular atenção em L’Anti-Œdipe (1972), sobretudo na quarta parte deste livro, intitulada “Introduction à la schizo-analyse”, que diz respeito às tarefas da política deleuziana do desejo (cf. SASSO e VILLANI, 2003: 251). Gradualmente, e num exercício de polivalência semântica que lhe é usual, Deleuze vai fazer equivaler ao termo “esquizo-análise” termos como “micro-política, pragmático, diagramatismo, rizomatismo, cartografia” (cf. Dialogues, ver SASSO e VILLANI, 2003: 251), e em Mille plateaux substitui definitivamente “esquizo-análise” por “micro-política”. Segundo Philippe Mengue, em Deleuze,
[a] micro-política não é uma política mas uma ética. […] é na análise da arte, pictural (v. o estudo sobre Bacon), cinematográfica (os dois tomos sobre o cinema) e literária (Critique et clinique, 1993) que a micro-política por excelência se desenvolve e se consuma. Pode-se constatar a contrario que Deleuze não deixou nenhuma análise política concreta que se relacionasse com as questões presentes, nem escreveu nenhum livro propriamente político (e quase nunca interveio na vida política). Por que esta prolixidade sobre a arte e este quase mutismo sobre o político concreto, efectivo, sobre a vida da cidade? Relativamente à decisão hic et nunc, concreta, a partir de um espaço público aberto ao debate e incidindo sobre o bem-comum, a micro-política nada tem a dizer-nos, antes, vista a própria posição do problema, tem tudo a criticar. Ela é, desde logo, libertada, em extra-territorialidade, uma vez que mais não pode fazer senão denunciar os compromissos, as negociações, os acordos “majoritários”, ou seja, o que constitui o próprio campo da política (e a sua grandeza). Deleuze não pode, dado o seu sistema, intervir neste domínio sem se negar a si próprio. Ele apenas pode apelar à irrisão […]. O domínio próprio da micro-política não é, portanto, político mas estético e ético. (SASSO e VILLANI, 2003: 257; tradução minha)
[(l)a micropolitique n’est pas une politique mais une éthique. […] c’est dans l’analyse de l’art, picturale (v. l’étude sur Bacon), cinématographique (les deux tomes sur le cinéma), et littéraire (Critique et clinique, 1993) que la micropolitique s’épanouit et s’accomplit par excellence. On peut constater a contrario que Deleuze n’a livré aucune analyse politique concrète regardant des questions présentes, ni écrit aucun livre proprement politique (et n’est pratiquement jamais intervenu dans la vie politique). Pourquoi cette prolixité sur l’art et ce quasi mutisme sur le politique concret, effectif, sur la vie de la cité? Concernant la décision hic et nunc, concrète, a partir d’un espace public ouvert de débat, et portant sur le bien commun, la micro-politique n’a rien à nous dire, mais plutôt, vu la position même du problème, tout à critiquer. Elle en est d’emblée affranchie, en extra-territorialité, puisqu’elle ne peut que dénoncer les compromis, les négociations, les accords “majoritaires ”, soit ce qui fait le champ propre du politique (et sa grandeur). Deleuze ne peut, vu son système, intervenir dans ce domaine sans se renier lui-même. Il ne peut appeler qu’à la dérision […] Le domaine propre à la micro-politique n’est donc pas politique mais esthétique et éthique.] (SASSO e VILLANI, 2003: 257)
Deleuze é, sem dúvida, um grande criador de conceitos. Na quantificação filosófica que ele próprio invocou, atribuindo números mágicos a cada filósofo, de acordo com o número de conceitos inventados (cf. “H-história da filosofia”), Deleuze seria classificado com distinção. Mesmo se não intervém concretamente na vida pública, a sua concepção de desejo forma, com todas as outras linhas da sua filosofia, por mais fugazes, uma tangente no apelo a “uma pujança para agir, […] afirmação da vida, pura positividade” (cf. VEGA, 2007: 86). O desejo é, para Deleuze, “afirmação maquinante e construtivista que caracteriza o homem ‘livre, solitário, irresponsável e alegre’” (SASSO e VILLANI, 2003: 350). E apela sempre à liberdade de cada um, ser singular na multiplicidade (cf. “U-Um”). Deleuze admite a sua petite-santé [saúde frágil] (com o diagnóstico precoce de uma tuberculose) (cf.“M-doença [maladie]”), mas também a pujança que esse estado lhe concede, comparável com o que a bebida pode proporcionar (Cf. “B-bebida”); reconhece-se velho, mas bendiz os benefícios da reforma, que lhe permitem finalmente “Ser”, depois de uma vida académica plena, e regozija-se por ter chegado ao limite do percurso. Não o “Z” de Zorro, o justiceiro, mas o “Z” de zig-zag, do movimento do parto e do voo da abelha, o movimento infinito (cf. “Z-zig-zag”), de viagem imóvel (cf. “V-viagem”), mas intensa, “des-subjectivação”. E sob o signo da alegria (cf. “J-alegria [joie]”).
A estas “tournures” de Deleuze não se acede de imediato. A proliferação de conceitos que cria ou expande, provenientes de múltiplos domínios e dotados de uma polissemia extrema e em constante mutação, contribui para a necessidade de abordagens re-dobradas. Este conjunto de dvds, que, em extras, ainda permite “entrar pelo meio”, é o “meio” próprio para começar ou para terminar a abordagem da filosofia explosiva de Deleuze, parecendo simplificar uma iniciação, adensando sempre uma leitura já competente.
Em jeito de contínuo-acção, citamos um excerto de Herberto Helder:
Esta linguagem é pura. No meio está uma fogueira/ e a eternidade das mãos./ Esta linguagem é colocada e extrema e cobre, com suas/ lâmpadas, todas as coisas./ As coisas que são uma só no plural dos nomes./ – E nós estamos dentro, subtis, e tensos/ na música. (Herberto Helder, §§ 1-7 de V de “As Musas Cegas”, A Colher na Boca [1961], Ou o Poema Contínuo, Lisboa, Assírio e Alvim, 2004, p.86)
A filosofia de Gilles Deleuze entra em ressonância com a poesia herbertiana; é uma linguagem que, no seu plano de imanência, e com muita ex-igência, nos incita a expandir “virtualidades”. E a actualizá-las. Magnificadas. Estelares. Fulgurantes.
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1952 – Hume, sa vie, son œuvre, avec un exposé de sa philosophie, en collaboration avec André Cresson, Paris, PUF.
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1965 – Nietzsche, coll. “Philosophes”, Paris, PUF.
1966 – Le bergsonisme, coll. “SUP-Le Philosophe”, Paris, PUF.
1967 – Présentation de Sacher Masoch, Le Froid et le Cruel, coll. “Arguments”, Paris, Les Éditions de Minuit.
1968 – Différence et répétition, coll. “Épiméthée”, Paris, PUF.
1968 – Spinoza et le problème de l’expression, coll. “Critique”, Paris, Les Éditions de Minuit.
1969 – Logique du sens, coll. “Critique”, Paris, Les Éditions de Minuit.
1970 – Proust et les signes, Paris, PUF. [ajout au texte de 1964 d’une “Deuxième partie” intitulée “La machine littéraire”].
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1981 – Spinoza. Philosophie pratique, [2e éd. remaniant le texte de 1970 (1re éd.) et lui ajoutant trois chapitres, numérotés III, V et VI], Paris, Les Éditions de Minuit.
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VEGA, Xavier de la – “Gilles Deleuze (1925-1995), Félix Guattari (1930-1992). Une philosophie rhizomatique ”, Sciences Humanes – Hors-Série, nº 6: Cinq siècles de pensée française, Octobre-Novembre 2007, pp.86-87.
NOTAS
[1] Esta recensão foi elaborada no âmbito do Projecto “Interidentidades”, do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Unidade I&D financiada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, integrada no Programa Operacional Ciência e Inovação 2010 (POCI 2010), do Quadro Comunitário de Apoio III (POCI 2010-SFA-18-500).
[2] Gilles Deleuze: * Paris, 18 de Janeiro de 1925; † Paris, 4 de Novembro de 1995.
[3] Como para o estabelecimento das referências bibliográficas de Gilles Deleuze, seguimos os dados de SASSO e VILLANI, 2003. No entanto, pudemos também encontrar referência à data de 2006 para o estabelecimento desta difusão – cf. http://fr.wikipedia.or/wiki/L’Ab%C3%A9c%C3%A9daire_de_Gilles_Deleuze, acedido a 15 de Maio de 2009.
[4] Cf. SASSO e VILLANI, 2003: 365. A edição que utilizamos é de 2004.
[5] Como se lê em SASSO e VILLANI, 2003: 365, encontra-se em linha uma tradução quase integral do texto, realizada por J. Stivale: http://www.langlab.wayne.edu/Romance/FreD_G/FRED&GABCs.html
[6] Todas as citações do dvd são traduzidas por mim, a partir de uma primeira transcrição que fiz. Podem não corresponder ipsis verbis (porque não reproduzo certas marcas de oralidade), mas são fiéis ao original.
[7] A série de conceitos expandidos e criados por Deleuze gera, muitas vezes, dificuldades de tradução e traduções várias. Neste caso, para “image-action”, “image-perception” e “image-afection”, em vez das “imagem da acção”, “imagem da percepção” e “imagem da afecção” propostas nesta edição, preferimos os termos também já utilizados de “imagem-acção”, “imagem-percepção” e “imagem-afecção” (Cf. a tradução portuguesa de Rafael Godinho, DELEUZE, 2004: 100).
[8] Cf. também VEGA, 2007: 86.
[9] Cf. também SASSO e VILLANI, 2003: 13.
[10] Cf. também Sciences Humanes – Hors-Série, nº 6, 2007: 71.
[11] Cf. tradução portuguesa de Rafael Godinho, DELEUZE, 2008.
[12] Adaptamos, na tradução, o termo “percept(s)”.
[13] Cf. VEGA, 2007 : 86.
[14] A partir de Robert Sasso e Arnaud Villani (dir.) – Le Vocabulaire de Gilles Deleuze, “Les Cahiers de Noesis”, nº 3, Nice, Centre de Recherches d’Histoire des Idées, Printemps 2003.
Licenciada em línguas e literaturas modernas, variante de estudos portugueses e ingleses, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde fez mestrado em estudos portugueses e brasileiros, com dissertação sobre o poeta recifense Carlos Pena Filho (no prelo), Ângela Sarmento é actualmente doutoranda pela mesma faculdade. Bolseira da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, frequentou recentemente dois semestres na Universidade de Paris 3, Sorbonne Nouvelle, tendo desenvolvido estudos no âmbito da literatura comparada. De regresso ao Porto, trabalha sobre a presença do cinema na poesia de Carlos de Oliveira, Herberto Helder e Manuel Gusmão. Em paralelo, tem publicado ensaios em periódicos nacionais e internacionais, e tem colaborado na realização e/ ou interpretação de curtas-metragens, em Portugal e no estrangeiro.
