como falar da imoralidade dos livros? – comentários a uma provocação de wilde



“Um livro não é, de modo algum, moral ou imoral. Os livros são bem ou mal escritos. Eis tudo.” – Oscar Wilde, prefácio a O retrato de Dorian Gray.

Nesta edição, a revista pequena morte. substituiu a sua tradicional entrevista por uma série de depoimentos motivados por esta provocação. Em vez de entrevistadores e entrevistados, convidamos uma série de interessados em literatura, no intuito de mostrar a impressionante heterogeneidade de pontos de partida, de desenvolvimentos e de posicionamentos que um simples trecho pode precipitar — talvez porque haja, aqui, poetas, romancistas, professores de literatura, poetas e professores, professores e romancistas… profissionais que, de algum modo, e não só pelas letras, estão ligados.

Registramos, além da satisfação em preparar esta série de textos/depoimentos, o nosso sincero agradecimento a cada participante que, além do tempo e das letras, nos ofereceu também suas opiniões, (re)lendo Wilde mais de cem anos depois e mostrando, assim, o quanto ele ainda está vivo. E também, claro, pelo gesto, em certa medida arriscado, de se mostrarem imorais e morais, algo tão peculiar às artes.

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Alberto Pucheu

Gostaria de abordar livremente a frase de Oscar Wilde a partir da poesia. Falar, a partir da poesia, de moralidade ou imoralidade seria colocar uma eventualidade qualquer, uma contingência qualquer, como essencial à poesia, mas um poema não é nada mais do que um excesso que traz em si a abertura sem fundo da poesia enquanto o ter lugar – a passagem – de seu próprio nascimento, enquanto o ter lugar – a passagem – da própria palavra. Enquanto um poema ou um livro é o excesso a manifestar o caminho da poesia, esta é a derrocada de todo e qualquer poema, de todo e qualquer livro, de toda e qualquer moralidade ou imoralidade, de toda e qualquer finitude que queira assumir o lugar de sua infinitude, na medida em que o obriga a um eterno retorno a ela mesma, desejando revelar a importância maior do fato de o poema ou de o livro precisar se colocar enquanto pura criação a se repetir infinitamente por sua diferença através da passagem poética.

Em um procedimento artístico que, ironicamente, se autonega, estando sempre por se fazer, o sentido do poema é precisar, a cada instante, renegando-se, se refazer em uma nova diferença. Recomeçar, sempre mais uma vez. Daí, também, a importância do verso, como retorno constante à passagem da criação. Nenhum conteúdo importa à poesia – ela é justamente o eclodir possível de todo e qualquer conteúdo. Todo e qualquer conteúdo é apto à poesia. Dizer que a poesia acata todo e qualquer tema é o mesmo que dizer que ela, sem ter especificamente o que dizer, é necessariamente vazia de conteúdos, ou seja, sua demasia se confunde com sua vacuidade. Qualquer que seja o conteúdo do poema, o que ele quer manifestar é a poesia, a linguagem em sua ideia ou o plano desde o qual o poema, nascendo, se realiza. Esta é a verdade da poesia (e, consequentemente, da linguagem): logo ao criar o poema, matá-lo, em uma de suas possibilidades, fazendo-o divergir de si mesmo justamente por aquilo que o faz ser o que é – a poesia.

A poesia não pode estar acorrentada ao poema enquanto gênero literário, ou melhor, ela não pode estar confundida com nenhum modo de escrita ou de fala (muito menos de moralidade ou de imoralidade) que a requeira exclusivamente. Enquanto ideia da linguagem, a poesia é o estabelecimento da dimensão porosa de todo e qualquer poema, de toda e qualquer escrita, de toda e qualquer fala, de toda e qualquer tensão entre o sentido e o som proferida pelos viventes falantes, definindo-se apenas a partir deste lugar de todos os lugares. A poesia é a possibilidade de criação de todo e qualquer modo de escrita, de todo e qualquer modo de dizer. Enquanto a poesia é passagem, o poema é sempre passageiro: ele passa, sendo levado pela passagem da poesia. Ele é sempre passado, e, mesmo que permaneça (como, de fato, permanece) enquanto presente e futuro, perdura exatamente por trazer em seus significantes a força maior de aniquilar seus sentidos estabelecidos em nome de outros que, sempre por se fazerem, se renovam. Clamando por essa abertura dos sentidos que vê em qualquer fechamento definitivo ou objetivação específica que se queira como verdade um motivo de tristeza, a poesia implica a descriação presente em toda a criação, a inoperância presente em toda operação, a inarticulação presente em toda articulação, o desimpedimento presente em qualquer caminhar do sentido, a disposição de tudo o que é passível de se dizer, o infinito que se atualiza na finitude dos poemas, o inestético presente em toda estética.

O poema leva a palavra ao limite da linguagem, ao seu ponto cego, ao seu nascimento, ao silêncio inerente a ela. Dizer que a linguagem se confunde com o silêncio é dizer que a linguagem é o pressuposto do homem, o que já está na origem e, portanto, seu próprio fundamento é indizível, anônimo, incompreensível, já que dizê-lo é dizê-lo obrigatoriamente na e a partir da linguagem. A poesia incorpora esse indizível, esse anônimo, esse incompreensível… Ela, linguagem ou poesia, não tem fundamento, pois é ela que é a origem, ainda que abissal. É do silêncio da linguagem, de seu abismo, que o poema, sem precisar nomeá-lo, jamais se afasta, relembrando-o a cada instante. Ele é o indizível de todo poema, que todo poema, enquanto poema, manifesta em si.

Na indiscernibilidade entre o material e o imaterial ou entre o formal e o informal, o que quer que esteja sendo dito em qualquer poema – eis sua estratégia – é a linguagem que está se dizendo, ou seja, a poesia, enquanto passagem da própria linguagem. O poema se coloca, então, como uma espécie de hipersemia da linguagem; nele, ela se realiza com maior evidência para que a abertura ao sentido, preservada na estância do pensamento, nunca se feche. Escrever essa abertura é o que poderia se entender como escrever bem; não escrevê-la seria escrever mal. Ou seja, colocar qualquer moralidade ou imoralidade, colocar, enfim, qualquer finitude, no lugar dessa abertura parece-me ser escrever mal, enquanto que escrever bem é manter, na escrita, a abertura aberta, não deixando-a nunca se fechar.

Alberto Pucheu (Rio de Janeiro, 1966) é poeta, ensaísta e professor de Teoria Literária da UFRJ. Em 2007, publicou A Fronteira Desguarnecida (Poesia Reunida 1993-2007) e seu primeiro livro de ensaios, Pelo colorido, para além do cinzento; a literatura e seus entornos interventivos, ambos pela Azougue Editorial, com o segundo sendo uma co-edição com a FAPERJ. No ano de seu lançamento, este livro foi o vencedor do Prêmio Mario de Andrade, de ensaio literário, da Fundação Biblioteca Nacional. Em 2008, organizou Nove abraços no inapreensível: filosofia e arte em Giorgio Agamben, também publicado em uma co-edição Azougue Editorial/FAPERJ. Desde 2007, recebe a bolsa de Jovem Cientista do Nosso Estado, da FAPERJ.



Dau Bastos

Oscar Wilde fez tal defesa em 1890, portanto em plena era vitoriana, inscrevendo seu nome na lista dos defensores da liberdade de criação. Nesse importante rol se destaca Kant, que um século antes havia publicado a Crítica do juízo, a partir da qual beleza e bondade nunca mais se confundiram. Décadas depois, Baudelaire jogaria a pá de cal que faltava na edificação, ao lançar ao mundo as Flores do mal.

Durante o século XX a linguagem ocupou definitivamente o centro das atenções, ampliando a expressão e conferindo ainda mais importância à busca formal. Paralelamente, o Ocidente se convenceu de que a moral causa doença e assumiu um certo liberalismo no tocante ao comportamento.

Hoje podemos usar o corpo e a mente à vontade, o que é ótimo. No entanto, continuamos tomados por uma sensação de vazio que, diferentemente do que o escritor irlandês pensava, arte alguma consegue preencher. Se o debochado dândi estivesse vivo, veria que o oco é cada vez mais aterrador. Mas certamente encararia a cronicidade da falta como estímulo a fazer bonito.

Dau Bastos é professor de Literatura Brasileira na UFRJ. Nos tempos de tradutor, verteu para nossa língua obras como O melhor de Oscar Wilde (2000). Entre seus livros encontram-se os romances Das trips, coração e Snif, banidos das bibliotecas públicas brasileiras durante o governo Collor, sob a alegação de serem pornográficos.



Godofredo de Oliveira Neto

Livro moral ou imoral, livro bem ou mal escrito, pois é… Penso que a frase do Oscar Wilde em Retrato de Dorian Gray abre uma bela discussão. Acho que, antes de tudo, temos que entender que a literatura é mais uma pergunta do que uma resposta. O grau de funcionamento de um texto – que corresponde aos matizes de bem ou mal escrito – não depende só do narrador, visto que deve entrar em cena o leitor. Este é um ponto que me parece importante porque retira a ideia que pode pairar por aí de que o texto reina sozinho e de que, então, é como se fosse Deus quem dissesse se ele é bem ou mal escrito. E mais: se ele é moral ou imoral! Até porque leitor e escritor não são sempre da mesma época, logo, possuem noções de beleza e de correção diferentes. Assim como de moral. Bem escrito, então, em que época e para qual leitor? Serafim Ponte Grande, do Oswald, ou o nouveau-roman do Robbe-Grillet são textos bem escritos? São obras que, dentro de uma proposta político-cultural são, sim, bem escritas. Funcionaram muito bem. Os três capítulos de Os sertões são rebuscados, floreados, de difícil leitura para os leitores de hoje, principalmente os jovens, mas é uma obra prima da literatura brasileira e parece funcionar sempre e para sempre, abrindo continuamente novas leituras. Antonio Conselheiro é louco? Ou loucos são os que enviaram o exército para Canudos?, pergunta indiretamente Euclides. Mas poderia perguntar: quem é imoral? Se o tema fosse sexo, poderia questionar ainda: quem tem aqui a função de juiz dos bons costumes? Euclides foi até Canudos para meter o pau nos fanáticos e escreveu quase uma defesa dos revoltosos. Foi imoral nesse aspecto? (Não sei se, em particular, Os sertões é diferente das duas outras obras que mencionei. Talvez os romances do Oswald e do Robbe-Grillet também permitam novas leituras. Não devo me permitir esse exercício de futurologia, mas, sobre a obra do Euclides, aposto um ano do meu salário da UFRJ que ela durará para sempre!).

Em minha opinião, devemos abrir um espaço à crítica para cercar melhor a frase do O retrato de Dorian Gray. A leitura crítica tem a função de produzir uma estrutura significante. Assim, pode trazer para frente da cena significações que estavam atrás das cortinas. Ela pode ajudar a ver se o texto é, neste aspecto, bem ou mal escrito. Como se vê, a noção de moralidade ou imoralidade vai ficando pequena. Não há realmente, então, pelo menos em sentido conceitual, livro imoral. E penso também, e repito sempre isso para os alunos da Letras, que este trabalho de significação do texto se dá no encontro com o leitor, que lerá a narrativa a partir do seu código, do seu conhecimento e, principalmente, dos seus desejos e do seu tesão pelo que está lendo.

Uma outra coisa que, a meu ver, deve ser analisada é a noção de obra clássica. Algumas obras constroem uma escala de valores estéticos que transcendem as variações de épocas e de culturas. Elas ultrapassam o público do momento em que foram escritas e admitem, por isso, interpretações sucessivas, se moldando às novas normas estéticas ou fazendo com que estas novas normas reverenciam-nas como um monumento de bem escrever já desaparecido. E isso independentemente do tema, como o incesto, por exemplo. Veja-se os Édipos e as Elektras das tragédias gregas. Ou o Bataille, com o seu incestuoso Ma mère. Ou, pouco diferente, veja-se o Canto XXXI de Dante. Ou, ainda bem pertinho da gente, a cena forte de sexo entre duas mulheres, quase um estupro da Léonie com a Pombinha, no O cortiço, de Azevedo (para leitores do fim do século XIX no Brasil!). E leia-se o Bom crioulo, do Adolfo Caminha. É que o humanismo que existe dentro de nós convive com a fera dos sentidos e das emoções. Os desejos, de qualquer tipo, são nossos, e deles a literatura não abre mão. Escrever bem, então, é tentar equacionar o conflito que existe no leitor e que o narrador conhece de cor e salteado. A capacidade do livro de tratar do conflito entre norma e ruptura (que vale até para a questão lingüística) é que vai adjetivá-lo. Pegar pelo lado moral ou imoral não é falar de literatura. Literatura é liberdade.

Godofredo de Oliveira Neto nasceu em Blumenau, Santa Catarina, em 1951, cidade onde completou o Ensino Médio. Romancista e contista com vasta e diversificada obra já consagrada pela crítica (Menino oculto foi premiado no Jabuti 2006), é Doutor em Literatura Brasileira e Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e Mestre em Letras Modernas pela Universidade da Sorbonne, Paris-III, onde também se graduou em Letras. Sua obra ficcional é estudada em universidades como a UFRJ, Unicamp, UFSC e UFMA. É diplomado pelo Instituto de Altos Estudos Internacionais da Universidade da Sorbonne, Paris-II. Leciona Literatura Brasileira na Faculdade de Letras da UFRJ desde 1980, onde também ensinou Língua Portuguesa. Foi professor de Literatura Brasileira na Universidade da Sorbonne e ministrou um ciclo de palestras sobre o tema na Universidade de Aarhus, Dinamarca. Convidado recentemente pela Georgetown University para comentar seu mais recente livro, fez conferência nesta instituição sobre o romance Marcelino no contexto da Literatura Brasileira contemporânea. Escreve em jornais e revistas sobre literatura e cultura. Exerceu cargos públicos na área educacional nos níveis federal, estadual e universitário. É Embaixador para a América Latina da Academia Européia de Ciências, Letras e Artes, com sede em Paris. Foi condecorado com a Medalha Cruz e Sousa do Estado de Santa Catarina por sua obra literária. Recebeu a Medalha da Academia Brasileira de Letras em comemoração aos 110 anos daquela instituição. É membro titular do Conselho de Cultura do Estado do Rio de Janeiro e Presidente do Instituto Internacional de Língua Portuguesa da CPLP, com sede na cidade da Praia, Cabo Verde.

É autor dos seguintes romances: O bruxo do contestado (Nova Fronteira, 1996), Pedaço de santo (Nova fronteira, 1997), Marcelino Nanmbrá, o manumisso (Nova Fronteira, 2000), Oleg e os clones (Nova Fronteira, 1999), Ana e a margem do rio (Record, 2002), Menino oculto (Record, 2005) e Marcelino (Imago, 2008).



Joana Matos Frias

É minha convicção que todo o grande artista tem algo de profundamente aristo¬té¬lico, e Wilde não escapa a esse destino grandioso. A sua declaração de intenções na aber¬tura dessa obra-prima da narrativa moderna que é O retrato de Dorian Gray é uma declaração da arte pela arte bem do seu tempo, mas é também a afirmação de pertença a uma tradição estética e poética que Aristóteles de algum modo principia com a sua pos¬¬tura anti-pla¬tó¬nica, como facilmente se confirma por duas passagens muito próximas desta no mesmo Prefácio: “O artista é criador de coisas belas” e “Um artista não quer provar coisa alguma. Até as coisas verdadeiras podem ser provadas”. Eis o Belo e o Verossímil. E eis o Artista, iluminando a função representativa de “um livro”, cuja signi¬fi¬cação orientada para o campo literário assim se esclarece. Gilbert lá assumirá a ascendência, no magnífico The Critic as Artist: With Some Remarks upon the Impor¬tance of Doing Nothing, ao qualificar a Poética de Aristóteles como “one perfect little work of aesthetic criticism”, antes de proferir o desconcertante juízo final, já na segunda parte do ensaio, With some Remarks upon the Importance of Discussing Everything: “All art is immoral”.

Algum tempo antes de Gilbert emitir estes juízos, no centro do debate setecentista que possibilitará a existência de um Oscar Wilde, Kant lembrava com toda a pertinência que a arte não é uma representação de coisas belas, mas uma bela representação de coisas. Quer dizer: Wilde, como Kant, concentra o desígnio da arte, neste caso literária, no campo estético, afastando-o com toda a clareza do campo lógico (i. e., do campo domi¬na¬do pela categoria do Verdadeiro), do campo prático (dominado pela categoria do Útil – e não esqueçamos que a última consideração deste Prefácio é mesmo “Toda a arte é per¬fei¬tamente inútil”) e do campo moral (dominado pela categoria do Bem), não deixando de equacionar o factor estético como um factor imanente, já que a kantiana “bela represen¬tação de coisas” se converte, por metonímia, na própria escrita: “os livros são bem ou mal escritos”. Para Wilde, portanto, visceralmente moderno, um livro é uma escrita, a lite¬ra¬tu¬ra é a escrita.

O facto de habitarmos um tempo pós-Auschwitz parece poder perturbar uma refle¬xão como a de Oscar Wilde, sobretudo se tivermos em mente a filosofia moral de Adorno e o seu célebre dictum, segundo o qual escrever poesia depois de Auschwitz seria “bárbaro”. A invalidade – ou invalidez – da literatura depois de Auschwitz tem na sua raiz um pressuposto moral iniludível, que interfere directamente na escrita, por¬quanto o bárbaro, num sentido que aqui importa resgatar, é justamente o que não es¬cre¬ve. Depois de Adorno, por conseguinte, depois de Auschwitz, depois da banalidade do mal denunciada por Hannah Arendt, a escrita só pode ser uma não-escrita, a ética aprisiona a estética, não a deixa articular-se em linguagem. Ainda assim, este é o lugar da mais pura aporia, já que, desde Auschwitz, tal aprisionamento tem levado a Arte, e a Literatura em par¬ticular, a construir um percurso pautado por uma procura que as palavras de Beckett mag¬¬ni¬ficamente exprimem: “No matter. Try again. Fail again. Fail better”. Assim, depois de Auschwitz, os livros bem escritos são os que falham de novo para falhar melhor. E também aqui não há livros morais ou imorais. Imoral é não tentar de novo. Imoral é não falhar de novo para falhar melhor. Imoral é não escrever. Imoral é não escrever bem. Talvez Gilbert agora já pudesse dizer que toda a arte é, em última instância, profundamente moral.

Joana Matos Frias (Portugal, 1973) é professora auxiliar na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e investigadora do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa. Autora do livro O erro de Hamlet: poesia e dialéctica em Murilo Mendes (Rio de Janeiro, 7letras, 2001) — com que venceu o Prémio de Ensaio Murilo Mendes —, responsável pela antologia de poemas de Ana Cristina César Um beijo que tivesse um blue (V. N. Famalicão, quasi, 2005), e co-responsável (com Luís Adriano Carlos) pela edição fac-similada dos Cadernos de poesia (Porto, Campo das Letras, 2005). Tem publicado diversos ensaios nas áreas da Estética Comparada, da Teoria e da Crítica literárias, sobre autores como Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto, Adélia Prado, José Régio, José Gomes Ferreira, Eugénio de Andrade, Albano Martins, João Rui de Sousa, Vergílio Ferreira, Nuno Guimarães, Ruy Belo, Manuel António Pina, Vasco Gato, Jorge Melícias, valter hugo mãe e Daniel Faria. Em Outubro de 2006 doutorou-se com a dissertação Retórica da imagem e poética imagista na poesia de Ruy Cinatti. Em 2009 co-organizou, com Pedro Eiras, o Colóquio Internacional e Interdisciplinar Artes da perversão.



Luis Maffei

Dizer hoje da relação entre moral e livros não é o mesmo que no tempo de Oscar Wilde. Não há muito do que então havia, há muito do que então não havia. O problema das teses, para quem as levanta – proponho um comentário ou uma tese? –, é a sedução de esquecer que qualquer tese (ou comentário?) situa-se: na história, no tempo, num lugar. Assim, neste momento, neste tempo, neste lugar, que tipo de moral quer segurar minha mão quando escrevo um livro? Não a que constrangia Wilde a ser distinto de sua própria mão. Trata-se de outra, portanto, que me permite dizer: todo livro de poesia editado (restringir-me-ei à poesia, que é o que faço) no Brasil hodierno é moral e imoral, é um gesto que se debate com muitos modos e costumes. Não estamos na Irlanda, nem na França, nem no século XIX, nem na Terra do Nunca.

Que morais, então, jogam o jogo? A do vale-tudo é uma delas. Escrever (aqui e agora, e sempre direi daqui e dagora a partir daqui e dagora, e deixo de dizer mais abrangentemente sobre livros e moralidades, desculpem) qualquer livro que se pretenda de poesia é moral, pois livros não têm sido muito poderosos: há circuitos, diversos, e estar no circuito é moral. E funciona. Falar de e com livros também não basta, pois, aqui e agora, a poesia e sua leitura não bastam: há saraus, erudições falsas, performances e autocentramentos sortidos. E isso também funciona. O que não há é combate – sequer com a existência, sequer com a morte –, e não havê-lo é bastante moral. Por outro lado, há musiquinhas, contentamento, letras de música, bastante sol e muita vaidade, pois livros não bastam, e falar de moral na poesia brasileira de agora (peço desculpas de novo, não vou sair daqui nem dagora) é falar de uma coerência profunda entre o que vai nos livros (e nas revistas, e nas musiquinhas, e nos saraus) e fora deles.

Toda essa moral é profundamente imoral – ainda bem que existem exceções, é evidente. Toda essa moral veste a poesia brasileira dagora duns vestidinhos pouco poéticos, muito brasileiros, num nefando sentido, porém nada brasileiros. Porque aqui estamos e, ou praticamos a moral que funciona nos circuitozinhos up to date, ou praticamos outra. Que outra? Uma moral mais ética que moral, que seja atenta a uma infelizmente pouco atual ideia de público, bem distinta da que se tem praticado – penso na diferença entre a moral vigente e uma dicção que se situe dentro do mundo, mas no que o mundo tem da complexidade que se encontra fora dos salõezinhos, fora da tristíssima e vigente lógica do camelô. Nos salõezinhos não há hostilidade, há carícias e muitas ameias. Fora deles, camelôs de verdade, amores, gente, linguagem, linguagem, bibliotecas, linguagem, morte e diverso vazio. E muita poesia em muitos livros. E pouca poesia brasileira nas bibliotecas, pouco norte a constranger o que se tem feito. Nossas referências poéticas, infelizmente, não nos dão muito solo, e o que seria liberdade acaba sendo um balaio de débeis gatos.

Estirpes extra-ameias em livros de poesia serão, é claro, também morais, mas numa perspectiva extremamente discordante, pois haverá algum princípio a regê-las. Bem-vindos sejam os princípios, bem-vinda uma moral pública que forneça alguma imoralidade (com camelôs de verdade, hostilidade, amores, gente, linguagem, linguagem, vazios e erudição a sério) ao que se faz aqui e agora.

E, ainda que mais vivo que muitos vivos, Oscar Wilde está morto.

Luis Maffei (Brasília, 16 de fevereiro de 1974) é Professor de Literatura Portuguesa do Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense. Doutorou-se em 2007 pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com a tese “Do mundo de Herberto Helder”. Como poeta, publicou A (Rio de Janeiro: Oficina Raquel), em 2006, e Telefunken (Rio de Janeiro: Oficina Raquel), em 2008 – a edição portuguesa deste livro foi recém-lançada pela Deriva. Como músico, lançou, em 2004, o disco na mesma situação de blake, em parceria com Marcelo Gargaglione. Coordena, para a editora Oficina Raquel, a série Portugal, 0, dedicada à novíssima literatura portuguesa, responsável pelas antologias brasileiras das obras de Manuel de Freitas, Rui Pires Cabral, Luís Quintais e Pedro Eiras. Tem textos publicados em diversos periódicos de literatura, como as revistas Gragoatá, Metamorfoses, Relâmpago e Telhados de vidro.



Pedro Eiras

(o peso da mão – alguns parênteses)

(Tudo é moral ou imoral, quando é tocado por quem escreve: onde a mão toca – arde, ferida adentro. Não poderíamos sair da prisão de dor que nos prende os movimentos. Isto é: nos anima. Trocamos maldições, em suma, apenas isso, e isso é tanto. Porque de maldições se faz a bênção, onde menos se espera. E porque não se espera.)
(Como sabe quem essa frase – “um livro não é moral” – disse. Porque ele também animou gigantes e andorinhas, príncipes e amigos devotados, coisas morais, mortais e magoadas. Depois – depois: a máscara de Dorian, o desprezo que se ostenta. Outra face, mas de moeda falsa. Também isso é moral, aliás. A frase. A obra. A duplicidade de ambas.)

(Onde se toca – arde: também estas palavras, minhas. E todas as palavras, todas.)

(Contestar a provocação de Wilde com um regresso à moral – é um gesto conservador? mas é também um regresso ao imoral… Além disso, seria absurdo deixar de contestar Wilde só por medo de puritanismo; ele não nos merece uma tal timidez.)

(Há também o místico, consta. Para o qual nada é moral, nada imoral; mas ainda menos nada bem ou mal escrito – portanto, não é o mesmo que diz Wilde. Mas admitamos: uma leitura do mundo em que nada já tem peso. Admito; e fecho a porta, não sei ir por aí. Um animal sabe, um deus também; eu não.)

(Tudo é moral, até o imoral, até o dizer que não há moral, sobretudo isso. Até o livro bem escrito, mal escrito. Mas que tudo seja moral não explica: onde está o moral, onde o imoral. Qual página? Qual palavra? Que segredo último, retorno do recalcado, tentação dissimulada, sob a letra? Pesa-nos a maldição, mas não sabemos onde: como ficar acordado nessa noite infinita? A distracção mata. De facto. E estamos sempre distraídos, para respirar, sobreviver.)

(De maldições se faz a bênção, mas: onde está a maldição? onde a bênção? como se reconhecem essas duas máscaras, a frente e o avesso? sob o perdão a culpa, sob a inocência o pecado. Nenhuma palavra se identifica. A palavra – olhas para ela – já não é mesma. Porque nós lemos, lemos, lemos, lemos, lemos – nunca sabemos quando devemos parar, dizer: este é o sentido, compreendi.)

(Lê de novo.)

Falha de novo.

Pedro Eiras (Portugal, 1975) é Professor de Literatura Portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Desde 2001, publicou livros de ficção (Anais de Pena Ventosa, Estiletes, Os três desejos de Octávio C. ), teatro (Antes dos lagartos, Passagem, Um forte cheiro a maçã, Recitativo dos livros do deserto, As sombras, Um punhado de terra), poesia (Arrastar tinta) e ensaio (Esquecer Fausto, A moral do vento, A lenta volúpia de cair). Com Esquecer Fausto, ganhou o Prémio PEN Clube Português de Ensaio em 2006. Tem peças de teatro traduzidas, publicadas, encenadas em diversos países: Portugal, França, Grécia, Eslováquia, Roménia, Brasil.



valter hugo mãe

Não podemos sucumbir à tentação de garantir se Maquiavel era maquiavélico ou Sade um sádico. Importam os livros, os autores são interessantes como fait divers apenas, devem apenas satisfazer a curiosidade por vezes decente de nos sentirmos partilhando ideias com quem admiramos. Neste sentido, o livro deve ser lido como um objecto abandonado ao mundo, versando como lhe aprouver sobre o que lhe aprouver, sem induzir a perseguição de ninguém. O livro deve ser um conteúdo vivo de liberdade, que diga o que quiser, nada do que fica em texto, pela força da literatura, pode ser ofensivo, apenas será retrato de si mesmo, do livro, não do seu ou seus autores. Falo do livro criativo, aquele que se suporta sobretudo na imaginação e que propende para a arte. A arte não pode ofender, não é uma capacidade que tenha, e se ofende, ou choca, é porque o seu espectador não a entende. Eu faço os meus livros como se pusesse em marcha um ser novo, que se articula por si próprio e se responsabiliza por si próprio. Enquanto autor, devo ser deixado sossegado, como alguém que remotamente tem uma relação com o livro, mas já nenhuma relação fundamental. O livro, depois de acabado e publicado, pode ser melhor entendido e melhor estudado por uma outra pessoas que não eu. Eu terei sempre dele uma leitura e uma interpretação especiais, mas nunca a melhor leitura, a mais correcta, a mais precisa. Seria imoral perseguir um livro como louco e reclamar a sua propriedade como obrigando os leitores a interpretarem-no como eu quero. Seria como ter uma filha e não permitir que se tornasse mulher por seu livre arbítrio em amor/conflito com um outro homem que não eu.

valter hugo mãe nasceu em Angola, na cidade de Saurimo, a 25 de setembro de 1971. Passou a infância em Paços de Ferreira e vive em Vila do Conde desde 1981. Licenciado em Direito, pós-graduado em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea. Publicou três romances: o apocalipse dos trabalhadores, em 2008 (3.ª ed. em fevereiro de 2009), o remorso de baltazar serapião, em 2006, Prémio José Saramago, (4.ª ed. em fevereiro de 2009), e o nosso reino, em 2004 (reedição em abril de 2009). Os três romances estão agora disponíveis com chancela da Quidnovi.

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