cinco poemas – virgínia boechat
Kamchatka [1]
quem pode dizer onde
é possível resistir
se o nome é esse quase
impronunciável território
península pensa em traços
e pedras presas no meio gelado
de um mapa
território impronunciável quase
esse é o nome
se resistir é possível
Carta da baía
por força dos inquietos materiais
que se operam no terreno arenoso
das palavras era 8 de maio
de 1558 e de Manuel da Nóbrega
ficam projetos para algodão e feiticeiros
e ficam o litoral a carta a língua
ficam no formato de não serem os mesmos
eu que habito tão pouco de cristãos
e carne humana em mim nem ao menos percebi
as pontas perigosas daquele dia
feito de inquietos materiais
fica a data no formato de não
ser a mesma
Vermelho Vétheuil Higienópolis
Para algum lugar de encontro
entre o reto ângulo e vidro
digo semicírculo flor ladrilhos
roubado o campo das papoulas
abriu-se em todos os jornais
o canteiro exausto sobre a cama
vermelho de quase estar
quisera gramados que não crescem
sol nascente crianças burguesas
de manchas
Que direi caso sejamos de tinta
e não exista nem mais Giverny
onde Luís diria Mariana
entre os lábios para sermos
de nome?
Errata
não espere mais do que um dia
nascer em Minas e nadar aos domingos
em água barrenta de chuva ou rio
nem mais que um abraço
no jogo de futebol e primos
nem espere mais que perder
um amor na linha do mar nem mais
que chorar no banho nem menos
que o aniversário de um amigo
que beijos urgentes na tarde livre
não espere ter mais
do que sabe e acredita
que conta bancária filho na porta
do colégio em Copacabana
não espere
Caçada
com que dedos tocar
a carne arredia da vida
que unhas prender
suas roupas em desespero
perdidas nem largas
nem justas
com que dentes morder
seus momentos suspensos
cravar arrepio músculos
à pele que se marca
com que arma
à mão nua?
[1] Os poemas aqui publicados estão em Prelúdio para arco e flecha (2008).
Virgínia Boechat nasceu em Belo Horizonte em 1977. Graduou-se em Letras pela UFRJ, é mestre em Estudos de Literatura pela PUC-Rio e cursa o doutorado em Literatura Portuguesa na USP. Prelúdio para arco e flecha, lançado em 2008 pela Oficina Raquel, é seu livro de estréia em poesia.
