sobre o fim da filosofia, do homem e da razão – rommel luz
Somente enquanto criadores podemos destruir! – Mas não esqueçamos também isto: basta criar novos nomes, avaliações e probabilidades para, a longo prazo, criar novas “coisas”. [1]
O problema posto naquele que ficou conhecido como O mais antigo programa sistemático do idealismo alemão é o da humanidade, ou melhor, o de um projeto de humanidade. E tal projeto está calcado na capacidade criativa da humanidade, na poiesis; daí o papel central que ocupa a poesia neste escrito, como a manifestação maior dessa capacidade criativa do homem, e que, sendo tal, é merecedora do título e da função de “mestra da humanidade”. O que é mais significativo neste escrito, que é um manifesto, é que, nele, a moral, a ciência, a sociedade, a história, a arte e a religião se dispõem a partir da idéia de liberdade enquanto capacidade criativa. Capacidade essa que desloca-se do Deus criador da religião cristã para o espírito humano. A dignidade da divindade volta-se para o homem, e a “nova mitologia” proposta no texto deveria ser uma mitologia fundada sobre essa idéia.
Diante desse monumento erguido pelo pensamento humano em nome de sua capacidade criativa, a reverência que faço é acompanhada de uma crítica. Crítica aliás, que se encontra dentro do espírito desse mesmo monumento, nas raízes que o alimentam e sustentam. Essa crítica é despertada pelo olhar lançado a um outro monumento à capacidade criativa do homem, o escrito Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral, de Friedrich Nietzsche, que dista em mais ou menos oitenta anos daquele. O ponto, central no Programa, e que é alvo do martelo nietzschiano, é o esquecimento quanto à historicidade, à perecibilidade de todo projeto de humanidade. Característica essa que advém da própria natureza criativa do espírito humano sobre a qual ele se sustenta e da qual se nutre. Muito ao contrário de estar para além da história, a criatividade humana, que funda essa história, está ela mesma na história. E isso quer dizer primordialmente: mesmo a capacidade humana de criação está fadada a perecer. Somos uma espécie que habita um astro do sistema solar que vai um dia desaparecer, e mesmo a poesia, que, segundo os jovens de Tübingen, sobreviveria a todas as ciências e artes, não terá mais lugar em meio à poeira cósmica. Ante esse argumento, aquele que postula o deslocamento da capacidade criativa de Deus para o homem, emudece. Mas, ao contrário do que poderia pretender algum teólogo, Nietzsche não propõe uma volta ao cristianismo. Seu escrito tem antes a intenção de enfrentar o niilismo que brota da perspectiva da destruição da espécie, de sua inevitável temporalidade, através do mergulho na capacidade criativa do homem enquanto tal, isto é, em sua historicidade, em sua perecibilidade. A “faculdade de criar” do homem aparece como a capacidade mesma do homem de superar sua maior fragilidade. Se a vida humana é destituída de um sentido per se, o homem é capaz de cunhar um sentido para ela. O homem é capaz de criar e a mais sublime e também mais frágil criação humana é o sentido que ele é capaz de dar à vida. E o devir é inclemente. Um sentido cunhado está destinado a ser um dia superado, mas ele pode e deve ser superado por um outro sentido. A motivação para o cultivo do homem, que era encontrada na imperecibilidade deste ao nível da espécie, é encontrada agora na luta pela sobrevivência. Toda eternidade que o homem pode alcançar é frágil.
O protesto nietzschiano, donde a inevitável crítica ao projeto de humanidade do Programa, é contra o enrijecimento. Ele se volta contra a estagnação, contra a paralisia de um paradigma que se instala, e, ao se instalar, esquece de onde extraiu a força para se estabelecer, passando a protestar contra qualquer outro movimento de criação, dando-lhe a pecha seja de heresia, seja de loucura, ou mesmo de irracionalismo. O egipcismo de toda criação que se petrificou numa forma “imutável” guarda em seu âmago o nada que, por paradoxal que pareça, o tornou possível. A razão nasce do combate ao niilismo e não do combate ao irracionalismo; este surge junto a ela, como seu contraponto. A luta da razão contra o niilismo é a luta da vida contra a estagnação. Em vez de legitimar-se, firmar de uma vez para sempre seu domínio, a razão tem que “lançar-se” no movimento do devir, transformar-se, transfigurar-se para continuar existindo. A razão é protesto contra o niilismo, e só se vence o niilismo ao se encarar o devir e extrair dele força criadora. Uma razão que serve à vida é uma razão que se desvia do egipcismo e busca novas formas para ela mesma. Assim a razão, assim o homem, assim a filosofia. O fim da filosofia é o fim da razão, o fim do homem. Um fim que só pode ser decretado definitivamente pela consumação do astro que abriga as estranhas criaturas filosofantes que são os homens. Se a filosofia institui, constitui razão, então o fim da filosofia é sempre o fim de uma filosofia, aquela que institui aquele modo de racionalidade que finda. Mas seu fim é também seu renascimento. Da própria morte, de sua própria morte, a filosofia haure a vitalidade necessária para ressurgir, para constituir mundo novamente, para parir uma vez mais a razão, uma outra, tal qual ela, nascida das cinzas de si mesma. Doutra maneira, a filosofia, esta filosofia de agora, se esqueceria de que é uma segunda natureza que tornou-se uma primeira natureza. Quando a soberba ganha lugar no coração do homem, e este quer ser ele mesmo um deus, então o devir anuncia sobre ele a sentença cabível a todo aquele que um dia veio a ser. Se dermos ouvido a fala do louco Nietzsche, o que o homem deve fazer para enfrentar o niilismo, e com isso “protestar” contra o devir, é superar não só Deus, mas o próprio homem. Se o Programa proíbe o homem de buscar Deus e a imortalidade fora de si, Nietzsche nos diz para superá-los em nós. A morte de Deus é também a morte do homem, e também a da filosofia. A de uma filosofia. O poder que nos salvará desta morte não pode estar em nenhum daqueles que morreram, mas na luta pela sobrevivência. Diante do perecimento daquilo que somos, temos que buscar renascer, irmos além de nós mesmos. Ao homem cabe ir além do homem; à razão e à filosofia não pode caber outro destino.
NOTA
[1] F. Nietzsche. A gaia ciência. Tradução, notas e posfácio de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, § 58, p. 96
Rommel Luz nasceu no Rio de Janeiro em 1981, onde mora. É doutorando em Filosofia, com pesquisa em ética e filosofia política, na UERJ, onde também cursou graduação e mestrado, ambos em Filosofia.
