quatro poemas – audemir leuzinger
exú
você é um dos que abrem os livros
e mostra a linha perfeitamente escrita do destino
ou do atalho para o riso frouxo
mostrou-me como apesar de sucessivos
poderiam ser baixos os muros
cão negro que me conduziu protegendo
anjo da guarda como qualquer outro
graças a você estou sempre com os tolos e insensatos
com todo meu coração
falo com as populações do deserto
chamo cada chuva pelo nome
desenho símbolos invisíveis com as mãos
recito o que tenho sob a pele
e batizo toda linha reta de eclipse
simpático que sou aos Judas de um Sábado de Aleluia
sem dar notícia meu sangue vira sereno
diferente do orvalho
e nunca ordinária água
aprendemos a caminhar juntos
temos planos para os tolos de primeira viagem
os marinheiros de segunda
os vencedores de terceira e todos que nasceram às quintas-feiras
com bissextas aparições
somos os guardas dos nossos irmãos
guardaríamos Caim e Abel como se Cosme e Damião fossem
mostrando o caminho do meio na encruzilhada vazia
nas linhas que se cruzam
equilibro numa balança meu coração e uma pluma
você diz como os alquimistas:
para os galhos de uma árvore tocarem os céus
suas raízes devem alcançar o inferno
caminhando com você
sempre de branco
com um lenço vermelho no bolso
com Nosso Senhor Jesus Cristo
deixando para trás o túmulo do útero
para alcançar o útero do túmulo
nossos passos ecoarão na Ladeira da Montanha
até encontrarmos o Ancião dos Dias
ao pó (através do Gita)
um poeta escreveu um livro
please, plant this book, richard brautigan
um livro de instruções
os poemas eram rótulos em saquinhos de sementes
nenhum grão de mostarda
no espaço do jardim quero:
horta, pomar, bosque e labirinto
sweet alyssum royal carpet
sasha daisy
squash star fruit aspen
parsley
alface california native flower
carnation willow water violet
cenouras flor-de-mel pomegranates
calendula
penso se alguém seguiu suas orientações
queria plantar meu livro de poemas
não possuo semente alguma
nem livro algum
plantarei este poema
e as flores que brotarem
deverão ser colhidas pelos longos dedos enlutados de
uma verdadeira dama da noite
estranhos negócios estes que temos com a terra
feitos dela
pesados como ela
esta intransferível passagem de ida e volta que recebemos
antes de chorar
os coveiros deveriam reflorestar
madeira para ataúdes
replantar as mesmas árvores
que os romanos usavam para fazer cruzes
falo ao carpinteiro que me conta estórias
as primeiras idéias sempre vão para o solo
diz mais saber das águas e dos ares
e que a terra tampouco lhe foi leve:
não me interessa o que vira pó
paletós de madeira e afins
já que sabes do pó ao pó
concentre-se na jornada
a cada vez que deus inspira
nos sentimos voltando para casa
ondas e vagas
alice encontra a lagarta
para alice está tarde para as palavras
sobre o lindo cogumelo gigante a lagarta oferece a névoa reparadora
some alice como se fosse o ar
“nas mesmas águas que o místico nada o drogado se afoga”
eu e alice nunca passamos da arrebentação
em alto mar todas as ondas são vagas
não quebram simplesmente
sua arte é perambular.
nem com todos os aterros
possui a terra a pedagogia das águas
matamos a circum-navegação
e nossa arte de vagar
um rochedo precioso atirado em alto mar
é mais túmulo que adorno
viração
os ventos do meu bairro não conhecem cotidiano
os ventos do meu bairro não conhecem monotonia
pouco conheço de rotina
assim como não conheço muita gente onde moro
mesmo assim
poderia ser o historiador da minha aldeia
esquecer que é um bairro da cidade
assombrando as ruas
como prisioneiro de uma certa morte trágica
que possam lembrar do meu nome
como guardião da memória
e me rebatizem como praça
quando já não for mais de carne
que eu possa de novo sentir a chuva
e o ruído da minha alcunha
acordado ficou que signos são de ar
mutável em gêmeos
fixo em aquário
cardinal em libra
que a brisa atravesse as cartas manuscritas
e que eu possa ser a viração
a viração das três e meia da tarde
Audemir Leuzinger é escritor, tendo publicado o livro de contos Branca, e também professor de língua inglesa. Morou em Belém, Recife, Salvador, Rio de Janeiro, Londres e Nova Iorque, e é apaixonado pelo Fluminense Football Club.
