"o chão é um atlas das viagens que faço": uma entrevista com nuno júdice


Nascido em 1949, em Mexilhoeira Grande (Algarve, Portugal), era um jovem poeta nos anos setenta em busca de seu espaço de escrita num forte panorama lírico que já contava com as vozes de Carlos de Oliveira, Ruy Belo, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz, Luísa Neto Jorge e Herberto Helder. Trinta e sete anos depois, sua extensa obra literária é das mais reconhecidas em Portugal, traduzida em diversas línguas, com predomínio da poesia sobre a prosa, também algum teatro, e importantes incursões pela crítica literária, representativa de seu magistério universitário (é professor de literatura na Universidade Nova de Lisboa, onde defendeu em 1989 sua tese sobre Literatura Medieval: O espaço do conto no texto medieval, posteriormente publicada pela editora Vega, em 1991), além de presença assídua como cronista ou crítico em inúmeros jornais e revistas portugueses e internacionais. Desde o seu primeiro livro, A noção de poema (1972), preocupa-se sobremaneira com a realização do texto e a compreensão da atividade poética, questionando o sujeito lírico e sua existência no papel e no mundo. Em 1991, publicou Obra poética, reunindo seus livros de poesia editados de 1972 a 1985. Em 2000 voltou a publicar o conjunto de sua obra poética, Poesia reunida (1967-2000) , incluindo um poema de 1967 e um texto de prosa poética, de 1970. Com regularidade, vem publicando outros livros de poesia (o mais recente se intitula A matéria do poema, pela Dom Quixote, 2008), intercalando-os com obras narrativas e ensaísticas, destacando-se entre estas: O processo poético, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1992, Viagem por um século de literatura portuguesa, Relógio d’Água, 1997, As máscaras do poema, Aríon, 1998 e A viagem das palavras, Colibri, 2005. No Brasil, publicou-se uma antologia de sua poesia, Por dentro do fruto a chuva, pela editora paulista Escrituras, em 2004.

Entrevista concedida a Ida Alves e Luis Maffei.

Nuno Júdice, sua obra poética, em prosa e ensaística, é, hoje, um conjunto internacionalmente reconhecido, seja pelas traduções, pelo prêmios ou pelas referências em inúmeros estudos universitários. Há, aliás, duas antologias de sua poesia publicadas no Brasil. Também, mais recentemente, aumentou um pouco o movimento de edição de autores portugueses no país. Como você avalia, no que diz respeito à divulgação de poesia, esse diálogo editorial entre as duas nações de língua portuguesa?

Depois de um período em que não houve praticamente contacto entre as poesias portuguesa e brasileira, a partir do desaparecimento de grandes poetas como Drummond de Andrade, Vinícius e João Cabral de Melo Neto, que foram os últimos a ter um público fiel em Portugal, assistiu-se nos últimos anos ao retomar de uma publicação regular de poetas e antologias brasileiras. É uma mudança positiva, e nomes como Manoel de Barros, Eucanaã Ferraz, Ferreira Gullar e Ivan Junqueira, entre outros, estão acessíveis a leitores de nosso país. É ainda insuficiente, mas corresponde a uma nova fase de aproximação, que deverá ser mantida e desenvolvida.

O diálogo entre artes é uma constante em sua obra, especialmente com a pintura. De onde vem essa fascinação? E que implicações ela exerce sobre a compreensão da imagem poética?

Este diálogo tem origem no meu interesse pelas telas, que existe desde quando eu fizera um pequeno curso de história da pintura no Museu do Louvre, aos 16 anos. Desde então, não deixei nunca de manter um contacto regular com todas as épocas desse gênero artístico. Leonardo da Vinci tinha uma frase que dizia que “a pintura é coisa mental”, e eu a transformei em “a poesia é coisa visual”. É esta procura da imagem, e de fazer com que o poema suscite a sua visão e a sua aparição de forma real ou epifânica, que acompanha os vários períodos da minha escrita poética, sendo algo a que sempre me mantive fiel. Isto não implica que eu descure o lado verbal do poema e a sua realidade material fónica, mas também aqui há uma adequação, tomada como base do processo de escrita entre esse lado sonoro, musical, do poema, e a imagem que dele emerge.

Qual o projeto (se é que há um projeto…) motivador de seu último livro de poesia, A matéria do poema (2008), que se inicia com uma “Poética”: “Quero que o meu poema fale de barcos e de azul, fale/ do mar e do corpo que o procura, fale de pássaros e/ do céu em que habitam. Quero um poema puro, limpo/ do lixo das coisas banais, das contaminações de quem / só olha para o chão; [...]”?

Este poema apareceu como um “manifesto” contra certa idéia de poesia surgida recentemente em Portugal, que defende que o poema deve se reduzir a uma escrita de banalidades, apresentada também de forma banal. Não digo que não se possa fazer poesia dessa forma. Porém, reduzi-la a isso é sem dúvida um empobrecimento do próprio conceito do poema como motor transformador da nossa relação com a língua, e também do poema como produto de um trabalho que passa não apenas pela captação “sensível” dos seus elementos referenciais (refiro-me aqui à alquimia subjectiva que a leitura do real determina na sua passagem para o papel), mas também pela escolha cuidada do modo como o universo verbal e imagético se estrutura dentro do poema. Devo dizer que também olho para o chão – e lembro-me do que um poeta surrealista esquecido, José Sebag, um dia me disse, na praça do Saldanha dos anos 1960, quando o encontrei vendo o passeio empedrado: isto são mapas. O chão é um atlas das viagens que faço. Este meu livro de 2008 é um momento importante de fixação de um percurso que tenho feito desde a Geometria variável, associando a vivência do quotidiano, em aspectos diversos, a modelos clássicos, e somando as formas que daí decorrem. Há quem não tenha compreendido isto – mas devo dizer que não escrevo para os críticos, nem em função de visões feitas da minha obra.

Como leitor constante de poesia, e falando para leitores brasileiros que, na grande maioria, desconhecem a poesia portuguesa mais contemporânea, que outros poetas ou obras poéticas você indicaria, para que seja realizada uma espécie de “reconhecimento de terreno”?

Julgo que poetas importantes surgiram nas últimas duas décadas, alguns já consagrados, como Ana Luísa Amaral, Fernando Pinto do Amaral, Luís Quintais e Manuel Gusmão; e outros que já dispõem de uma obra que aponta caminhos novos, como Maria Andresen, Filipa Leal e Rui Pires Cabral. Também podia referir José Luís Peixoto e Gonçalo M Tavares, que têm uma obra poética significativa, além de Rui Lage, Rui Cóias, José Mário Silva.

Num determinado momento de sua obra poética, que talvez possa ser situado à volta de Teoria geral do sentimento (1999), o amor se tornou um tema recorrente, uma emoção esquadrinhada por múltiplos caminhos. Por quê?

Os dois grandes temas da poesia são o amor e a morte. Tratei muito da morte e do tempo nos meus primeiros livros, e julgo que, para que se possa falar de um modo novo sobre o amor, são necessárias alguma distância e alguma maturidade de escrita. Embora tenha estado sempre presente nos meus livros, talvez muitas vezes de um modo oculto ou secundário, foi também a partir da minha releitura de Camões e de poetas como Éluard e Neruda que pude desenvolver certas linhas poéticas, posteriormente incluídas em meus últimos livros.

Ruy Belo, em verso já famoso, afirmou que “Pessoa é o poeta vivo que me interessa mais”. E para o Nuno Júdice, há algum poeta que lhe desperta mais interesse?

Sem dúvida o Pessoa, o ortónimo e o Álvaro de Campos, continuam vivos para mim, e neles descubro sempre coisas novas. Porém, os poetas que tenho ao meu lado são mais recentes: Jorge de Sena, David Mourão-Ferreira, Ruy Belo, Herberto Helder, algum Ramos Rosa, Nemésio, Cinatti – além dos brasileiros Drummond, Vinicius e Murilo Mendes.

Alguns críticos da cultura, como José Gil, verificam que uma das tendências da literatura portuguesa é o autocentramento. Sendo um autor que pratica fluentemente a intertextualidade, você pensa que existiria, sobretudo no caso dos poetas, uma dificuldade de se livrar de espectros como os de Pessoa e Camões? Ou se trata de uma feliz e secular angústia da influência?

Felizmente, para nós esses poetas não são uma fonte de traumatismos ou de apagamento vocativo, talvez pelo facto de que se pode entrar nas suas obras como numa universidade, onde se está sempre a aprender.

Como ensaísta, está em seu horizonte comentar poetas contemporâneos. Como poeta, sua obra necessariamente também é comentada por ensaístas, alguns deles também poetas. Portugal é um país onde os poetas muitas vezes mantêm relações afetivas – ainda que este afeto venha a ser da ordem da hostilidade. Este cenário, para a poesia e/ou para a crítica, é prejudicial, benéfico, neutro…?

Vou publicar este ano um “ABC da crítica”, onde falo precisamente do modo como o crítico deve exercer a sua actividade – não de um modo destrutivo (e, mea culpa, confesso que nos anos 1970 iniciei a minha actividade praticando um episódico terrorismo crítico, mas isso enquadrava-se no contexto político da época), mas empático, procurando compreender e abrir o universo do texto que está sendo analisado. Infelizmente, muitas vezes a crítica serve como forma de manifestar opções estéticas e ideológicas, que usam a obra que está a ser lida num espaço de facção ou de seita. Terá sido por isso que a crítica, hoje, perdeu o pouco prestígio que ainda possuíra, e também que os suplementos literários tenham acabado por desaparecer como referências do nosso panorama cultural. É também por isso que, ao assumir agora a direcção da revista Colóquio/Letras, irei dar uma especial atenção ao sector das recensões, onde procurarei atribuir uma imagem objectiva e selectiva do momento editorial em língua portuguesa.

O Setor de Literaturas Portuguesa e Africana da Universidade Federal Fluminense está montando um criativo Caderno, para auxiliar os professores no ensino da poesia portuguesa. Sendo também professor universitário, caso a tarefa lhe coubesse, como começaria a montar tal material?

Julgo que o panorama das literaturas de língua portuguesa pode – não falo já da literatura brasileira, que há muito é uma realidade autónoma e propriamente una – ser considerado um corpo múltiplo, como heterónimos que dispõem de personalidade próprias e de expressões individuais, assim como nacionais. Eu acentuaria o lado das diferenças, porque é a partir daí que se pode exercer um trabalho comparativo que defina os processos e os percursos de cada uma dessas literaturas e autores – embora, citando Jacinto do Prado Coelho, também se possa encontrar uma unidade dentro dessa grande diversidade.

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