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11. Ópios. É difícil ter a medida do que foi perdido em um século e tanto de cultura de massa. Necessariamente responsabilidade sobre o discurso, necessariamente profundidade, necessariamente o tipo de concentração e de centramento sobre os próprios, muito específicos, demônios e paixões que concediam presença a uma pessoa. Talvez o que tenha sido conquistado em retorno seja a possibilidade de um ersatz para a solidão moderna, que obviamente não se resolve, não tem como, mas que ao menos deixa de ser formidável. Nossa solidão nasceu alguns séculos atrás, quando as cidades, aldeias, profissões… deixaram de ser comunidades, lá no início da modernidade e do capital. Walter Benjamin em algum momento de sua tese sobre o drama barroco alemão se refere a isto como uma narrativa Luciferina: abraçamos o conhecimento e o autoconhecimento, este abismo de indivíduos, e de pensamento crítico, e tecnologia, e poder, e criatividade, e em troca quando tocamos o chão estamos exilados neste lugar em que só podemos ter pares, não mais irmãos.
Está subentendido em Benjamin que o acordo entre o homem e o conhecimento não é revogável, e que devemos aceitar nossa solidão da maneira mais digna possível. Sua obra inteira se preocupa em fazer a elegia daquilo que foi perdido, não para propor seu resgate, mas para cumprir um luto ou prestar uma homenagem, quiçá uma das últimas com ainda algum vigor, à era em que o peso de uma vida era carregado por vários ombros. No momento em que temos a pretensão de acabar com esta solidão fundamental – e este é o sentido mais profundo da massificação, para além da escala, para além do ganho econômico – nos condenamos ao pior jogo, um em que os tesouros da subjetividade e do conhecimento são perdidos sem que a solidão seja de fato superada.
Um século e tanto de cultura de massa, e uma civilização de comedores de ópio, incapazes de aceitar finalmente o prêmio der liberdade que foi comprado muito caro. E é difícil, para mim ou qualquer outro, dar a dimensão de necessidade e de urgência de uma desintoxicação.
Ricardo Pinto de Souza, professor, escritor e editor-artesão da Oficina Raquel. É autor de CULTURAS.

