apresentação da ferida – mayara ribeiro guimarães


Paixão, via-crúcis, noite, corpo. Signos com os quais me deparo no primeiro instante em que tomo à mão um texto de Clarice Lispector. O que dizem estes signos? A primeira coisa que afirmam é que não são apenas signos, são símbolos que se reatualizam enquanto realidade viva e presente, na ficção e na vida. Comecemos pela paixão. Sabe-se que a paixão de Cristo era obsessão pessoal de Clarice Lispector, não apenas como topos literário, mas como uma via-crúcis entendida como condição irrevogavelmente humana, noite abissal, que assola o corpo e convoca uma ferida irreparável. Na relação entre sujeito e mundo, o indivíduo sucumbe e morre. Diariamente.

Da herança de uma civilização que introjeta o dualismo psicofísico e o sacrifício individual, gerando violência e conflito entre homem, natureza e sociedade, entroniza-se a cultura dos esquemas dicotômicos de representação, estrangula-se o centro pulsante da vida, canoniza-se o discurso nobre e eloqüente, criam-se os mitos de profundidade e transcendência e as figuras históricas de dominação. Da separação nasce a necessidade de se construírem verdades – porque o homem não sabe viver sem a verdade – porque o homem não sabe lidar com a fragmentação nata de que fala Schlegel e entende que deve resolver essa cisão.

E o indivíduo, corda sobre o abismo, vive a expiar suas dívidas. Vive para resolver um corte. Fechar uma ferida. Suturar a barriga aberta. Mas, e se a sutura não resolve a culpa? Se nem mesmo é possível suturar? E se a sutura for ainda mais uma tentativa de expiação? Cicatrizes – índices – sintomas. O gesto se torna uma mecânica, um hábito, uma tradição herdada de um império mais extenso chamado religião, sociedade, cultura. E se chegamos a um ponto em que se compreende que não é possível mais suturar, a próxima constatação não é “o que fazer com a barriga aberta?”, mas “o que ela se torna?”

Deparo-me com um problema: poderia dizer que a literatura não pretende resolvê-lo, mantendo a inesgotabilidade do enigma, mas se assim o fizesse permaneceria com a ininterrupta constatação de que o indivíduo está perdido, a identidade estilhaçada e a subjetividade encurralada. Mas o fato é que alguma coisa é dita – construção em meio à pulverização. Há uma condução, uma via, uma palavra escrita, um gesto feito. O que me acena este gesto, para onde me aponta essa via, o que exorta essa palavra? Não sei. Sou lançada ao centro do desamparo. E agora preciso de um fio que me conduza, qual Minotauro agonizante. Ao meu redor a tradição, a mitologia, a hermenêutica, a filosofia, o tempo, com suas bocas enormes e cheias de dentes, qual Caribde a buscar uma presa, um sacrificiado, uma oferenda. Tenho apenas este fio, pequeno sustentáculo que prende o fruto ao galho, metonímia do caule e da copa, das raízes e da árvore, da terra e do céu.

De pé, encaro a ferida. Diante e logo já dentro dela, sem outras opções, digo sim a este convite que me é feito. Preciso de uma configuração. Esta: meu guia será a imagem. Meu objeto, a barriga aberta. Aquele que vê sou eu, a barriga também, e a mão que corta. Mas não. Tentemos outra configuração. Aquele que vê é o escritor, o olhar é a escrita, a barriga aberta é a tradição, o que corta é Clarice, a tripa é a Literatura. Olhar, barriga, corte, tripa. Corpo, morte. Meu fio: o corpo da morte – a morte do corpo. Corpo: escrita. Morte: voz.

Paixão.

Não falo de meu túmulo, mas falo diante de um túmulo. Já não posso tocar o corpo, mas este recuo só me concede a medida de sua presença, de sua morte. Porque morrer é ininterrupto. Como enfrentar o invisível de frente? Olhar a ferida até o cegar dos olhos por sua incandescência, que é também minha, dos santos, dos adoradores?

Mais uma vez a paixão, amor pelo duplo, mergulho no avesso desta tradição, encenando não a ascese do homem, mas o processo de humanização de si mesmo em sua própria condição imanente. A matéria só se amplia ao infinito, o eu só abraça o mundo, se aceitar que a queda é parte do equilíbrio, e deixar-se abandonar a um campo de força que implica a afirmação de suas diferenças, de uma subjetividade que se desfaz no contato com o outro e se refaz nessa mesma dinâmica.

A obra de Clarice é o drama de uma subjetividade contorcida sobre a ferida aberta pela separação. A interferência dessa ferida na relação sujeito-mundo só poderá encontrar uma via pela entrega à escrita, já que a existência é trespassada pela linguagem.

Mas antes, Dioniso. O sintoma apresenta sua máscara, artifício, fingimento, que se reatualiza na própria escrita. O problema da identidade leva à exposição da máscara e à dialética entre aparência e essência. O sujeito desenvolve uma dinâmica de revelação e ocultação da essência por meio da encenação. Assim é que a escrita se torna um artifício que reencena as máscaras do homem na tentativa de lidar com a ferida, que é do artista, do personagem, do leitor, da escrita. A escrita sem estilo de Clarice Lispector desnarra a si própria a partir do seu despojamento, de seu esfumaçamento, porque o estilo se torna a forma idealizada por uma tradição estética. Além de criar histórias que se entrelaçam a outras histórias formando inesgotáveis palimpsestos, a obra de Lispector não deixa de fazer o caminho inverso, apagando tantas outras histórias, uma após a outra, até que não se cante mais a criação e seu maravilhoso, mas o aparecer e desaparecer, para que a dinâmica do gesto cresça com sua potência de corpo presente e ausente, túmulo e berço.

Depois de desnarrar Deus, a vertente judaico-cristã do dualismo psicofísico e a herança de uma tradição que transforma Eros em agente ético e moral, Clarice desnarra a letra, que é a própria literatura. Verifica-se assim que a ferida metafísica provoca fraturas não apenas ontológicas, mas fundamentalmente culturais e inevitavelmente estéticas.

Assim, Madalenas, Sofias, G.Hs, Lóris, Clarices e leitores iniciam-se como neófitos no universo do duplo domínio porque mergulham e permanecem naquela zona em que o descortínio do real é também o seu afastamento. E o gesto torna-se mais importante do que a imagem, ponto de abandono: abandonar-se a uma presença, ou a uma visão, que nada mais é do que seu próprio retirar-se, seu apagamento. Onde os olhos se abrem, sem medo da cegueira. De chofre se explica para que se nasce com olhos e garras, sem nojo da visão. É que outros olhos fazem outras histórias.

Abandonar a estrutura humanizante para reencontrar-se novamente humano não é tarefa agradável e requer ir ao encontro do subterrâneo de si, das maldades e sadismos, angústias e assassinatos diários. Dos nossos mortos. A vida oprime porque é um soco no estômago e o desamparo é de todos.

O sujeito, no centro deste desamparo, aponta para a insuficiência de uma subjetividade (e da linguagem por ela expressa) refém de uma falsa garantia de organização amalgamada pelo saber absoluto. A linguagem vive e manifesta a inadequação ao sistema definido por códigos que já não dão mais conta da condição a que chegou o sujeito. A culpa, que se traveste como a intransponível ferida, não é nem mesmo resolvida com a liberdade buscada pelo sujeito, apenas talvez com a dinâmica desempenhada por uma consciência que se abre no horizonte da ruína e da morte, do erotismo e do desejo, na constituição da realidade. A culpa é apenas mais um mecanismo introjetado pela cultura que se interpõe diante da relação homem-mundo e impede a sua realização enquanto ser. No entanto, a literatura pode transformar esta ferida em imagem e potência criadora, tornando-a fronteira entre o ser, o não-ser e a poesia, via de acesso do eu descarnado a uma forma em permanente movimento de recomposição do dualismo antagônico em dualidade complementar. A única possibilidade de atingir a fusão entre eu e mundo ou entre o limitado e o infinito, como se configura a equação clariciana, é pela abertura à alteridade, pelo abandono dos suportes introjetados pela cultura, e pela entrega à desfiguração da ferida.

Mayara Ribeiro Guimarães é Mestre e Doutora em Literatura Brasileira pela UFRJ, instituição em que atuou como professora substituta. O ensaio incluído nesta revista foi lido como texto de apresentação na defesa de doutoramento de tese, intitulada “Clarice Lispector e a deriva dos continentes: da descoberta do mundo à encenação da escrita”, em março de 2009.

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