marienbad
10. Banquetes. Há um livro de Giorgio Agamben chamado “O aberto” que trata da distinção entre humano e animal, como esta diferença, nem tão imediata como se poderia pensar a princípio, foi construída no Ocidente. A imagem que inicia o livro é uma iluminura medieval representando o banquete dos eleitos no paraíso. Sentando-se à mesa figuras com cabeças de animais, cachorros, raposas, lebres, em uma alegoria que necessariamente choca nossa sensibilidade moderna. O paraíso é o lugar em que o humano, em um círculo estranho, retorna ao animal.
Obviamente o tipo específico de sensibilidade que gerou a iluminura foi modificada pelos séculos de sedimentos e de entulho que a história do Ocidente produziu, mas gostaria de me utilizar desta imagem arcaica e propor sua vitalidade. O paraíso talvez não seja o lugar em que o humano retorna à pureza animal, em que o pecado da árvore do conhecimento é lavado e se pode retornar ao estado edênico em que Adão e a serpente dialogavam como iguais, mas será sim aquele em que, como os animais, este outro peso que é o tempo é retirado de nossas costas. Borges não cansava de se referir à frase de Schoppenhauer que dizia que os animais são eternos, pois desconhecem que irão morrer. Esta humanidade paradisíaca compartilharia de tal bênção: nem memória de um passado que se apaga nem angústia de um futuro que não virá, mas a fruição deste não-tempo imediato em que o corpo e a mente celebram suas bodas uma vez mais.
É interessante o quanto a imaginação de que a bênção é na verdade um não-tempo circula em nossa cultura, e a cada evento messiânico ressurge com uma coerência invejável. As milhares de pessoas que ficaram cercadas em Canudos para o extermínio cantavam ainda às vésperas da morte, mesmo entre a fome e a sujeira, que eram muita e inevitáveis. Da mesma forma os homens e mulheres que fizeram a revolução russa não apenas não sentiam, como se alegravam com a exaustão, as batalhas e as dores. Dois milênios antes os primeiros mártires cristãos sorriam extáticos a caminho da cruz, do pelourinho, da roda ou de qualquer outra máquina disciplinar que o engenho romano soube prover.
Não há, no entanto, neste sofrimento feliz nenhuma potência sobrehumana. Não é que os santos ou os pobres de Canudos não sofressem a dor muito real que cilício ou artilharia provocavam. Apenas estavam infectados por este discreto vírus gnóstico que faz crer que a vida é sonho, e que a sujeira e a fome muito concretas não passam de uma espécie de curto circuito das sensações, que, aliás, são inimigas.
E com elas a sensação principal, a do tempo. Memória e previsão são companheiras tão severas que, de um modo geral, não imaginamos que possam ser caladas. A imagem dos animais no banquete nos alerta para outra direção, para a outra metade da história de Adão: comeu da árvore do conhecimento, mas não daquela que o poria ao nível de Deus, a árvore da vida, que, a crer por estas fábulas de homens e animais, seria aquela que anularia a consciência e garantiria uma idiotice santa. O que me leva a imaginar se um relógio, por mais terrível que seja, ainda não é preferível a uma cretinice canina. Mesmo que isso signifique não ser convidado para um banquete.
Ricardo Pinto de Souza, professor, escritor e editor-artesão da Oficina Raquel. É autor de CULTURAS.

