livro da dança, de gonçalo tavares: por um corpo em estado de invenção – madalena vaz pinto
Dançar e obrigar os outros ao susto, é dizer: qualquer momento é possibilidade de voltar ao início, descer à Cave, à Biologia, à CARNE. (Gonçalo M. Tavares, Livro da dança)
Livro da dança, de Gonçalo Tavares, apresenta o “Projeto para uma poética do movimento”. O que se propõe é uma “redefinição de corporidade” baseada na idéia de que o corpo “pensa”. O conceito de dança – como movimento sem fins e movimento das possibilidades infinitas – é usado para pensar um corpo em estado de invenção.
“Comecei hoje a metafísica da casa: comecei por limpar a pele” (TAVARES: 2001, p. 9), diz um verso do primeiro poema do livro. Encontra-se aqui a indicação dos caminhos a tomar para colocá-lo em prática: por um lado, libertar o corpo do conhecimento sobre ele; por outro, impregnar o conhecimento do mundo da presença do corpo. Por ser a pele que nos liga e separa do mundo, é por aí que deve começar o movimento de abertura dos canais que restaurem essa relação. Trata-se de uma metafísica porque a dança de que se fala não se limita ao corpo físico, mas ao corpo entendido como morada do homem, feito de ossos, sangue, sonhos e desejos. Reconhecer a metafísica do corpo é reconhecer que no corpo nem tudo é apreensível pela física:
O interior do exterior (por exemplo os ossos) vê-se pelo MOTOR / a radiografia é MOTOR; toda a Tecnologia é MOTOR: O MOTOR é RODA, circunferência. / o interior do corpo não se vê: é a metafísica. (TAVARES: 2001, p. 120)
Não se propõe, aqui, um retorno nostálgico à condição “natural” do corpo, mas antes um resgate da potência de um corpo limitado por determinações impostas de “fora”, históricas, culturais, sociais. Sua re-invenção depende da sua des-programação e aceitação:
EVITAR a camuflagem: o corpo Profundo é o corpo entre as fezes e a beleza. (TAVARES: 2001, p. 20)
(…)
Aceitar a FRATURA, a NEVROSE, o psicopata, a dor, aceitar tudo isso como se fosse a idéia NOVA mostrada por quem dança. (TAVARES: 2001, p. 14)
Também não se trata de um projeto de superação de suas limitações físicas, por uma melhor adaptação ao mundo. O que se propõe é um corpo “inteiro”, não idealizado, capaz de inventar movimentos, não reproduzi-los:
A história da dança não é, não pode ser, o Percurso dos Movimentos
traçado no chão.
É, tem de ser, o Percurso dos Movimentos Traçado no ar. (TAVARES: 2001, p. 24)
O corpo que aqui se apresenta é um corpo deficitário, aceite em sua incompletude: “não há nenhum Corpo completo/ Faltam sempre Peças, ou seja órgãos, ou seja Movimentos!” (TAVARES: 2001, p. 163). O amor é a demonstração dessa falta:
Os amantes têm mãos a menos.
No amor exibe-se o que FALTA ao CORPO.
No Corpo deve exibir-se o que FALTA (mesmo ASSIM) ao AMOR.
(TAVARES: 2001, p. 125)
Numerados e sem título, os poemas do Livro da dança focam o dentro e o fora do corpo, o que se vê e o que é invisível. Este invisível, entretanto, não significa interioridade no sentido de subjetividade. A poesia do Livro da dança é uma poesia não-lírica e des-subjetivada, sem “eu”, onde o sujeito adquire novas figurações a partir da redefinição corpo-pensamento. Nesse corpo anônimo, a identidade dá lugar ao corpo coletivo:
Não diz EU quem dança não deve dizer EU,
diz ou deve dizer, todos, tudo, tu também que és imperador, [...]
Perder território. Ganhar o Fora e perder o dentro.
Ganhar o Fora: a biologia é igual em todo o Espaço; perder o dentro:
A identidade é a invenção dos nomes.
(TAVARES: 2001, p. 102)
Livro da dança pode ser entendido como o desdobramento poético de questões apresentadas no livro A temperatura do corpo [1], em que Gonçalo Tavares investigou as formas de representação do corpo na pintura. Partindo da análise de duas telas de Picasso – “Retrato de Kanhweiller” e “Demoiselles d´Avignon” – o autor observa como a representação do corpo se afastou progressivamente de um corpo de anatomia fixa e definida, tal como era apresentado na pintura clássica. Ao contrário desse corpo congelado em seu movimento e aprisionado em sua identidade, as pinturas de Picasso apresentam um corpo em “fusão”, indiferenciando anatomias e identidades. Como em Temperatura do corpo, a dança apresenta-se nesta poesia como movimento “em aberto”, de um corpo como potência de invenção.
O uso de verbos no infinitivo em muitos dos poemas, dá ao livro um tom programático, de acordo com o projeto que se apresenta. Este tom, entretanto, nunca se mostra categórico, o que seria incompatível com uma linguagem que se assume como lugar de errância [2], sem horizonte de verdade. Em direção oposta a grande parte da literatura portuguesa intoxicada de identidade, Livro da dança propõe uma identidade em devir, feita de corpos anônimos. Nesse corpo “sendo” figura-se uma outra subjetividade: um corpo dançante, maleável e transitório, liberto da fixação da identidade.
Rio, dezembro de 2008
NOTAS
[1] Tese de mestrado do autor em Motricidade humana, ciência que tem como objeto de estudo o corpo “em acto”. O que nela se busca, em estudos sobre desporto, dança, reabilitação ou ergonomia, é uma “redifinição de corporidade”.
[2] Gonçalo Tavares, “mapa” , In: 1, p. 163.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
TAVARES, Gonçalo M.. 1. Lisboa: Relógio D ´Água, 2004
________. A temperatura do corpo. Lisboa: Instituto Piaget, 2001.
________. Livro da dança. Lisboa: Assírio & Alvim, 2001.
Madalena Vaz Pinto, doutora em Literatura Portuguesa pela PUC-Rio, é professora e pesquisadora em literatura e diretora do Centro de Estudos do Real Gabinete Português de Leitura.
