a nostalgia do mundo ou o frágil desejo de octávio c. – sofia de sousa silva
Resenha de Os três desejos de Octávio C. , de Pedro Eiras, Relógio D’Água, 2008
A fábula do gênio da lâmpada passa agora por Freud. Os três desejos de Octávio C. , novo livro de Pedro Eiras, publicado pela Relógio D’Água em 2008, mistura o conto tradicional com a máxima freudiana de que os sonhos são a realização de um desejo. Após ter recebido de presente do seu avô americano uma lâmpada comprada em Bagdá, Octávio a esfrega, sem perceber, e à noite, durante o sono, aparece-lhe um gênio que lhe dá as famosas três opções. Embora o aparecimento se dê em sonho, a realização do desejo ocorrerá na realidade, subvertendo-se assim a máxima freudiana. Difícil imaginar um presente melhor do que esse. Mas é justamente no desejo que reside o problema de Octávio C.
Neto de um avô entusiasmado com a guerra e um tanto autoritário – “ele achava, certamente, que governaria as nossas vidas melhor do que nós próprios”(p. 19) – filho de mãe revolucionária comunista, Octávio tinha de quem herdar o desejo de intervir nos destinos da humanidade. Mas o jovem, sem o apoio dos ideais de naturezas diversas que nortearam seus ancestrais – e, ainda, sem herdar deles o ímpeto e a alegria –, “quando o muro de Berlim [cai] com estrondo [entra] como ajudante na Conservatória da Rua das Parcas” (p. 15).
Ali, Octávio, assim como os demais funcionários, metaforicamente entrega a vida às deusas, para que decidam do seu curso. Tudo o que faz é mais ou menos sem perceber (“Nem me tinha apercebido de que estava a olhar fixamente para ela”, p. 47), e a sua vida é como uma espécie de sono. A falta de desejo ou falta de coragem de fazer valer o seu desejo são as marcas desse personagem, desde muito jovem: “embora me aplicasse conforme podia e sabia, nunca houve uma disciplina que me tenha arrebatado” (p. 17). Ao longo do tempo em que acompanhamos a sua trajetória, Octávio recua sempre que precisa tomar uma iniciativa, correr algum risco, sair da sua apatia: “Abandonei-me à fraqueza” (p. 62). Diante das sucessivas oportunidades de aproximação da moça por quem se crê apaixonado, ele quase sempre deixa a chance passar: “Não fui capaz de dizer uma única palavra à Anabela” (p. 59); “não sabia como falar-lhe” (p. 105). A melancolia é igualmente compartilhada por seus colegas, e até mesmo o país onde vive é descrito como estando numa espécie de letargia: “essas coisas aqui não acontecem” (p. 35 e p. 46) . O contraste cabe aos estrangeiros: “Tirando uma mesa de estrangeiros muito animada, a vila parecia adormecida” (p. 46); e, ainda, ao notável sr. Honório, também funcionário da Conservatória, mas que, juntamente com o gênio da lâmpada, fará o papel de voz da lucidez no romance.
Desde o início uma palavra chave no livro é querer. O gênio insiste em dizer: “se tu quiseres”, “só se tu quiseres”. O problema de Octávio é justamente ter três desejos e não ser capaz de seguir o seu desejo, de assumi-lo e fazer a sua escolha. E a possibilidade é oferecida a ele (assim como a nós) todos os dias. Diante da perspectiva que o gênio lhe dá, ele revela o seu lado revolucionário, que não deixa de abrigar uma boa dose de autoritarismo e de vaidade moral: “embriagado com uma súbita lucidez, pensei que podia formular desejos em prol da Humanidade. Renunciar não só à Anabela, mas também a quaisquer riquezas, de modo a que todos os homens beneficiassem com os meus desejos. E não para que me agradecessem, porque eu permaneceria sempre o encarregado dos processos de Divórcio na Conservatória da Rua das Parcas, enquanto o mundo veria os seus enganos e desconcertos misteriosamente corrigidos. Pareceu-me que esta era uma enorme prova de inteligência e de bondade” (p. 26). Pouco antes ele havia dito: “confesso que ter este pensamento me fez sentir muito digno e delicado” (p. 26).
Quando crianças, quantos de nós já não terão se perguntado o que fazer caso nos deparássemos com um gênio da lâmpada – ou, mais perto de nós, brasileiros, com as famosas fitinhas do Senhor do Bonfim? Octávio C., um idealista de bom coração, decide não desperdiçar consigo mesmo a possibilidade de realização de quaisquer três desejos. (Até em sonhos, o rapaz pensa no bem comum.) Tudo o que pede é então visando o bem da humanidade, o bem do mundo, do qual de certo modo Octávio sente a nostalgia. Na convicção juvenil de que poderá fazer o que é melhor para todos – e, não por acaso, um dos subtítulos do livro é Tratado da Ingenuidade –, Octávio pede que desapareçam três coisas (duas das quais bastante materiais, mas preservemos a surpresa) que acredita serem grandes responsáveis pelo mal do mundo.
O livro de Pedro Eiras examina, com toda a coragem e imaginação lúdica, algumas possibilidades que gostaríamos de ter tentando aos dezessete anos. (E, lá no fundo, quantos de nós estaremos de fato curados da ilusão romântica?) Octávio, por fim, descobrirá a triste confusão que faz entre causas e conseqüências. “Com a confiança cega que os sonhos trazem, pensei que era possível.” (p. 26)
Os três desejos de Octávio C. são assim também um livro sobre sonhos de juventude. De certo modo, os desejos de Octávio C. (e não o desejo) repercutem grandes sonhos do século XX, de que vimos o fracasso. A Liga das Nações, a ONU, a idéia um pouco abstrata da construção de um mundo melhor. Todos eles nos parecem um pouco pálidos e gastos hoje. Ainda não sabemos bem como viver sem esses sonhos, mas já sabemos que eles são como uma antiga fantasia de carnaval para um menino que cresceu demais. Não nos servem mais. Ficamos, como a epígrafe que abre o livro, na convicção de que iremos “parar ao inferno” de todo modo.
Talvez seja possível traçar um paralelo entre esta novela e o monumental ensaio Esquecer Fausto, do mesmo Pedro Eiras. Há a necessidade do luto de um projeto totalizante (a idéia de um sujeito forte no primeiro livro, a idéia de mundo, neste). Em Os três desejos de Octávio C. surge ainda a necessidade premente de se tirar da frente certas idealizações sobre o que os homens querem, sobre a possibilidade de um conhecimento total. (Aí está Fausto outra vez.) Sem o espelho em que se mirar, só restaria ao homem olhar para si. É o passo que Octávio precisa dar.
Sofia de Sousa Silva é doutora em Literatura portuguesa pela PUC-Rio.
