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POUCO NORTE, FOME MUITA
(recensão a Mares inacabados, de Casé Lontra Marques. Vitória: Flor & Cultura, 2008)
Condição para um caminhar cheio de si: ter ciência do destino. Condição para um caminhar que se desorienta mais que desorienta: a vigência dum tempo famélico. Talvez esse seja um dos papéis que a escrita, sobretudo a poética, pode escrever, ou jogar: deslocar a subjetividade a um altíssimo grau de incerteza, não temer o indecidível, explorar um território como quem não sabe que ali pode haver ouro ou lixo, como quem sabe pouco do que ali há. Que há? Não sei. Nem sei “(como um// aço// no cio// do// ácido)” (p. 18) pode ser alimento, ainda mais porque os versos vêm assim, guardados a alguma chave parentética “que não abre quase coisa alguma” [1] mas vai ao mundo com “Aquela sensação/ atmosférica da música” (p. 16), só, ou tudo isso.
Ou ainda: “Começo de um movimento diferente, em que o impulso de prosseguir/ acompanha o passo do paladar. Agora/ o sabor tem dedos para mais sede, para mais sede./ Suspeito de todo dente que não traia/ a estreiteza da necessidade. Fome multiplica/ braços com a versatilidade de uma violência sobretudo atenta” (p. 13). É óbvio, mas digo: ter atenção não equivale a ter sabedoria. Mover-se “diferente” não equivale à própria diferença. E aqui se faz um lugar extremamente trilhável: “o impulso de prosseguir/ acompanha o passo do paladar”. Que “música” então se quer fazer se o “movimento” segue a fome? Pausas para movimentos talvez animais de um corpo que jamais terá plena saciedade. Como de resto o humano, como de resto o que escapa à atenção.
Afinal, será um bocado cheio de si o caminhar de Mares inacabados, mas nunca pela pretensão de responder muito. Ao contrário: cheio de si porque tem na subjetividade seu tópico mais difícil. Exemplos já recolhi: “Começo” será primeira pessoa? Sim, mas também substantivo. “Como” será primeira pessoa? Sim, mas também conjunção. Primeira pessoa do plural? Só depois da terceira, só após um lastro que joga o lirismo desse livro para fora – portanto, para dentro: “Não lembrará do fulgor nem da fuligem. Tampouco da plenitude/ gasta em cartão postal. Tornozelos confundidos/ com omoplatas. Cruzamos o estágio/ do desespero. Agora seguiremos na desorientação da intensidade” (p. 20). A sugestão narrativa aqui é um experimento, ainda mais se a dinâmica é assim tão faminta e ignara. Quando a poesia de Casé finge saber de algo, logo a palavra retorna a seu lugar de palavra, talvez capaz de si própria, mas costumeiramente incapaz de muito mais que isso.
E o trajeto por um mundo alimentar trará referências concretas a uma realidade de que certa poesia não gosta muito: a “argamassa”, por exemplo, como substância de uma maravilha sem maravilha alguma: “O corpo ultrapassa a parede de argamassa, mas continua/ estreito, concreto, como um pulmão trancado/ em crise de asma” (p. 23). E se houver uma porta cuja “chave”, na mão do sujeito, permite-lhe a ultrapassagem da parede? O fato é que o “corpo” “continua” de um jeito ou de outro, mas “continua”, segue, prossegue, “continua”. E “O pássaro/ que inventamos era só mais um pássaro” (p. 23), “era”, e decerto “continua” pássaro e “continua”, ainda voa, “continua”.
Um dos itens de desorientação de Mares inacabados origina-se de os poemas não terem título. O que se tem, assim, é uma abertura de sentidos, pois os textos perfazem uma espécie de corpo. No entanto, cada poema é autônomo, e o corpo em questão será, logo, fragmentado, inconcluso: “A dor concentra intensidade no ponto/ menos criativo/ do corpo. Como o lábio esticado na/ direção do próximo/ espasmo (…)” (p. 62), cujo momento de ocorrência não se sabe. O que se sabe, em verdade, é o que se sente, e talvez “a violência sobretudo atenta” do primeiro poema do livro tenha como objeto o próprio corpo que se está a perfazer, a escrever.
Deixo, no entanto, claro: se grafei que a poesia de Casé finge saber de algo, portanto se sugeri uma mirada “atenta” à herança pessoana, um famoso verso ao jovem poeta não se aplica: “O que em mim sente ’stá pensando.” [2] Pelo contrário. Em Mares inacabados, o que se “sente” começa a querer saber, mas sempre como quem experimenta um prato de comida, sempre como quem tem na “dor” uma fonte de autoconhecimento. Ou na “vertigem”: “Uma vertigem atravessa a avenida/ Uma vertigem/ Que o corpo embrulha no vôo/ Uma vertigem/ Uma vertigem” (p. 60). De dentro para fora: “o corpo” se deixa conduzir pela “vertigem”, sujeito das orações dos versos. De fora para dentro: a “vertigem” leva o corpo a seu lugar-limite, leva-o a si próprio, fá-lo perceber-se como quem sente. E uma “sensação/ atmosférica da música”? Um “movimento”? “Uma vertigem/ Uma vertigem”, nem tanto a rima, mas a repetição. A música a ter lugar nesse poema na “avenida” é bem da “avenida”, pois não permite, por exemplo, um coro medieval, mas enceta, de novo, alguma continuidade: a “vertigem” não passa, “continua”.
Também “continua” um discurso que não teme as feridas, as fraturas, mesmo que elas sejam sociais – mas o social não interfere, e no limite (co)forja, a subjetividade? “Enquanto a criança segue pela calçada, a fome a pino na manhã,/ empoleirada à porta do umbigo, espeta/ mais que o fígado dos muitos mendigos no caminho/ do insistente menino (…)” (p. 43). E o sujeito, num estado de angustiada coletivização fingida, grafa: “(…) Deitamos cansados,/ enquanto a criança, pelo tempo,/ pela calçada, enquanto a criança, a criança segue” (p. 43). Pois, “continua”. E “continua” uma notável fúria do corpo – apanho este sintagma ao título do notável romance de João Gilberto Noll, escritor que recebe direta dedicação acadêmica de Casé –, ácida, argamassada e na rua.
Recém falei em Pessoa, e é Cinda Gonda, pessoana de paixão e exercício, a responsável pela primeira orelha de Mares inacabados. [3] Diz a ensaísta que “iremos encontrar”, no livro, “a aspiração impossível por um pacto, que já se sabe de antemão perdido, entre o homem e a natureza”. Talvez eu pudesse dizer que a mais forte aliança que esse livro procura é “entre o homem” e si próprio, não como ajuste identitário ou totalizante, mas como mecanismo de sensações. Neste ponto, Álvaro de Campos – “Sentir tudo de todas as maneiras,/ Viver tudo de todos os lados,/ Ser a mesma cousa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo” [4] – pode ser encontrado ao fundo da pena de Casé? Cuidado. O corpo que se espreita no livro do poeta capixaba está fragmentado, e todo “tudo” está, à partida, sob suspeita. Pouco (ou nada) se vê, em Casé, da positividade crente que povoa certa poesia brasileira contemporânea. Vê-se, pelo contrário, “a fome empedrada na espinha/ dos pivetes” (p. 53), donos de uma “fome” que se aproxima da que move o sujeito em sua travessia de mares inacabados.
Aliás, o título do livro encontra-se num poema que considero indispensável citar na íntegra: “Lá está a esquina prevista, a cidade evidente. Mares inacabados/ que o sol do sarcasmo/ infeccionou. Dois desempregados cruzam o asfalto, equilibrando pássaros/ dentro dos sapatos. Cultivar o corpo como pedras/ que o sol do sarcasmo/ infeccionou. A violência também exercita nem tão sutil melodia” (p. 52). “Continua”. O presente do indicativo indica que a fome prossegue, no sujeito e no “nem tão sutil” mundo, e como ter muitas certezas numa experiência desorientada? Os mares são inacabados, a “insolação”, “súbita” (p. 92), e esses poemas, sem medo, dizem do quanto existir, dentro e fora das palavras, é profundamente difícil.
NOTAS
[1] HELDER, Herberto. Ou o poema contínuo. Lisboa: Assírio & Alvim, 2001. p. 126.
[2] PESSOA, Fernando. O Eu profundo e os outros eus. Seleção de Afrânio Coutinho. Fixação dos textos e notas de Maria Aliete Galhoz. 22. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993. p. 99.
[3] Há outras companhias ao poeta no livro: a segunda orelha é da autoria de Wilberth Salgueiro; o texto da contracapa foi escrito por Bella Jozef; o prefácio é assinado por Luis Alberto Brandão.
[4] PESSOA, Fernando. Poemas de Álvaro de Campos. Fixação do texto, introdução e notas de Cleonice Berardinelli. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. p. 92.
Luis Maffei é poeta e professor de Literatura Portuguesa da Universidade Federal Fluminense.
