mulher(es) notabilíssima(s) – gilda santos
Resenha de Sonetos, de Marquesa de Alorna, org. de Vanda Anastácio, editora 7Letras, Rio de Janeiro, 2007.
Transposta a elegante capa negra, onde sobressai o quadro mais famoso de Alcipe – nome pastoril de D. Leonor de Almeida Portugal Lorena e Lencastre, a 4ª Marquesa de Alorna –, deparamo-nos com uma sucinta “orelha” (ou “badana”, como se diz em Portugal), assinada por Fernando Mascarenhas, atual Marquês de Fronteira, descendente direto da escritora. Das palavras sóbrias, respigo uma espécie de mote, ou possível epígrafe, para todo o livro: “Era uma mulher notabilíssima, que irritava extraordinariamente muitos homens do seu tempo, dada a sua grande inteligência e cultura e a sua ousadia em tratar assuntos que os homens consideravam como coutada sua, coutada em que uma mulher não se podia atrever a intrometer.” E conclui com uma referência objetiva à organizadora, Vanda Anastácio: aquela que a Fundação a que preside escolheu para fazer a edição crítica da obra da Marquesa, dado o longo convívio que a estudiosa tem com tão precioso legado.
Aquela “mulher notabilíssima” nascida em Lisboa em 1750 e falecida também em Lisboa em 1839, poucos dias antes de completar 89 anos, evidentemente merece ter a sua biografia conhecida pelo leitor, e por essa espantosa biografia começa Vanda Anastácio a sua introdução de setenta e tantas páginas. Entretanto, não se pense que a biografia é mero apêndice ao livro, pois a organizadora insiste em apontar o diálogo constante entre os textos poéticos e os dados biográficos que destaca, à luz de farta documentação, com exemplos sempre precisos e de agradável leitura – por vezes bem pitorescos.
Enclausurada à força no Convento de Chelas, juntamente com sua mãe e sua irmã, logo depois de imputado aos Távoras, seus avós e tios, o atentado sofrido pelo rei D. José I, lá permanece 18 anos, de 1758 a 1777, dos 8 aos 27 anos. Igualmente feito prisioneiro, por igual período, seu pai, suplantando dificuldades facilmente imagináveis por se encontrar preso em outro ponto da cidade, virá a ser seu preceptor e educador à distância, por meio de farta correspondência trocada clandestinamente com a filha. É ele quem aconselha leituras e mestres (de inglês e latim) à menina ávida de conhecimento, que virá a escrever seu primeiro soneto aos 15 anos, segundo declara, “para distrair seu pai das agruras do cárcere e para desafogar o seu sofrimento durante esses anos”(p. 23).
Passar a infância e a juventude no convento “marcou profundamente a personalidade e a obra de D. Leonor de Almeida [...] que representará a si própria na sua obra poética como um ser triste, marcada pelo infortúnio, vítima do despotismo e da tirania” (p.19-20). Não por outro motivo, escolheu para epígrafe de suas obras o verso de Ovídio: “Procuro nos meus poemas um esquecimento para os meus desgostos.” (p.72)
Mesmo depois de libertada, casando-se em 1779 com o conde alemão Carlos Augusto de Oeynhausen (1738-1793), não se sentiu propriamente bafejada pela fortuna. Segue com o marido para Viena em 1780 e só regressa a Portugal em data ainda indefinida, entre 1790 e 1792, carregada de filhos e, ao que tudo indica, mal de finanças. Logo após enviuvar, em 1793, mantém “relações de intercâmbio literário” (p. 38) com alguns poetas da Nova Arcádia (Francisco José Bingre e Bocage). E em 1801 é nomeada, pelo príncipe regente, futuro D. João VI, “Dama de Honor” de D. Carlota Joaquina, dando início, de forma mais evidente, a uma atuação política – cheia de zelo patriótico, nem sempre bem compreendido – que a obriga a uma permanência na Inglaterra (1803-1814) por razões ainda nebulosas. A par dessa atuação política que só cessará na proximidade da morte, ocupará um lugar central na vida intelectual lisboeta (p. 44), abrindo seus salões aos grandes intelectuais da época (como Curvo Semedo, Conde de Sabugal e os jovens Antonio Feliciano de Castilho e Alexandre Herculano).
Apesar das rápidas pinceladas a que aqui me obrigo, parece-me facilmente constatável o fato de que esta vida de quase nove décadas contribui de maneira ímpar na visualização de um painel da sociedade portuguesa de fins do século XVIII, começos do XIX, sob a ótica política e cultural. Não se excluem também as relações de Portugal com uma Europa onde a Áustria, a França e a Inglaterra detinham consabidos poderes. Assim, a contextualização da vida e obra de Alcipe, como bem faz Vanda Anastácio, já ilumina ângulos desse tempo que talvez mereçam ainda mais detença.
Recordo os quatro momentos capitais desse itinerário histórico-biográfico: “D. Leonor [...]: A prisioneira de Chelas”; “Uma portuguesa na Europa das Luzes: 1778-1793”; “Uma mulher na política: 1793-1815”; “O Regresso a Lisboa: 1814-1839”.
Da obra poética, Vanda Anastácio nos apresenta a totalidade dos sonetos “de atribuição segura à Marquesa” (p. 47), somando 110 textos, nos quais se incluem 26 até agora inéditos – descobertos em meio ao vasculhar da enorme documentação deixada pela autora setecentista, cujos arquivos, espalhados por vários sítios, Vanda generosamente registra, poupando tempo a todos os que se interessarem por refazer seu percurso pioneiro.
Esses sonetos estão apresentados segundo a ordem cronológica que foi possível determinar, sob as rubricas de “Sonetos do Período de Chelas”, “Sonetos posteriores ao período de Chelas” e “Sonetos inéditos”. Confirmando o caráter escolhido de “edição comentada”, vêm cercados de notas informativas que tanto atendem às expectativas do leitor comum, interessado em compreender e fruir o poema, como ao leitor especializado, voltado para minúcias de fontes, datação, variantes, remissões bibliográficas…
Partidária da idéia de que os chamados textos “de divulgação” e os “de rigor científico” não são necessariamente excludentes, a prática da investigação filológica levou Vanda Anastácio a encontrar uma via de diálogo com seu leitor onde predomina a clareza, a elegância e a fluidez envolvente do discurso. Deste modo, ao leitor menos afeito a esmiuçar o texto literário oferece pistas para que ele perceba nos sonetos de Alcipe os valores estéticos do tempo em que foram produzidos, o culto aos bons modelos, a importância das alusões à mitologia greco-latina, as retomadas de poetas latinos e italianos (aliás, generosamente transcritos), a forte presença de Camões, a temática de cunho pessoal/subjetivo e a de cunho político…
Já aos especialistas em crítica textual, filólogos, gramáticos, lingüistas, ou mesmo sociólogos e historiadores, não faltam elementos em que deter seus zelos, visto que, ao fixar os critérios que adotou na presente edição, Vanda Anastácio lhes acena com itens passíveis de exploração sob outros ângulos. E ainda, nas notícias seguras sobre os fundos documentais e os testemunhos consultados, onde cabe ressaltar o produtivo entrelaçamento entre textos poéticos e textos epistolares, entre textos manuscritos e textos impressos, este “breve livro” abre perspectivas de investigação inesgotáveis. Não faltam mesmo comentários sobre preocupações metalingüísticas da marquesa…
Enfim, como creio ter deixado claro, a publicação em pauta resulta do trabalho minucioso e amoroso de uma filóloga… sobre outra filóloga. Filóloga no seu sentido primeiro, no sentido etimológico da palavra. Filos + logos. Amante do saber, de vários saberes – o letrado, o douto, o erudito. Aquele que verdadeiramente se deleita em beber, saborear e difundir conhecimento. É o que faz a extraordinária Marquesa de Alorna no seu tempo. É o que faz Vanda Anastácio, hoje, ao estudá-la. Enfim, como diria o atual Marquês de Fronteira, aqui temos duas mulheres notabilíssimas…
Gilda Santos é professora de Literatura Portuguesa na Faculdade de Letras/UFRJ, vice-presidente do Real Gabinete Português de Leitura (Centro de Estudos) e coordenadora-geral do Pólo de Pesquisa sobre Relações Luso-Brasileiras (PPRLB) da mesma instituição.
