marienbad
9. Império. Há alguns anos foi publicado um livro chamado “Império”, de Michael Hardt e Toni Negri, uma destas obras de fôlego e moda que parecem trazer respostas e soluções. A tese central, exposta através de malabarismos teóricos que iam do brilhantismo à pura confusão, era de que o momento atual do capitalismo correspondia àquilo que os autores chamaram de Império. Isto não significava em Hardt e Negri uma referência ao recrudescimento do imperialismo militar americano, mas antes uma maneira de entender o processo de globalização. O capitalismo imperial se caracterizaria por uma mistura de gerenciamento de conflitos, que, através de e visando ao acúmulo imenso de riquezas cria uma insidiosa teia de interdependência entre nações, corporações e indivíduos. A originalidade do argumento estaria em chamar a atenção para o fato de que aquilo que normalmente e sem que nos preocupemos muito chamamos de globalização, na verdade tinha um telos, uma estrutura e finalidade própria. Mais que um acidente, uma evolução ou um acontecimento fortuito na história do capitalismo, a globalização/império correspondia a um estágio mais ou menos final da história do capitalismo. Sua característica mais problemática seria a impossibilidade de resistência real, já que a rede de relações comerciais que são a base do império estaria presente em todos os aspectos da realidade humana, do afeto à sexualidade, do corpo à religião, e, claro, no trabalho e na economia. Não só o Império organizaria estas várias dimensões como teria aprendido a gerenciá-las e controlá-las de forma a impedir que a crítica se desenvolvesse.
A base do argumento é a adaptação das idéias de Foucault, de controle e disciplina, a um ambiente em que os números, seja de população, seja de riqueza, seja de tecnologia, extrapolaram qualquer escala mesmo sonhada há uns vinte anos pelo menos. Somando-se a isso o surgimento de redes de relações que se organizam e se regulam, como as redes comerciais, as de informação ou as de comunicação (na verdade uma mesma coisa) e temos o capitalismo contemporâneo, o Império. A única maneira de se resistir a isto, argumentam, é mimetizar sua forma específica de poder, contrabalançar número e rede com número e rede. Já que existem milhares de McDonalds espalhados pelo mundo, que servem milhões de refeições e movimentam bilhões em dinheiro, esta escala e esta presença só pode ser contra-balançada com uma escala semelhante. Bilhões em dinheiro, mas também bilhões de corpos destituídos, que deveriam se unir em resistência. Um livro que traz como novidade, como se vê, a idéia fundadora dos movimentos comunistas de que uma revolução só é possível se for internacional e em massa. E (quase) nenhuma ironia nesse meu comentário, de fato este tinha sido um pressuposto político esquecido.
Daqui, cinco ou seis anos depois do lançamento e sucesso do livro, após um crash econômico que quase derreteu estas redes todas que pareciam tão indestrutíveis, e a eleição de um imperador negro, e a absoluta banalidade tanto do otimismo e pessimismo deste período, vê-se o quão ingênuo e impensado é este fascínio pelo número. A escala não salvou o poder, a escala não trouxe a revolução, a escala não mudou certos pressupostos tão antigos quanto a própria cultura humana, como o de que certos deuses, como a esperança, a surpresa e o sofrimento estão enraizados e têm sua realidade em gestos muito básicos e infinitamente mais relevantes e profundos que um Big Mac ou uma passeata, mesmo que milhões de Big Macs e passeatas de milhares. A questão que se coloca agora é de novo quais idéias e causas valem a pena, quais os combates e os momentos que valem nosso sangue, ou algo mais ordinário, nosso tempo. Mais do que os “comos”, estamos de novo e como sempre diante da obrigação dos “porquês”, dos “o quês”. E, como sempre, é preciso escolher com cuidado.
Há alguns meses escrevi um prefácio para um livro de Guy Debord, me referindo a uma idéia que está por trás de seu pensamento político, a de que nós, como civilização, vivemos uma infância, mas isso em um sentido negativo. Paixões infantis, idéias infantis, gestos infantis dentro de um paraíso arruinado. E arruinado porque no espelho não nos reconhecemos como Adãos e Evas, o que somos. Estamos presos a esta longa infância de Adão, ilusória e absurda como o pressuposto de que o que o fez abandonar o paraíso foi uma interdição. Não, Adão e sua companheira foram embora do Éden porque decidiram ser o primeiro homem e a primeira mulher, como o homem que decide parar de mijar sobre o fogo da fábula de Freud, como a adolescente nazarena que vai contra seu treino e corneia o marido com um deus, e assim, saindo da infância, fundaram todos a história. Seus atos ainda ressoam aqui, a esta altura, e avisam que esta infância ultrajante está sempre a um gesto do fim. Obviamente o paraíso plástico dos Big Macs ou a glória fácil das passeatas não vão se extinguir, mas se meu argumento tem algum estofo e o magnetismo (e parasitismo) que exercem sobre esta humanidade cansada é na verdade superficial, o primeiro homem, o único na verdade, ainda é possível e o paraíso talvez não seja um lugar tão difícil de ser abandonado.
Ricardo Pinto de Souza, professor, escritor e editor-artesão da Oficina Raquel. É autor de CULTURAS.

