em tempos futuros, ler-se-á sobre nós: uma entrevista com anna ditges


Anna Ditges deixou Colônia e foi a Heidelberg encontrar Hilde Domin, que anos antes a impressionara pela obra poética. Mais precisamente, por Nur eine Rose als Stütze [Apenas uma rosa como apoio], primeiro livro de poemas de Domin, com o qual Ditges se deparara por acaso. Entre elas, uma diferença de idade de quase setenta anos. Longe de se tornar uma relação tiete-mito, Anna trouxe, com o documentário, a possibilidade do encontro entre pessoas que, em certa medida, ocupam espaços sociais denominados “leitor” e “autor”. Nesta talvez sutil, porém imensa superação, reside o tom magistral do filme rodado com pouco dinheiro e bancado, mais do que tudo, por amor — fenômeno que faz do documentário um encontro não apenas com a poeta, não apenas com a pessoa, mas com a poética de Domin. Se já em “Wozu Lyrik heute?” Domin afirmara ser a poesia a irmã do amor, então Ditges acerta muito, num tempo como o nosso, ao se propor realizar um documentário sem prévias intenções financeiras, apenas pelo justo e justificável afeto. Lançado em 2007, no ano seguinte à morte de Domin, Ich will dich – Begegnungen mit Hilde Domin [Eu te quero – encontros com Hilde Domin] já foi premiado com o Kölner Medienpreis 2008, além de ter sido nomeado em outros festivais e recebido com entusiasmo pela imprensa alemã. Neste ano de 2008, o documentário saiu DVD, cuja aquisição pode ser feita através deste site. O título do filme faz referência ao poema homônimo, “Freiheit/ ich will dich/ aufrauhen mit Schmirgelpapier/ du geleckte” [Liberdade/ eu te quero/ passada em papel de esmeril/ lambida]. A entrevista a seguir apresentada é parte do que se encontra aqui, com algumas perguntas extras que a cineasta gentilmente respondeu a Fernando Miranda.

Entrevista concedida a Fernando Miranda.

Como surgiu a idéia de fazer um filme sobre Hilde Domin?

Deparei-me com sua poesia por coincidência, e a partir de então quis conhecê-la. O primeiro encontro foi impressionante, porque foi de cara muito intenso. Fiquei, evidentemente, fascinada com a sua forte personalidade e sua apaixonante história de vida.

Para mim, Hilde era com um livro vivo, através do qual eu podia ler o último século. Uma senhora de 95 anos, extremamente viva e despachada. Com ela se podia falar abertamente.

Domin era conhecida como uma pessoa difícil, egocêntrica. Como foi a convivência entre vocês durante as filmagens?

O filme demonstra claramente que não foi fácil. Cada vez que eu me aproximava dela com a câmera, discutíamos uma com a outra. No início, quando ela se queixava, eu desligava prontamente a máquina. Em certo momento percebi que a nossa discussão teria de fazer parte do filme. Por isso, continuava a filmar. Acredito que com o passar do tempo isso se tornou também uma brincadeira entre nós. Tinha algo de flerte, como um jogo de atração e repulsa. A câmera a incomodava muito, tanto que ela se sentia praticamente acariciada pela intensa atenção que eu lhe dava. Porém, Hilde passou a deixar a câmera de lado e a ignorá-la cada vez mais, pois sabia o quão importante aquilo era para mim, para realizar o filme.

O filme foi rodado somente por você, como um “time-de-uma-pessoa-só”. Isso havia sido previamente planejado?

De início, eu havia considerado contratar um cameraman. Mas, primeiro, eu não tinha financiamento; segundo, ficou rapidamente muito claro que a proximidade que tivemos — e a qual eu esperava ter — não poderia ter surgido caso houvesse outras pessoas. Às vezes eu tinha de esperar o dia inteiro por uma cena, ou seja, eu vivi Domin e seu cotidiano com muita proximidade, a fim de me adaptar a ela. Tomava café-da-manhã com ela e à noite a acompanhava até a hora de dormir. Isso cria, claro, uma atmosfera muito mais íntima do que se houvesse uma equipe inteira de filmagem.

Já haviam terminado as filmagens quando Domin faleceu, em 2006?

Duas semanas antes da morte dela, ainda passamos um final de semana lindo e intenso, e eu cheguei a fazer até algumas gravações. As últimas imagens foram filmadas no seu enterro. Enfrentar a sua morte foi um processo longo e doloroso – isso se tornou claro para mim durante a montagem do filme. Na ilha de edição, ela ainda permanecia muito viva para mim. E meses depois ainda era difícil editar o final do filme, pois se tratava de sua solidão e de sua morte.

Qual efeito você espera que seu filme tenha?

Usando as palavras de Domin: ”Laternen anzünden in den Herzen am Weggrand” [acender as lanternas nos corações à beira do caminho]. Seria maravilhoso se o filme abrisse a sua poesia para um ou outro leitor. Espero, sobretudo, que o filme aproxime o telespectador à complexidade e singularidade de Hilde. Desejo isso porque eu gostava e ainda gosto cada vez mais dela. E penso que no filme está claro o porquê.

Como foi a sensação de visitar, acompanhada de Hilde Domin, a sua própria cidade?

Foi maravilhoso visitar Colônia com ela. Afinal, é a cidade natal dela e a minha cidade natal por opção! Além disso, Domin nascera ali em 1909, o que fez com que nosso tempo juntas em Colônia fosse sempre excitante e especial. A antiga casa onde ela nasceu ainda permanece lá, e na visita que fizemos, e que está retratada no filme, ela reconheceu tudo. Hoje em dia é uma república.

Logo no início do filme vocês começam a se tutear. Foi de fato assim tão rápido? A proposta fora feita por Domin?

Antes de nos tutearmos no filme, há um passo e um intervalo. Certa noite, Domin me disse: “Temos de nos tutear.” Então, sem mais uma palavra, ela se retirou para o quarto. Factualmente, porém, Hilde já me tuteara antes. Nós simplesmente estávamos muito próximas uma da outra.

Você esperava que o documentário pudesse interessar e agradar tanto a especialistas quanto aos leitores em geral?

Sempre foi meu desejo fazer um documentário para pessoas que tivessem a possibilidade de descobrir Hilde Domin e sua obra, independente de serem especialistas ou não. Eu queria levar Domin ao coração dos outros.

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