dois poemas – hilde domin


Nascida no ano de 1909, em Colônia, Hilde Domin começou a escrever poemas somente a partir de 1951, quando já se encontrava exilada na República Dominicana, país que a fez adotar o sobrenome do pseudônimo, em substituição a Palm, que ganhou quando casara. Devido à distância entre os idiomas e ao fato de não ter uma boa divulgação em língua portuguesa, Domin ainda é nome de restrito prestígio no Brasil. Na Alemanha, entretanto, não se pode contornar a poeta quando se fala de pós-guerra. Ao lado de Paul Celan, Rose Ausländer, Ingeborg Bachmann, entre outros, Domin se concentra, em sua obra, nos temas do exílio – a língua estrangeira, a perda da terra natal, os choques e encontros culturais. Escreveu, ademais, prosa e ensaios, destacando-se o “Wozu Lyrik heute?” [Para quê poesia hoje?]. Ganhadora de diversos prêmios literários e traduzida para mais de vinte idiomas, Domin faleceu em Heidelberg no mês fevereiro de 2006.



Gleichgewicht

Wir gehen
jeder für sich
den schmalen Weg
über den Knöpfen der Toten
- fast ohne Angst -
im Takt unsres Herzens,
als seien wir beschüzt,
solange die Liebe
nicht aussetzt.

So gehen wir
zwischen Schmetterlingen und Vögeln
in staunendem Gleichgewicht
zu einem Morgen von Baumwipfeln
- grün, gold und blau -
und zu dem Erwachen
der geliebten Augen.




Equilíbrio

Nós vamos
cada um por si
no caminho estreito
sobre as cabeças dos mortos
- quase sem medo -
seguindo nossos corações,
como se estivéssemos protegidos,
enquanto o amor
não se interrompe.

Assim vamos nós
entre borboletas e pássaros
em admirável equilíbrio
para uma manhã da copa das árvores
- verde, dourado e azul –
e para o despertar
dos olhos apaixonados.

Nichts geschieht

Das Messer das dich verletzt
ohne daß die Hand eines Menschen
es hält
- nichts ist geschehen -
läßt eine unheilbare Wunde.

Die Kerze die du entzündest
ohne das Bild der Maria
um etwas zu bitten
- nichts geschieht -
hilft dir zu leben.




Nada aconteceu

A faca que te feriu
sem que a mão dum homem
a segurasse
- nada aconteceu -
deixa uma incurável ferida.

A vela que acendeste
sem a imagem de Maria
para pedir algo
- nada aconteceu -
te ajuda a viver.

Fernando Miranda é bacharel em língua e literatura alemã pela Universidade Federal Fluminense. Atualmente, está no segundo período de intercâmbio na Universität Tübingen.

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