a aposta de pascal – bernardo guadalupe dos santos lins brandão


No fragmento Br. 233/ La. 418, intitulado Infinirien, Pascal afirma que “se há um Deus, ele é infinitamente incompreensível, pois, não tendo partes nem limites, não tem nenhuma relação conosco”. [1] Nós, seres finitos, somos incapazes de abarcar a infinitude de Deus: “O finito se aniquila na presença do infinito, e torna-se um puro nada. Assim, nosso espírito em face de Deus; assim nossa justiça em face da justiça divina. Não há uma desproporção tão grande entre a nossa justiça e a de Deus, como entre a unidade e o infinito.”

Desse modo, não se pode censurar os cristãos por professarem uma religião de que não podem dar razões: “É carecendo de provas que não carecem de senso.” No entanto, alguém poderá dizer que “embora isso desculpe aqueles que assim a oferecem, e os salve da pecha de expô-la sem raciocínio, isso não desculpa os que a recebem”. Na seqüência de tal objeção, Pascal introduz seu argumento da aposta, no qual defende que é sensato acreditar na existência de Deus mesmo sem raciocínios conclusivos a esse respeito: para o pensador, se a razão não nos pode iluminar na questão da existência ou da inexistência de Deus, devemos apostar em um dos dois lados – e não é possível não apostar, pois estamos, de qualquer modo, no jogo. Não apostar é também uma escolha, uma aposta. Mas, dessa forma, no que é mais sensato apostar? Escreve Pascal:

Vejamos. Já que é preciso escolher, vejamos o que menos vos interessa. Tendes duas coisas a perder: a verdade e o bem; e duas coisas a empenhar: vossa razão e vossa vontade, vosso conhecimento e vossa beatitude; e vossa natureza tem que fugir de duas coisas: o erro e a miséria. Vossa razão não se sentirá mais atingida por terdes escolhido uma coisa de preferência a outra, já que é preciso necessariamente escolher. Eis um ponto liquidado. Mas, vossa beatitude? Pesemos o ganho e a perda escolhendo a cruz, que é Deus. Consideremos esses dois casos: se ganhardes, ganhareis tudo; se perderdes, não perdereis nada. Apostai, pois, que ele existe, sem hesitar.

Pode-se sintetizar o argumento da seguinte forma: dadas as circunstâncias – a razão não pode se decidir, não é possível não jogar –, o melhor é apostar na existência de Deus, pois, se essa for a escolha errada, não se perde nada, e se for a escolha certa, ganha-se tudo, “uma eternidade de vida e de felicidade”.

Apesar de todo o interesse despertado pelo argumento pascaliano, as objeções já aparecem bem cedo na história da recepção dos Pensamentos: os Pensées sur la religion et des autres sujets par Blaise Pascal foram publicados em 1670, oito anos após a morte do pensador. Em 1671, o abade Villars apresenta, no seu Traité de la délicatesse, um diálogo entre Paschase (que representa Pascal), Aliton e Menipo (figura principal dos Diálogos dos Mortos, de Luciano de Samósata). Ali, Aliton se indigna contra o argumento da aposta: diz que não se deve tratar assuntos tão elevados através de uma idéia tão baixa e pueril como a de um jogo. Essa mesma idéia será retomada por Voltaire nas suas Cartas filosóficas. [2]

Em 1700, Claude Gilbert, em Historie de Calevaja ou de l’isle des hommes raisonnables, declara que a existência do Alcorão e da religião muçulmana faz com que existam mais possibilidades de aposta, e não apenas duas. Diderot retoma essa objeção: “Um Imam poderia raciocinar da mesma maneira.” De fato, parece que o argumento da aposta foi baseado em uma passagem da Alquimia da felicidade de Abu Hâmid Muhammad al-Ghazzâlî, que argumenta contra aqueles que acreditam ser impossível decidir se existe uma vida futura:

Mas caso ele diga que a vida futura é possível mas que a doutrina está tão envolvida com dúvidas e mistério que é impossível decidir se é verdade ou não, então podemos lhe dizer: “Então é melhor que você lhe dê o benefício da dúvida”. Suponha que está para comer e alguém lhe diz que uma serpente cuspiu veneno na comida, você provavelmente se refrearia e preferiria agüentar a fome do que comê-la, mesmo considerando que seu informante possa estar brincando ou mentindo. (…) O Senhor Ali uma vez, argumentando com um infiel, disse: “Se você está certo, então nenhum de nós estará pior no futuro, mas se nós estamos certos, então nós escaparemos e você sofrerá”. Ele assim disse não porque tivesse qualquer dúvida, mas simplesmente para causar uma impressão no infiel. [3]

Segundo Lonning [4], as objeções apresentadas à aposta no decorrer da história de sua recepção podem ser reduzidas a oito, cinco lógicas e três morais:

1. A terceira possibilidade, a de não apostar, é valida.
2. Provar a desirabilidade de algo não prova sua existência.
3. A escolha não é uma feita entre duas alternativas, mas entre várias.
4. A estimativa que fixa a proporção do ganho em 1/infinito não é evidente, mas repousa sobre pressuposições subjetivas.
5. A definição das chances a 1/1 é arbitrária e é suscetível a objeções.
6. A imagem do jogo e do jogador é frívola e não está de acordo com a gravidade do assunto.
7. O apelo ao amor de si e ao interesse próprio está na essência do cálculo de probabilidades e não corresponde às exigências de uma atitude moral e religiosa íntegra.
8. A idéia de que a existência de Deus é incerta a ponto de ser necessária uma aposta não é compatível com a idéia de divindade.

Serão essas objeções suficientes para invalidar o argumento? Creio que, se a aposta for considerada isoladamente, esse é realmente o caso, ao menos com relação à terceira objeção (de que não existem apenas duas possibilidades). No entanto, encarada como no contexto maior do pensamento apologético de Pascal, ela se torna mais forte.

Antes de tudo, deve-se notar que o lugar da aposta no projeto pascaliano de uma Apologia da religião cristã é bastante controvertido entre os especialistas. Não há nenhuma indicação feita por Pascal com relação ao argumento, o que fez com que estudiosos como Marie Rose e Michel Le Guern chegassem a supor que o fragmento Infinirien não estaria destinado à Apologia, mas seria uma anotação para outro livro: “Tudo leva a pensar que essas quatro páginas… constituem elas mesmas uma apologia completa e independente que se distingue da grande apologia pelo fato de que é destinada a um público limitado e nitidamente caracterizado.” [5]

No entanto, mesmo que não houvesse planos de inserir a aposta na Apologia da religião cristã, ainda assim poderíamos considerá-lo em relação às outras anotações de Pascal contidas nos Pensamentos. Afinal, a maior parte delas, incluindo o próprio argumento da aposta, trata do mesmo assunto, a defesa do cristianismo, e foram pensadas pelo mesmo autor. Assim, o único cuidado que me parece necessário é o de falar não do argumento da aposta em relação ao resto dos Pensamentos, mas em relação ao pensamento apologético de Pascal como um todo.

Feitas essas advertências, é preciso considerar o que o argumento da aposta não é. E ele não é, como o faz parecer a segunda objeção (mostrar a desirabilidade de algo não é mostrar sua existência), um argumento que prove a existência de Deus. De fato, Pascal coloca essa objeção na boca de um libertino, perto do final do texto em questão:

– Está bem, mas tenho as mãos amarradas e a boca fechada; obrigam-me a apostar, e não estou livre; não me soltam. E sou feito de tal maneira que não posso crer. Que quereis, pois, que eu faça?

– É verdade. Mas aprendei pelo menos vossa impotência para crer, já que a razão a isso voz conduz e que todavia não o podeis. Esforçai-vos, pois, não para vos convencerdes pelo aumento das provas de Deus, mas pela diminuição das vossas paixões.

Diante da objeção do libertino, Pascal concorda: não é fácil convencer alguém com esse raciocínio. [6] E segue: mas o raciocínio mostra que é mais vantajoso crer e, diante disso, que o incrédulo constate a sua impotência em crer, apesar da desirabilidade de tal crença. No fr. Br. 257, escreve Pascal: “Há apenas três espécies de pessoas: umas servem Deus, tendo-o encontrado; outras aplicam-se em buscá-lo, não o tendo achado; outros enfim vivem sem o procurar e sem o ter encontrado. As primeiras são sensatas e felizes, as últimas loucas e desgraçadas, as do meio infelizes e sensatas.”

Esse fragmento parece-me bastante útil aqui. O argumento da aposta não foi formulado para que o incrédulo encontre a Deus logo após a sua leitura. Mas o foi para que este, após constatar a utilidade da crença em Deus, deixe de ser louco e desgraçado e passe a ser infeliz e sensato, buscando Deus, mesmo sem tê-lo encontrado ainda. E é por isso que, como nota a sétima objeção, faz apelo ao amor de si, incompatível com uma vida religiosa íntegra: o argumento não é direcionado para aqueles que já seguem o cristianismo, mas para aquele que é louco e insensato e vive de acordo com seu amor próprio e as paixões do mundo. A esse respeito, é útil a leitura do fr. Br. 16: “A eloqüência é a arte de dizer as coisas de maneira: 1o. Que aqueles a quem falamos possam entendê-las sem dificuldade e com prazer; 2o. Que nelas se sintam interessados, a ponto de serem impelidos pelo amor-próprio a refletir sobre elas.”

Eis o que realiza Pascal com seu argumento. Primeiro, ao mostrar o “salto da fé” como uma aposta, Pascal consegue que seu leitor, um típico libertino amante dos jogos de azar, entenda a argumentação sem dificuldade e com prazer. [7] Em segundo lugar, ao mostrar a grande vantagem da crença, faz com que ele se sinta interessado, reflita sobre o assunto e busque a Deus. Com isso, não apenas são solucionadas as dificuldades da segunda objeção, mas também da sexta (a imagem do jogador é frívola) e sétima (o argumento utiliza o amor próprio).

Mas como o incrédulo, persuadido pelo argumento da aposta, buscará Deus? É o que fala Pascal na parte final do fragmento Infinirien:

Esforçai-vos, pois, não para vos convencerdes pelo aumento das provas de Deus, mas pela diminuição das vossas paixões. Quereis chegar à fé, e não sabeis o caminho, quereis curar-vos da infidelidade, e pedis o remédio: aprendei com os que estiveram atados como vós, e que apostam agora todos os seus bens; são pessoas que conhecem esse caminho que desejaríeis seguir, e que estão curadas do mal de que desejais curar-vos. Segui a maneira pela qual começaram: fazendo tudo como se tivessem fé, tomando água benta, mandando dizer missas, etc… Naturalmente isso vos fará crer e vos tornará simples. – Mas é isso o que eu temo. – E por quê? Que tendes a perder?…

Assim, Pascal afirma que não se deve buscar a Deus pela curiosidade intelectual, mas através da vida: é necessário o esforço para que diminuam as paixões, é preciso agir como se já houvesse fé, é útil mandar rezar missas, usar água benta etc.

Esse conselho de Pascal, especialmente o trecho das missas e da água benta, é talvez a passagem mais criticada do texto. A esse respeito diz William James em seu A vontade de crer:

Parece-nos que a fé em missas e água benta adotada intencionalmente após tal cálculo mecânico seria desprovida da alma interior da realidade da fé; e, se estivéssemos nós mesmos no lugar da Divindade, provavelmente teríamos um prazer especial em excluir os crentes dessa espécie de sua recompensa infinita… Certamente nenhum turco jamais se voltou para missas e água benta por causa dessa argumentação… [8]

Apesar disso, não creio que seja preciso pensar que Pascal foi ingênuo nesse trecho. O fr. Br. 245 parece iluminar a questão:

Há três meios de crer: a razão, o costume, a inspiração. A religião cristã, que é a única que tem razão, não admite como verdadeiros filhos os que crêem sem inspiração: não que exclua a razão e o costume, ao contrário; mas é preciso abrir o espírito às provas, assegurar-se destas pelo costume, oferecer-se pelas humilhações às inspirações, que são as únicas que podem produzir o verdadeiro e salutar efeito: Ne evacuetur crux Christi.

Certamente as missas, a água benta e o agir como se já houvesse fé fazem parte do costume. E esse é um dos meios legítimos de crer. No entanto, não me parece que Pascal recomende essas práticas meramente pelo costume. Como o fr. 245 indica, esse não é o principal meio para a fé. A inspiração é a única que pode produzir o verdadeiro e salutar efeito. Ora, as recomendações de Pascal parecem se dirigir nesse sentido: a recomendação de agir como se tivesse fé, de mandar rezar missas e usar água benta deve ser seguida juntamente com a recomendação de diminuir as paixões. Essas práticas possuem efeitos complementares. Enquanto a diminuição das paixões retira os bloqueios para a ação da graça divina, as missas e a água benta são um veículo para ela. A água benta é um sacramental. Os sacramentais são sinais que “não conferem a graça do Espírito Santo à maneira dos sacramentos, mas pela oração da Igreja preparam para receber a graça e dispõem à cooperação com ela”. [9] Por sua vez, “mandar dizer missas” é, na Igreja Católica, uma forma privilegiada de oração de intercessão, um dos melhores modos de pedir a Deus que mande sua graça e que, assim, venha a inspiração e a crença.

Outro ponto a ser considerado, diverso do teológico, é a passagem em que Pascal recomenda que o exemplo dos que não acreditavam e passaram a crer seja seguido. Essa passagem, geralmente descuidada dos comentadores , é de extrema importância para a compreensão desse ponto: o preceito é motivado não apenas por doutrinas teológicas do valor da missa e do uso dos sacramentais, mas, se devemos levar as palavras de Pascal a sério, pela experiência. Ao dizer que os que não tinham fé e passaram a crer devem ser imitados, Pascal prescreve ao incrédulo movido pelo argumento da aposta que siga uma receita já testada. De fato, seria interessantíssimo o estudo mais acurado dessa passagem e a determinação de quem seriam essas pessoas aludidas por Pascal.

Tal pesquisa ultrapassaria o objetivo deste texto. No entanto, alguns exemplos contemporâneos dos resultados de práticas similares às sugeridas por Pascal mostraram seus resultados. Um dos mais curiosos ocorreu no reality show da BBC2, The Monastery. O programa consistia em cinco homens, nenhum deles católico, que deveriam passar aproximadamente um mês na Abadia de Worht, vivendo o estilo de vida beneditino. Segundo nos conta o jornal inglês The Telegraph, apesar do início difícil, o resultado final foi o previsto por Pascal: os participantes incrédulos passaram a crer.

Por fim, a consideração do argumento da aposta dentro de seu contexto parece também responder à sua principal objeção: de que não existem apenas duas opções a serem consideradas e que deveríamos pensar também nas outras religiões. Em primeiro lugar, o argumento foi criado para um tipo de público bem específico, o libertino francês do século XVII. Ora, para usar a terminologia de William James em A vontade de crer, o islamismo ou o taoísmo não eram opções vivas para esse público, ou seja, naquela cultura, estas não eram crenças dignas de maior consideração. O catolicismo jansenista de Pascal, no entanto, provavelmente o era.

Além disso, deve-se notar que boa parte dos Pensamentos são dedicados a mostrar a superioridade do cristianismo com relação às demais religiões. Assim, se lemos o fragmento Infinirien tendo em mente a argumentação de Pascal a favor da supremacia do cristianismo, compreendemos por que não seria possível que um Imã raciocinasse do mesmo jeito: para Pascal, ele não possuiria argumentos tão fortes a favor de sua religião como o cristianismo.

NOTAS

[1] Uso aqui a edição de 1961 da Difusão Européia do Livro, na tradução de Sérgio Milliet: PASCAL. Pensamentos. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1961.
[2] Sobre a história da recepção da aposta, ver LONNING, P., Cet Effrayant Pari. Une pensée pascalienne et ses critiques. Paris: J. Vrin, 1980, p. 138-142.
[3] GHAZZÂLÎ. A alquimia da felicidade. Rio de Janeiro: Fissus, 2001, p. 48.
[4] Ibid.
[5] Apud LONNING, 1980, p. 25.
[6] Não é fácil, devemos notar, mas também não é impossível. Jeff Jordan, no prefácio de seu Gambling on God, p. 1, conta-nos que von Neumann, um dos pioneiros da teoria dos jogos e convertido ao catolicismo depois que lhe foi diagnosticado um câncer incurável, disse certa vez, talvez ironicamente, que Pascal tinha razão com o argumento da aposta: que se houvesse a possibilidade que Deus existisse e que a danação fosse o destino do incrédulo, então era razoável acreditar.
[7] Aliás, é precisamente ser dirigida ao libertino amante dos jogos que o argumento pascaliano se diferencia do de Ghazzâlî, que possui basicamente a mesma lógica, mas que não utiliza a imagem de uma aposta.
[8] JAMES, W. A vontade de crer. São Paulo: Loyola, 2001, p. 15.
[9] CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. São Paulo: Vozes & Loyola, 1993, p. 456.
[10] Lonning, por exemplo, no seu comentário do parágrafo em que está essa passagem, não a considera, concentrando-se em estudar a famosa expressão “cela vous fera croire et vou abêtira”.

Bernardo Guadalupe dos Santos Lins Brandão é doutorando em Filosofia pela FAFICH/UFMG e professor do DELET/UFOP. Seu email é: geraldosantos@yahoo.com.br .

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