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UDENLANDSK

(recensão a Brynt Kobolt, de Manuel de Freitas. Lisboa: Averno, 2008)

“Um poeta está sentado na Holanda. Pensa na tradição.” [1] Um poeta está na Dinamarca, e a ação da movência pode ser bastante tímida se esse poeta for Manuel de Freitas. Talvez o mais claro deslocamento que se entrevê na lírica de Freitas seja o caminho humano para a morte, tema recorrente em toda a sua obra desde Todos contentes e eu também, livro de estréia, datado de 2000. E Freitas na Dinamarca, se faz supor deslocamento – o que sugere também, conseqüentemente, um lugar desse poeta na “tradição” das mui portuguesas viagens –, não está tão deslocado assim. Na verdade está, mas por outro motivo. Cito “Sparkling Water”: “Só na última manhã descobrimos os encantos/ e a esplanada (a esplanada, sobretudo) / de Ørsteds Parken. Alinhavam duas a duas/ as cadeiras, impondo-nos a vista para o lago/ em forma de rim e calmo. Os pássaros,/ como nós, preferiam não andar sozinhos.// Ficou por sentir o peso da despedida,/ o pânico de um avião que nos reconduziria/ à ditosa boçalidade lusitana (…)” (p. 17)

Desconfio, no entanto, de que não fará tanta diferença assim o lugar, e o lugar muda (o livro se passa todo na Dinamarca) para revelar, talvez, que o lugar não muda tanto. Há a outra cidade, o outro país, a outra língua, e há a volta “à ditosa boçalidade lusitana”. Mas não é de partidas e retornos que trato, e sim de permanência: se se acentua o estranhamento no lugar distinto, não se reduz o desconforto de não haver lugar. O viajante, pois, não mora em lugar algum, e precisa lidar, precisamente por isso, com lugares, seja Copenhaga, seja uma boçal Lisboa: aqui um dos tremendos descompassos que marcam a poesia de Freitas, que é o de jamais conseguir se situar: “(…) Não é fácil/ decifrar os códigos de uma cidade (…)” (p. 12), “Pissoir”. Não havendo sítios, nem cá nem lá, sentar-se na Holanda ou na Dinamarca é, se um gesto tradicional, também um gesto de desencontro, de perene provisoriedade. Portanto, não tanto a tradição das viagens, não as descobertas dum ser que se volta para o mundo como condição, mas a condição dum ser que se amedronta até com a nova nau, o “avião”, um ser que, mortal e morredouro desde o princípio – tanto poético como vital –, se vê em estado de “pânico”.

A morte, pois, é grave, sendo grave o medo de morrer. O poeta, logo, prefere “roubar um lápis” e “não pensar muito/ na morte (…)” (p. 17), mas não logra esquecer a poesia, estando nela como se ela fosse, e talvez realmente seja, mais um dos sítios provisórios e inseguros do mundo: “(…) Enquanto não muito longe/ (prometeste o segredo que não chegas a trair) / alguém toma por missão o que é obra/ apenas do acaso: a poesia, essa doença/ branda mas incurável que hoje se recusa/ a visitar-te (…)”, “Rygning Kan Dræbe” (p. 7). A basilar inadaptação da poesia de Freitas, nesse livro, ganha tintas peculiares e reforçantes, pois os nomes tornam-se estranhos a quem ignora (como o sujeito dos poemas de Brynt Kobolt) o idioma dinamarquês. Se “doença”, a “poesia” é patológica, apesar de seu lugar no mundo ser bastante relativizado por um tipo de lirismo que não se arroga mais um papel preponderante: “Deixa; não te fará mal – nem bem – menos/ um poema na tua vida. No reflexo de múltiplas janelas,/ em todos os comboios que perderes, encontrarás/ somente a certeza da desaparição (embora, ao teu lado,/ um corpo de mulher sonhe obstinadamente com a neve).” (p. 7)

Qual, portanto, a localização dum discurso tão atento ao que posso chamar de outro? Um recorrente modo expressivo da poesia de Freitas é o sujeito tratar-se por tu ou ele, o que, de algum modo, outriza o enunciador e, ao mesmo tempo, objetiva o dono do discurso – “Até me custa a crer que fui/ aquele rapaz de escuro (…)” (p. 13), “‘Interior Med Ung Læsende Mand’”. Desse modo, uma das vítimas da doença-poesia é quem a faz, na medida em que esse mesmo sujeito a sofre. Não surpreende que entre tantas afirmações de sujeitos poéticos semelhantes exista um desvio justamente no último poema do livro, “Pauline e Vilhelm”, cujo eu poético é feminino: “O meu marido foi para Skagen (…)” (p. 31)

Por outro lado, existe outro outro em “Rygning Kan Dræbe”, “um corpo de mulher” que sonha “obstinadamente com a neve”: qual o poder metafórico dessa “neve”? Talvez nenhum, essa talvez seja uma neve sem qualidades, pois a sugestão de “uma mulher” a sonhar carrega a onírica “neve” dela própria enquanto desejo real, concreto, não enquanto sugestão para fora da própria “neve” e, portanto, para dentro da literatura. Se considero que existe bastante afeto na dura poesia de Manuel de Freitas (reparo em outros outros humanos de Brynt Kobolt, entre os quais José Miguel Silva, numa dedicatória), o que nela esbraveja está sentindo, e o mundo torna-se item opositivo (“Gostaria, às vezes, de sentir um pouco mais de comoção/ por isto a que chamamos mundo (…)” (p. 15)) a um sentimento de verdadeira vontade afetiva.

É por esse viés que se encontra um dos sentidos da música nessa obra. Em Brynt Kobolt está o poema “Restaurant Parnas”: “Foi um som de piano que nos chamou/ para o outro lado da rua, mesmo em frente/ ao Magasin du Nord. De uma maneira/ ou doutra, a música tem sempre razão.” (p. 10) Não teria a “música” “razão” precisamente por não ter “razão”? A música, por excelência, encontra-se para além dos semas humanos, para além da linguagem comunicativa. A poesia tem ambição análoga, e é por isso que na aridez da poética de Freitas a poesia é um problema: lugar de dizer do afeto, lugar de dizer da miséria. Mas, sobretudo, topos (repito: um descompasso da poesia de Freitas é não conseguir se situar) que, à partida, se compõe de linguagem, de fornecimento de sentidos a um mundo que sentidos não possui. Assim, a poesia sempre corre o risco de chafurdar no mesmo lodo que vitima a linguagem comum, pois ambas se fazem de palavras, as mesmas. A música, no entanto, não, pois a “razão” que baliza, com mais ou menos intensidade, qualquer evento discursivo não comparece à linguagem musical.

“(…) E vai ser isso – sobretudo –/ o que eu vou recordar de Copenhaga, como/ se a neve de Agosto pudesse ser uma canção” (p. 21), ainda “Restaurant Parnas”. A música só tem lugar, aqui, numa construção memorial, e ainda assim no subjuntivo, espaço idiomático de incertezas, condições e impossibilidades. A cidade com perdidas músicas? “Não consegui saber o nome do disco,/ mas pude fumar – coisa que, daqui/ a dois dias, se tornará um interdito (…)” (p. 25), “Restaurant Parnas (II)”. Vive-se, morre-se, vive-se para a morte. Enquanto se vive, alguma música, algum afeto e algum gozo. Mas nem fumar se poderá, e institucionalmente querer-se-á enganar a morte sem que se perceba o poder de sublime destruição que reside ao fundo de muitos prazeres como o tabagismo: “Só me interessa, hoje,/ o que pude sentir nas minhas/ e nas tuas mãos: conchinhas/ da mais alva porcelana,/ seixos tenuemente cor-de-rosa.// Enquanto, esquecidos de Krøyer,/ percorríamos juntos a distância sem fim” (p. 26), “Em Hornbæk, com Pessanha”. “Um poeta está sentado” com a “tradição”, mas especialmente com uma herança que é, a um tempo, de máxima beleza e máxima fatalidade: a alvura se encontra com a morte, mas as “tuas mãos” ainda estão vivas e bem vivas, assim como as do magnífico poeta cujo nome acompanha o nome geográfico que é Hornbæk.

Ou seja, ainda que o mundo se torne um lugar cada vez mais hostil, muita coisa se pode ler, da poética de Freitas, em um de seus mais notáveis poemas, “Errata” [2]: se “Onde se lê mundo deve ler-se tirem-me daqui”, “Onde se lê amor deve ler-se Inês./ Onde se lê gato deve ler-se Barnabé./ Onde se lê amizade deve ler-se amizade”. Portanto, se “(…) tudo ou quase tudo/ serve unicamente para nos distrair da morte” (p. 9) (“Tivoli”), que as especialidades dos nomes possam ser especialidades do afeto. Em Lisboa, Copenhaga ou noutro sítio qualquer. Mas no mundo, decerto.

NOTAS

[1] HELDER, Herberto. Holanda. In _____. Os passos em volta. 8. ed. Lisboa: Assírio & Alvim. 20001. p. 15.
[2] In _____. Terra sem coroa. Vila Real: Teatro de Vila Real, 2007. p. 38.

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Luis Maffei é poeta e professor de Literatura Portuguesa da Universidade Federal Fluminense.

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