14


                                                            luis maffei


LER A MENSAGEM, HOJE POIS SEMPRE

recensão à edição da Mensagem, de Fernando Pessoa, “preparada segundo o exemplar de 1934 corrigido pelo punho do poeta”. Organização de Cleonice Berardinelli e Mauricio Matos. Rio de Janeiro: 7Letras, 2008.



O tempo é o que nos conforma. Conformados pelo tempo, pelos tempos, vamos, os humanos, numa lida perene de superação do tempo – e não é casual que eu tenha grafado perene justo desde um lugar no, e do, tempo. Cleonice Berardinelli, ao comentar a escolha, para sua recente edição, da grafia encontrada no exemplar da Mensagem de 1934, afirma: “(…) optamos por respeitar a vontade de Pessoa, claramente expressa em diversos textos reunidos no seu Espólio sob a designação Lingüística e publicados no fim do século passado” (p. 42). Escolha, decerto, legítima a de respeitar a vontade do poeta. Mais legítimo ainda, ou melhor, mais acertado ainda, é considerar, sim, o tempo, o de hoje pois o de ontem: lê-se ainda a Mensagem, e a importância da “vontade de Pessoa” é talvez menor que a importância dos tempos. Em outras palavras, em certo ontem foi escrito esse poema que ora se reedita, mas é hoje que o lemos, ainda que sempre o leiamos, e hoje temos mais uma edição da Mensagem.

E agora podemos lê-la com outra ortografia, a de outro tempo, a original. Assim, o “olhar” de “Europa” é “sphyngico” (p. 55), o que torna ainda mais esfíngico o rosto-Portugal que “fita” o “Occidente” (p. 55) do “Occidente”. Um leitor deste tempo se beneficia enormemente com a apresentação do livro, que revela os caminhos por que passou o poema antes de ser o que ele até hoje é, a Mensagem: primeiro Gladio (“a princípio, o título de um poema na primeira pessoa do singular” (p. 8 ) que “seria dividido em quatro partes, das quais se conhecem apenas os títulos das três primeiras” (p. 7)), depois Portugal, enfim, Mensagem. Poema ele próprio “sphyngico”, próximo do místico, dividido em partes bastante bem comentadas por Cleonice Beradinelli, num efetivo guia de leitura que, jamais limitando a relação direta do leitor com a leitura, torna-a mais fluida, mais instrumentalizada. Afinal, os tempos são outros, mas ainda é, pois “[e]ra” então, “o momento de chegar a Hora, e com maiúscula” (p. 28).

É ainda a mais respeitável pessoana brasileira quem oferece pistas importantíssimas, sobretudo para quem lê a Mensagem pela primeira vez. Por exemplo: “Mantive e mantenho a minha proposta inicial: é a febre de Além que constitui o cerne da poesia pessoana, gerada no homem Fernando Pessoa por aquela religiosidade que, em 1915, ele confessa em carta a Armando Cortes-Rodrigues” (p. 31). Penso no “Magnificat” de Álvaro de Campos, poema que supõe estar dentro de um gato algo desse “Além”. Mas “Magnificat” não está na Mensagem, e é assinado por Campos. Na Mensagem leio, por exemplo, o primeiro poema de Os Symbolos, abertura de “O Encoberto”, terceira parte desse épico tão próprio: “Que importa o areal e a morte e a desventura/ Se com Deus me guardei?/ É O que eu me sonhei que eterno dura,/ É Esse que regressarei” (p. 107).

Num tom de misteriosa grandiloqüência, diversos vocábulos com inicial maiúscula. O o poema intitula-se “D. Sebastião”, “primeiro” d’Os Symbolos. Há que pensar no épico camoniano, e ele interessa a Pessoa, é claro. Mas interessa mais a construção poemática dum regresso, possível apenas no sonho de um Portugal cuja Mensagem possa extrapolar a mera idéia de história, e extrapolar também a mera idéia de heroísmo, pois “D. Sebastião”, “primeiro” dos “encobertos”, não se presta a leitura fácil: ele, o rei, é um problemático “eu”, numa construção deveras sugestiva não apenas dum lugar fecundo do emissor, poeta e ente histórico, mas também de um nós que enceta uma coletividade. Algo semelhante vê Cleonice Berardinelli no poema IV da segunda parte da Mensagem, “Os Colombos” – “Outros haverão de ter/ O que houvemos de perder./ Outros poderão achar/ O que, no nosso encontrar,/ Foi achado, ou não achado,/ Segundo o destino dado” (p. 94) –: “Transfere-se o herói pessoal para o coletivo: outros. A esse caberá ficar com o que houvermos de perder (restos, pois), e ainda com o que, na seqüência de nossos passos”, for ‘achado, ou não achado’. A trilha, portanto, é nossa: seus achados ou não achados foram-no no caminho que abrimos” (p. 41).

Ler a Mensagem hoje é ainda ler certa hipótese de Portugal, distinta da camoniana, distinta de tantas outras: “É a Hora!” (p. 126) é verso de teor permanente, de hoje pois de sempre, mesmo que a “Hora” hodierna redimensione o que seja “Europa” para Portugal. De ontem, e extaordinariamente útil para o leitor de hoje, é o Caderno de Imagens que vem na edição preparada por Cleonice Beradinelli e Mauricio Matos. Lá está, por exemplo, o Brasão de Mensagem, lá estão duas fotografias de Fernando Pessoa, uma datada de 1914 (“um ano após a composição do Gladio” (p. 142), outra de 1935, a última do poeta. O tempo, é evidente, marca as duas imagens, sobretudo se elas forem postas em perspectiva, e o são: uma vem ao lado da outra, e ambas falarão do tempo, não apenas o que foi decorrido entre Gladio e Mensagem, mas o que separa o projeto de sua madura realização.

Além disso, há no Caderno de Imagens a importantíssima reprodução do manuscrito de Gladio (p. 133), vinda do espólio pessoano que tão bem tratado foi por Cleonice Berardinelli. São também interessantes as impressões oriundas do exemplar de 1934 e corrigidas pelo próprio Fernando Pessoa. Um exemplo é a mudança que o poeta fez em “O das quinas”, comentada por Cleonice Berardinelli: “Uma das mais significativas variantes encontra-se logo no início do poema. Onde estava ‘Vendem os Deuses o que dão./ A gloria compra-se a desgraça.’, o Poeta corrigiu para ‘Os Deus vendem quando dão./ Compra-se a gloria com desgraça.’ Veja-se o que ganhou o poema com as alterações: a antecipação do sujeito ‘Os Deuses’ ao verbo ‘vendem’ pô-los em posição de destaque e garantiu-lhes, desde o início, a função de sujeito: a mudança de ‘o que dão’ por ‘quando dão’, tira a certeza de que os Deuses sempre dêem, embora vendendo”. (p. 33, 34).

O comentário vai adiante, mas fico por onde fico, pois a citação da idéia inteira seria excessiva numa recensão. Interessa-me ressaltar o quanto é bem-vinda a presença, na mesma edição em que se lê o comentário citado, da própria correção feita por Pessoa, o que traz um pouco do punho do poeta para o leitor de hoje, leitor do livro. Bem-vindo também é o relato histórico-biográfico, feito por Mauricio Matos, de cada um dos vultos históricos que figuram na Mensagem, dando ao leitor que não é íntimo da história de Portugal a oportunidade de conhecê-los, e, claro, ler melhor a obra que tem em mão. Mais ainda: o leitor passa a poder comparar cada um desses vultos com as personagens que Pessoa, em seu poema, forja, não de maneira histórica, mas a partir da história. A D. Tareja da Mensagem, por exemplo, é mãe da pátria, mais que mãe do pai da pátria, e merece uma espécie de oração: “As nações todas são mysterios./ Cada uma é todo o mundo a sós./ Ó mãe de reis e avó de imperios,/ Vella por nós!” (p. 62). A luta entre mãe e filho tem mais relevância em Camões que em Pessoa. Na Mensagem, o trabalho de escrita pode derivar da história e chegar ao mito – “o nada que é tudo” (p. 59) –, ou melhor, à construção de mitos.

Para os gregos, história e mito não diferiam muito. Para Pessoa, “plantador” de sonhos “a haver” (p. 64), não difere o país de seu projeto passado, presente e futuro. Se futuro, presente, é óbvio, pois nosso tempo é hoje, nossa “Hora, e com maiúscula”, é contemporânea. A nós, feitos pelo tempo, seres de “symbolos” e linguagem, é grato o favor dessa edição da Mensagem, é grata a lembrança de que somos, felizmente, contemporâneos de “Pessoa”, um “poeta vivo que me interessa mais” [1] a cada leitura que faço da Mensagem.

NOTA

[1] BELO, Ruy. Homem de palavra(s). Lisboa: Presença, 1997.


catorze.jpg


Luis Maffei (Brasília/DF, 1974), poeta, lançou seu livro de estréia, intitulado A (editora Oficina Raquel, RJ), em 2006. É também compositor e músico, tendo lançado, em 2005, o disco na mesma situação de blake, em parceria com Marcelo Gargaglione. É bacharel em Letras pela UFRJ, mesma instituição pela qual é mestre em Literatura Portuguesa – tendo defendido a Dissertação de Mestrado Do mundo, de Herberto Helder – e onde também realiza seu Doutoramento, que se dedica ao todo da poesia herbertiana. Ainda na Faculdade de Letras da UFRJ, lecionou Literatura Portuguesa em 2004 e 2005. É ensaísta literário, com trabalhos publicados em periódicos especializados como as revistas Camoniana, Metamorfoses e Gragoatá, e colaborador regular da revista Forum Democratico, para a qual escreve sobre música.

Jump to the top of this page