vende-se o coração de um santo: uma leitura (resumida) de um estranho em goa, de josé eduardo agualusa – evandro domingues


Em Um Estranho em Goa, obra publicada pelo escritor angolano José Eduardo Agualusa no ano de 2000, após os consagrados Estação das Chuvas (1996) e Nação Crioula (1997), temos um narrador autodiegético – um jornalista angolano chamado José – no encalço do personagem Plácido Domingo – um controvertido capitão português que teria se juntado aos guerrilheiros angolanos no fim da guerra de independência de Angola.

Por que Goa? Plácido Domingo, segundo as últimas pistas que o narrador tivera (ou inventara), refugiara-se na antiga colônia portuguesa ao sul da Índia. Ora, se ele seguira para Goa, como poderia ter ido a Berlim, Arequipa ou Corumbá (o que de fato já fizera, conforme se lê no conto “Plácido Domingo contempla o Rio, em Corumbá”), Goa seria tão-somente cenário, pano de fundo das aventuras do narrador, não estando, portanto, incorporada à “filigrana da narrativa”, na feliz expressão de Antonio Candido. E se o pano de fundo era para ser Índia, por que não as ricas (e mais “exóticas”) cidades do Maharashtra, do Rajastão, do Punjab?

É que Goa não está presente na obra de modo casual, mas sim a permitir a discussão de conceitos como identidade, identidade nacional de Angola e de Goa,colonialismo, e, principalmente, legado português e lusofonia, ainda que menos pelo fato de José Eduardo Agualusa ser um escritor / jornalista em trânsito por países falantes da língua portuguesa e mais por seu narrador (inevitável alter ego) ter, por assim dizer, alguns interesses semelhantes aos de seu autor. E aos nossos.

É a própria motivação para a viagem, desencadeadora do enredo, que já pretende colocar o leitor dentro do campo ficcional. O narrador não viaja em busca de um homem, o que poderia configurar um relato de viagem, mas em busca de um personagem, o que já configura a ficção. Com efeito, há no romance dois fios condutores: a procura de Plácido e, depois, já em Goa, a tentativa de aquisição de uma relíquia – o coração de São Francisco Xavier. No bojo desta tentativa, ocorre o assassinato de Jimmy Ferreira, dono de bar e traficante (de drogas, de mulheres, de relíquias), que iria obter o coração do santo para o narrador. Estes dois fios se entrelaçam, de vez que há uma relação, jamais esclarecida totalmente, entre Plácido e a relíquia. A busca de Plácido Domingo, viagem externa, funciona como pretexto para buscas outras: busca de si mesmo, busca da identidade de seu país de origem, discussão da identidade de uma ex-colônia portuguesa.

Ver, no entanto, a busca por Plácido Domingo, e depois pelo coração de São Francisco Xavier, como a questão central do romance é esvaziar-lhe das discussões que suscita e, ademais, ignorar que o próprio gênero romance está sendo debatido. É considerá-lo “leitura de entretenimento” no pior sentido lukácsiano do termo. É ater-se exclusivamente à sua semântica e ignorar sua sintaxe.

Mas é lícito perguntar: o que quer o narrador fazer com a relíquia, o coração vivo de São Francisco Xavier? O texto informa-nos que o mártir católico, cujo corpo se encontra na Igreja de Bom Jesus em Velha Goa, “exerce um prodigioso fascínio entre toda a população de Goa, católicos, hindus e muçulmanos, pouco importa” (p. 66), recebendo mesmo o nome carinhoso de Goencho Saib (Senhor de Goa, em concanim). O coração do santo, ou melhor, todo seu corpo, simboliza o próprio legado português em Goa. Mas este legado, ressalte-se, já devidamente hibridizado, manchado (a personagem Lili, que restaura livros, não sugere, ao narrador e a nós, uma leitura que não apagasse as manchas?), negociado, corrompido pelos séculos de f(r)icções geradas pela colonização. O narrador dá conta disso:

Os próprios jesuítas, no entanto, não resistiram a comerciar as relíquias. Algumas famílias, em Goa, orgulham-se de possuir pedaços do corpo do santo. Você pode visitar, por exemplo, a casa dos Bragança Pereira, em Chandor, e ver um dedo de São Francisco incrustado numa base de prata. (p. 65)

Aceite esta nossa interpretação, de o corpo simbolizar o legado português em Goa (e, por que não dizê-lo, a lusofonia), podemos ver como ela ilumina o trecho acima, pois temos este legado sendo repartido, dividido pelas famílias goesas, e mesmo retalhado e canabalizado, conforme Plácido Domingo explica ao narrador:

Em 1614 os jesuítas cortaram o braço direito do santo e enviaram-no ao Papa. Parece que o braço, assim mesmo, alforriado, conseguiu assinar o próprio nome, ou melhor, o nome de Francisco Xavier, milagre que terá contribuído para a sua canonização. Alguns anos mais tarde, já o corpo se encontrava neste lugar, uma fidalga portuguesa, fingindo beijar os pés do santo, arrancou um dos dedos com os dentes e guardou-o na boca, levando-o depois para seu palacete. Os jesuítas deram pela mutilação ao anoitecer. Bastou-lhes seguir o rasto de sangue fresco para descobrir a culpada – que então se arrependeu. (p. 65)

É interessante observar que tanto os vendedores do corpo do santo quanto a beata gulosa colocam-se como sujeitos, como senhores do patrimônio, da lusofonia. O narrador, se goês não é, se diz ser “estranho em Goa” (e não o é tanto assim), não é estranho à lusofonia, da qual quer também o seu quinhão pois, na tentativa de comprar o coração vivo do santo (de maneira corrupta), iguala-se a eles. A vida pelo mundo em pedaços repartida dos famosos versos camonianos ganha no romance a concretude do corpo de um santo que simboliza um legado que é, em Goa, nem ponto de chegada nem de partida, mas interseção de percursos e imaginários.

Esta visão da lusofonia que aqui defendemos assemelha-se à defendida por Eduardo Lourenço em ensaios de A Nau de Ícaro. Se há imaginário lusófono em Goa, este é o da pluralidade e da diferença, e não o da essência e da repetição, como queria o luso-tropicalismo (ou luso-contentismo?) de Gilberto Freyre e ainda hoje quer certa “idéia mágica de lusofonia” (Lourenço, 2001: 166) que, embora evite dizê-lo em voz alta, suspira ao perceber que aquele minúsculo ponto na costa oriental da Índia desbota e torna-se cada vez menos rosa no mapa. A lusofonia da idéia mágica, mitificada, que não consegue desentranhar lusofonia de lusofilia, de “intenções inconfessadas ou inconfessáveis” (Lourenço, 2001: 181), implicou, ao longo dos anos e ainda hoje, uma subalternização das culturas nativas. O resultado, para este projeto de lusofonia com visgo de univocidade, que não é o de Eduardo Lourenço e nem o nosso, é a luso-afonia, sutilmente ilustrada nos contos de Monção, da escritora goesa Vimala Devi.

Do latim reliquiae (resto), relíquia não tem aqui, em absoluto, a conotação de derrisão que assume na leitura desorientalista empreendida por Eça de Queirós no seu célebre romance homônimo. Aqui temos um narrador que parece crer – até onde isso é possível – em seu intento, que é o de adquirir, de maneira corrupta, um naco do corpo incorruptível do santo. E este pedaço é exatamente o coração vivo, o mais importante.

À credulidade do narrador sobrepõe-se o espírito investigativo de sua profissão. Talvez pudéssemos parafrasear: à aventura do narrador romanesco sobrepõe-se o texto referencial do jornalista do relato de viagem. Essa sobreposição, em vez de destruir a beleza da leitura metafórica, amplifica-a. Assim, depois que a primeira tentativa de aquisição fracassa, Plácido Domingo torna a discorrer sobre a relíquia ao inquieto narrador, no capítulo intitulado “Como fazer uma múmia”:

De resto, como lhe disse antes, também o corpo de São Francisco se corrompeu. Nada resiste ao tempo. A própria Igreja não mais defende que existe um corpo incorrupto na Basílica do Bom Jesus, e sim, simplesmente relíquias. Ou seja, ossos, pó, sonhos, coisa pouca. (p. 119)

Ossos, pó, sonhos, coisa pouca: raras vezes o legado português em Goa foi representado de maneira tão poética e verdadeira. Um dedão do pé arrancado por uma fiel, um braço que viaja e assina o seu nome, um coração palpitante em uma caixa: este corpo desmembrado e comercializado (corrompido, portanto, “a própria Igreja não mais defende que existe um corpo incorrupto”) não é o de uma múmia. Mumificar o seu legado, que envolve língua, religião, culinária, arquitetura, práticas culturais de um modo geral, é precisamente o que Portugal tentou e tenta, sem sucesso, fazer, para que ele possa sobreviver na forma de uma essência, na forma da pureza das igrejas caiadas que coalham a paisagem. A esse respeito, vem-nos à mente uma outra “múmia” da literatura: Miss Rimmle, do conto “Europa”, de Henry James. Aqui, com efeito, Miss Rimmle, inteiriça, imortal, incorruptível, representa o legado de New England às gerações seguintes. Dela, nada se devora, nada se arranca senão palavras secas. O legado português, em Um Estranho em Goa, a despeito de intenções oficiais da Igreja ou do Estado português, é devorado, repartido e, ainda que pó e sonhos (ou exatamente por isso, o que fazer com pó e sonhos?), propagado: ao final do romance, o narrador, já no avião, recebe, enfim, a caixa com o coração do santo.

O final do romance, em aberto, contraria expectativas iniciais do narrador: “Escrevo porque quero saber o fim. Começo uma história e depois continuo a escrever porque tenho de saber como termina” (p. 12). Na última página da obra, o narrador recebe, já no avião, um pacote, dentro do qual pulsa algo vivo. O leitor pergunta se nele estará o coração de São Francisco Xavier. Apesar da insistência do passageiro ao seu lado, um irrequieto menino indiano, ele não o abre. Mas sabemos que ele, que ao fim da narrativa encontra-se em pleno ar, mais interessado em routes que em roots, carrega parte do legado de uma lusofonia plural para sua casa, suas casas. Afinal, mais uma vez com Eduardo Lourenço, “é bom estar na casa dos outros como na nossa. É melhor que os outros estejam em nossa casa como na sua.”


Evandro gosta de rock progressivo e cultura cervejeira. Esteve duas vezes em Goa, de onde trouxe coisa pouca: ossos, pó, sonhos, fotos e uma tese de doutorado. Para contato com o autor, enviar e-mail para evandrodomingues@oi.com.br

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