não me rendo ao fracasso - leonardo vieira de almeida


Mantenho-me em posição limítrofe, sensação de completa entrega e inércia, bebendo de um copo o líquido demasiado forte, tentando esquecer os últimos dias, mas sabendo ser impossível.

O certo é que tudo passou muito rápido. Deixei que esse momento se esfacelasse, destruindo aquilo em que acreditava ainda ser meu esteio, não passando agora de um rastro apagado por pegadas demasiado profundas, sulcos na terra provenientes do peso de toda a raiva acumulada, de toda vingança que não sei de onde provém, para destruir, para humilhar, para ofender, para enterrar o que me fazia antes um homem decente.

Só sei que a bebida acabou, quando, ao tentar sorver o que há no copo, deparo-me apenas com a superfície dura e bisotada, sentindo o resto de álcool subir do fundo e inocular-me as narinas, os dentes cravam-se no vidro quase a ponto de quebrá-lo. O cigarro é um veneno, mas se ao menos me restasse esse prazer que consegue em certas pessoas apagar as reminiscências mais recentes, encobrindo-as de névoa, poderia ser que esse torpor se dissolvesse e eu, levantando-me da cadeira, dirigisse-me ao pátio onde agora as crianças gritam e são repreendidas pelos pais. Aqui é uma vila habitada na maior parte por gente idosa e apreciadora do repouso acolhedor da absoluta falta de ruídos – cumprimentar-lhes-ia, atravessaria a calçada até o lugar onde fica um banco, sentar-me-ia, cruzaria as pernas, observaria os beirais dos telhados gotejando os últimos resquícios da chuva de ontem, que deixa esse cheiro de umidade embalar-me ainda mais na impossibilidade de me mover, ansiando que a noite chegue e doe um fogo mais vivo e gélido à lembrança do meu crime, de minha incompetência a tudo o que se refere à vida prática.

Pouso o copo sobre a mesa de canto, escutando o estalido reverberar pelo tampo vítreo. Um gancho de ferro projeta-se da parede em frente, e se me fosse dada ainda a faculdade dos movimentos, seria o caso de me erguer e segurar esse objeto na parede, relembrar-me de que é apenas um gancho de ferro e que a sua função é a de sustentar coisas, içá-las do solo, mantendo-as apartadas da realidade dura e inexorável de um piso de ladrilhos gastos e retilíneos, que um homem de meia idade, inflexível, rijo como madeira seca, poderia ter seu pescoço atravessado pela ponta afiada, que sua carne abrir-se-ia macia e acolhedora ao gancho na parede, que os vizinhos começariam a incomodar-se com o cheiro escapando das cortinas semicerradas, olhariam pela janela meu corpo pendurado na parede já encoberto por uma vegetação rala e daninha, e sentir-se-iam assustados. Assim seria um ótimo meio de me livrar de toda a carga que me dobra a carne, que a espeta com as finas agulhas de sua máquina invisível e implacável.

Acionaram a bomba hidráulica. Ouço o matraquear cheirando a óleo diesel e a aluvião de pó que sobe do pátio pela brincadeira das crianças. Apalpo meu ventre inchado à procura de um indício de decadência, porém, sinto-o duro, insondável como uma lâmina de metal. Não estou grávido, mas estéril dos últimos dias, quando podia me suster de pé, atravessar a casa comodamente sem qualquer receio de me deparar com a total incapacidade para prosseguir, pois alguém com quem se entreter, alguém que ocupava o oco por trás das venezianas e das portas robustas e talhadas, que falava, dormia e ressonava a noite inteira, exalando seu hálito que até agora permanece indestrutível em algum lugar de meu cérebro, na redoma que protege o relógio por cima do aparador e que é uma réplica de uma catedral estrangeira de que não me lembro o nome, esse alguém se foi. É um segredo, impossível para mim que o revele, mas é necessário, um meio digno de continuar, de me fazer levantar dessa cadeira e confessar no pátio, impulsionando a voz de modo que todos em suas casas me escutem, que façam seu julgamento, conforme sua necessidade, que me sentenciem, façam o devido. É esse hálito, recendendo à cânfora, a azedo e doce, a um gosto rubro de língua lambendo as falanges expostas de meus dedos dos pés o que me condena, pois é a prova quase cabal de meu fracasso. Homem, menos que homem, para procurar ainda manter-me superior, como um ente de consistência das pedras, gretado de ravinas em que o vento raspa a pele compondo fiordes de onde grasnam negras aves submersas no gelo. Mas se me levassem lá para fora e me exigissem a quota de punição, eu retiraria minhas roupas e suplicaria que me açoitassem, que me chicoteassem as crianças, entretendo-as nessa brincadeira rude e vulgar.

Porque tornei a suavidade no mais baixo desprezo, e olhando para a cama atrás da porta do quarto posso apreender o sofrimento que eu infligia, diário, metódico, satisfazendo-me, mas incapaz de atingir o outro, prazer fechado, como uma convulsão interna, explodindo nos lábios, em brancas protuberâncias apenas apaziguadas pelo monótono deslocar de vento morno e caligem soprados pelas pás do ventilador de teto.

As crianças gritam, porque possuem uma força que cresce em seus ossos e cabelos, em lábios de tenra carnagem, e consigo divisá-las através de uma estreita fenda nas cortinas: essa diversão que mantém os meninos e meninas reunidos como por uma assimilação de gestos contraditórios, de um sorriso correspondido com um palavrão, um afago com uma mordida; toda essa gama de corpos tenros, doces, novos, chega-me à sala, me envolve numa bolsa de ar aquecido pelo mais degradante desejo, já acordando, espreguiçando seu dorso atilado em meus órgãos. Isso que tenho com as crianças, no armário, nas gavetas: caixas onde coleciono fotos, onde congelo os cachos anelantes, os pomos temperados de fulgor, as bochechas, os pés suaves como sementes. E uma vareta de metal surge do teto, saindo como uma antena de barata escondida sobre o forro, e me rasga, lacera meus lábios, atravessa meu corpo em surdos orifícios por onde escapa areia, e escaravelhos da cor de ginjas maduras começam a picar meus pés, injetando pelos seus ferrões o veneno que sobe por minhas pernas – num átimo, as artérias se dilatam, e um rio negro, partindo de um delta de três insetos colados aos ladrilhos, transborda até atingir meu peito, apenas uma momentânea necessidade de me dissolver e atingir esse estado de força, de domínio, pois tudo carece de dobrar o outro, subjugá-lo a mais mesquinha de nossas vontades.

Se de fato as coisas se movem por meio desse objetivo, se algo vive e é necessário que outro pereça, se numa cama há o que subservientemente obedece ao impulso com que da mesma forma um chefe dá ordens, se os pais lá fora também exercem seu poder sobre os filhos, eu, por meu lado, abstenho-me da posse, ainda lembrando da companhia que há pouco dividia comigo esses cômodos, que se submetia às minhas vontades, permitindo que as protuberâncias brancas em sua boca fossem o emblema corruptível do grito de se perpetuar, de gerar um objeto com que possamos ser os manipuladores, modeladores de seu ofício ou simplesmente de seu alento. Os três insetos chegam até as falanges descarnadas dos meus dedos dos pés, sobem por minhas pernas, instauram a silenciosa autofagia dessas criaturas que se auto-erotizam, espécie sicária de um domínio próprio que se faz através de uma lenta suspeição do que nos cerca.

Levanto-me. Entre uma fresta na cortina vejo a criança de costas inclinando-se sobre o lago artificial que delimita a praça de brinquedos, tentando de algum modo seguir os movimentos dos peixes que se enroscam em alguma pedra ou vegetação no fundo da água. A nesga de sol projeta em seus cabelos uma aura difusa, e agora, penso na incorruptibilidade das crianças e da velhice. Tenho vontade de abraçar essa criança, como todos os filhos que nessa hora brincam no quintal. E também beijar os velhos. O gozo adormecido da infância e o gozo sepultado da velhice são ambos uma mesma face, com a qual se compra o silêncio do apetite. Os velhos em suas espreguiçadeiras, ressequidos, empoados, são mesmo a libertação do desejo, o sexo adormecido em gazes de múmia. Quero atingir o estado vegetativo dos asilos, ou regredir aos meninos e meninas de cinco anos observando os peixes. Porque nesse espaço delimitado do lago, atraído pelo solo vítreo, sou abalado pela vontade de tocá-lo, encostar meu nariz sobre a tampa de água sob a qual jovens homens e mulheres estão cristalizados, suas mãos oferecendo peixes para o transeunte que, desavisado, é tomado pela vontade de querer tocá-los. Os jovens mortos, cuja carne embalsamada flutua sob o lago, para perturbação dos que, como eu, são vítimas desses assaltos, desse temor da carne, saído da grande urna frigorífica para a água imóvel do lago. E em torno, nas janelas das casas vizinhas, a existência segue seu curso: visitas dos parentes, comer bolos, beijos frugais, a música, o esporte.

Não posso sair, e agora, essa certeza alcança os três insetos que acabaram de cravar seus ferrões em meu peito, tentando sugar das veias o líquido que me rege, mantendo-me de pé, olhando a criança congelada na posição de observar o lago, imaginando que nesse instante todos perderam seus movimentos, que da sua carne fulgindo de vontade restam estátuas interceptadas em seu último movimento, os velhos absortos nas espreguiçadeiras, um casal tentando atingir a música do gozo, alguém limpando o corpo da sujeira diária. Mas eu me movimento. O sol prossegue na faina de desenhar sombras, o vento faz gritar os corredores, a catedral sob a campânula de vidro perdeu a propriedade de controlar o tempo. Eu me dirijo sem me dominar, atravessando portas e janelas, exibindo meu rosto na parede do quarto de dois amantes imóveis, torcendo meu braço para ver a tentativa fracassada de um menino gritar ante a violência de meu gesto; ninguém é atingido, o impulso estacado, a inércia dá voz ao projeto de assumir a incapacidade de agredi-los. A mão no peito, aliso os três insetos, me deixo coroá-los como os únicos seres que me movem. Os pés à frente, os braços cortando o ar, avanço. Abro a porta, mostro-me na vitrine de um dia sem perspectivas. O copo ainda refrata a luz do sol nas paredes. O gancho me implora a carne incorruptível. A carne é apenas o que me move. As artérias vazias, a pele senil e inodora. Prossigo.

Leonardo Vieira de Almeida é Mestre em Literatura Brasileira (UERJ) e Doutorando em Estudos de Literatura Brasileira (PUC-RIO). Autor do livro de contos Os que estão aí (Ibis Libris, 2002), e de contos publicados no suplemento literário Rascunho, do Jornal do Estado do Paraná, no jornal Panorama e nos sites literários Paralelos, Bestiário, Cronópios, Germina e Confraria do Vento. Co-autor do livro À roda de Machado de Assis: ficção, crônica e crítica (Editora Argos, 2006).

Jump to the top of this page