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                                                            luis maffei


Uma aderência, uma pertença, uma aliança

Recensão a Para apascentar o tamanho do mundo, de Sebastião Edson Macedo. Rio de Janeiro: Oficina Raquel, 2007.


Não sei se corro assim tanto perigo. Quem está à página 60 de para apascentar o tamanho do mundo não sou eu, é um nome. E de nomes, sabemos todos, faz-se a poesia. Também de afetos? Neste caso, será um pouco de mim ali, admito. Refiro-me a “Com Maffei no Jewerly District Los Angeles CA”: “desnecessária é/ a ti/ a sugestão dos guarda-chuvas/ porque desces a estes esquadros/ numa épica própria/ e justo no trajo/ que te perdia de pronto” (p. 60). Claro, afeto, mas antes de tudo um nome, um “trajo” (trato?) poético em segunda pessoa. Eu, que sou alguém antes de ter um nome, que corro mais perigo quando, por exemplo, adoto para mim a aspereza generalizante do eu, jamais estive em Los Angeles. Sebastião, sim, esteve, mas isto pouco importa. O que vem ao caso quando um amigo nomeado faz-se leitor e, mais grave ainda, comentador, é estar, diante de todos os avisos da crítica e do senso comum, livre de todos os avisos da crítica e do senso comum: ainda o poema já citado: “fuck off” (p. 60). Mas livre não; talvez, na verdade, um pouco surdo. E atentíssimo ao que dizem os poemas sobre os quais me debruço. Aí ouço: “ouvimos demolição e porra ópera” (p. 62). Aí pergunto: é um presente em estabelecimento que se instaura?

Sim, é: para apascentar o tamanho do mundo. Se o “mundo”, claro, é um (o) lugar, na mirada de Sebastião será também um (o) tempo: para poetizar o tamanho do tempo: “para apascentar o tamanho do mundo/ e aderir aos avisos/ e suspender a invenção do dia seguinte” (p. 23), diz o poema que não é o de abertura do livro. Mas é uma espécie de interno frontispício, um modo de inflexão da voz do poeta. A propósito, por perto do poema californiano, antecedendo-o, um “Périplo”, um tempo estrito num lugar visto, de olhos bem abertos, por este livro que se propõe (?) “suspender a invenção do dia seguinte”: “mesmo folhas/ cogitando-se cachos/ nos arabescos do vento/ anoitece incógnito/ o itinerário das nuvens” (p. 59). “folhas” não cogitam, mas olhares, claro que sim: “cogito ergo sum”? Não: “Passeio seguido de táxi”, poema anterior: “cidade alambrado rumor/ misto silêncio passageiro/ no banco ausente de trás” (p. 58). “banco ausente”, é claro, conversa ao pé do ouvido com o “incógnito” “itinerário das nuvens”. Feito: o “dia seguinte” pode ser um lugar de ausência, pois “aderir aos avisos” será, também, modo muito em verso duma possibilidade da morte.

“Carnavália – 3 máscaras”, outra possibilidade da morte, logo da vida. Uma das “máscaras”, “Pilingrim”: “e se escapole/ presto/ no sacolejo riso/ saltimbanco guizo sobre si” (p. 55). “riso”, não rijo; rijo, portanto: é com música que se apascenta o tamanho do mundo. É com música, logo, que se melodiza o tamanho do tempo, agora tempo próprio, tempo da música, tempo do ritmo, tempo das escolhas. Tempo da morte? Tempo da morte, rijo. Se existem culturas várias em para apascentar o tamanho do mundo, sou seduzido a pensar no carnaval não apenas como algo que sempre acaba, numa espécie de morte datada e recorrente, mas também numa perspectiva carnavalesca da morte afim, talvez, à dos mexicanos: caveirinhas que se comam, máscaras que mimetizem o fim do tempo de cada um, “3 máscaras” antecipando os cadáveres adiados que cada um de nós é: “riso”? Evidentemente, já que nada aqui é lúgubre, ainda que muito seja da ordem do fado: morre-se, mas com música, morre-se, mas com dança. E vive-se, é claro. Por isso mesmo.

Repito: “folhas” não cogitam, “folhas” vivem e morrem, e só digo tal coisa porque me sabe ingênuo pensar tais “folhas” como componentes de um qualquer livro – “desconfio do livro como lugar de legitimação do poema” (p. 111), afirma, em seu posfácio, Sebastião. Poderia eu dizer-lhe que não desconfiasse, já que livros são apenas livros. Que esperar de um livro senão que ele seja, por assim dizer, o que ele é? Por que esperar de um livro o “lugar” da “legitimação” seja do que for? O fato é que existe o livro, o nome do livro e nomes a mancheias dentro do livro. E há o nome mesmo que de um pronome se trate: “quando for dar de beber à bromélia/ esteja descalça e penteada/ ou pelo menos tenha ouvido a chaleira/ se alvoroçar antes do pio// você pode ter os anéis deitados no mármore/ mas isso depois do banho/ depois de vestir a calcinha” (p. 99). Que o “você” terá que ver com tantas instruções do sujeito lírico que finge querer ser outra coisa ao fingir querer estar fora da terceira pessoa? O “dia seguinte” está, num tom tão dilacerante e fatal, inventado? Decerto, pois em “Quando for dar de beber à bromélia”, o imperativo é o que revela ser o “dia seguinte”, se em lugar próprio de “dia seguinte”, ininventável.

E ilegitimável. Faz sentido, agora, pensar que este livro não legitima nada. Nem a poesia é capaz, para Sebastião, de legitimar, seja o tempo, seja o mundo. Mas é capaz de, estupefata e estupefaciente, fazer-se da ordem da surpresa. Pois, “Surpresa”, estrofe final: “foi preciso correr com o telefone no pulmão/ para deixar tudo na mais perfeita porta” (p. 100): nada de surrealismos, ou surrealizações – que se evitem seduções assim na abordagem deste livro. Apenas, ora, surpresa: “telefone no pulmão”, “mais perfeita porta”. Atenção: que será uma “perfeita porta”? Algo que permita a “mais perfeita” ordem? Algo que apascente o mundo, conduzindo-nos, leitores, a ele? Algo que suspenda o tempo, o “dia seguinte”? Algo que possui um nome, o seu, o próprio: “porta”. E basta: “eu moro uma palavra em tua mão peregrina” (p. 20).

Cabe, pois, falar em aliança: “passo o teu nome lavado em gérbera/ para o anel/ as duas mãos conduzidas ao leito/ da luz” (p. 21). Deve ser bom morrer em companhia. É, seguramente, bom amar em companhia de outra mão. Vou, enfim, ao “Pórtico” do livro, ao início da condução, do apascentamento: “uma parte de ti eu reconheço porque se repete/ duas ou três cadeiras para a mesma janela/ um ou outro degrau de diferença/ na medida em que corres à prosa” (p. 19). Quem corre? Não importa, pois corre de mãos dadas, não obstante qualquer “diferença” que, no fim das contas, será condição de encontro. Assim se sente o leitor, ou melhor, assim me sinto eu, leitor que se quer em estado de ação, de “anel”, de aliança: “uma parte” do livro “eu reconheço” porque se dá à leitura, se dá a meu olho. Outra, como sói ocorrer na alta poesia (quem tem medo de falar em alta poesia? Corro outro perigo? “fuck off/ a solução dos cotovelos” (p. 60)), situa-se num espaço que apenas aparentemente é de obscuridade – a propósito, é por demais pequeno pensar numa dicotomia tão escusada como a que opõe obscuridade a clareza. Tal espaço é, pelo contrário, de movimentação de “cadeiras”, de ocupação lúdica dum espaço afetuoso e libertário. É por isso, e não por qualquer nome civil identificador, que me deixo estar neste livro. Porque ele me acolhe. E permite-me, próximo a uma “mesma janela”, correr a uma “prosa” deveras íntima: “tenho para mim que benfazeja/ a aroeira que te vai guardando” (p. 22).



Luis Maffei (Brasília/DF, 1974), poeta, lançou seu livro de estréia, intitulado A (editora Oficina Raquel, RJ), em 2006. É também compositor e músico, tendo lançado, em 2005, o disco na mesma situação de blake, em parceria com Marcelo Gargaglione. É bacharel em Letras pela UFRJ, mesma instituição pela qual é mestre em Literatura Portuguesa – tendo defendido a Dissertação de Mestrado Do mundo, de Herberto Helder – e onde também realiza seu Doutoramento, que se dedica ao todo da poesia herbertiana. Ainda na Faculdade de Letras da UFRJ, lecionou Literatura Portuguesa em 2004 e 2005. É ensaísta literário, com trabalhos publicados em periódicos especializados como as revistas Camoniana, Metamorfoses e Gragoatá, e colaborador regular da revista Forum Democratico, para a qual escreve sobre música.

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